A demora no atendimento em UPAs
Os problemas causados pelo descaso nas Unidades de Pronto Atendimento e suas causas
O Caso de Maria de Chagas
A demora no atendimento, a falta de estrutura, a ausência de profissionais capacitados. Essas são apenas algumas das reclamações de quem precisa utilizar o Sistema Único de Saúde (SUS).E quando a demora ou a negligencia no atendimento acarretam em morte? Foi o caso da paciente Maria da Luz de Chagas, que no dia 23 de junho de 2015, morreu em decorrência de um aneurisma cerebral. Maria faleceu após esperar por mais de 3 horas por atendimento na Unidade de Pronto Atendimento do Fazendinha.
Segundo testemunhas, Maria passou pela triagem, que é o primeiro procedimento realizado quando o paciente chega a uma UPA.Ela passou pela triagem às 19h22 e faleceu por volta das 23h00. Enquanto aguardava a consulta com o médico, as dores pioravam, até que ela e o marido, Vilson dos Santos, decidiram ir até uma farmácia com o intuito de comprar uma medicação para aliviar as dores. Entretanto, chegando na farmácia, Maria piorou e teve que ser levada às pressas de volta a UPA.

A demora no atendimento e a negligência médica estão englobados nas causas do falecimento de Maria, pois ela poderia ter sobrevivido por mais algum tempo caso o enfermeiro que mandou ela aguardar sua vez tivesse notado a gravidade do caso.
O enfermeiro foi indiciado por homicídio culposo. De acordo com o delegado responsável, Francisco Caricati, ele tinha mais de 23 anos de experiência e, além de ter acesso ao histórico da paciente, sabia que sintomas como os que ela apresentava — dores fortes na cabeça — poderiam representar uma emergência séria como é um aneurisma. O delegado não afirma que a vida dela teria sido salva, mas suas chances seriam maiores, e sua vida teria sido mais longa.

Descaso generalizado
O caso de Maria não é isolado. No Brasil inteiro são diversos os casos de pacientes que morrem aguardando uma consulta, ou são vítimas de negligencias. Também em Curitiba, na UPA Matriz, anexa ao Hospital de Clínicas, as irmãs Denise, Bernardete e Roseli Machado tiveram problemas na noite de 22 de outubro.
Denise tinha dores severas nas costas. Após chegar à UPA, perto das 21:30, ela passou pela triagem, que consistiu em perguntas sobre seu estado e medições de pressão e temperatura. Esperaram até às 23h, quando uma das irmãs resolveu perguntar sobre a demora. “O nome dela não estava mais na lista de espera. Ela tinha sido dada como atendida”, diz Bernardete Machado. Elas não eram as únicas com esse problema. Enquanto constatavam que o nome de Denise havia sumido da lista, outro paciente que aguardava reclamava da mesma coisa.
O nome dela foi recolocado à lista, e novamente ele saiu dela sem que a paciente tenha sido chamada. As irmãs só conseguiram ser atendidas depois das duas horas da manhã. “Lá dentro havia inclusive uma disputa interna sobre quem não iria atender a paciente”, conta Bernardete sobre o descaso da enfermeira.

Reclamações
Em 2014, houveram, em média, 34,25 denúncias por mês à Polícia Militar do estado de Minas Gerais sobre omissão de socorro e mau atendimento, totalizando 411 boletins de ocorrência. De acordo com reportagem da Gazeta do Povo em 18 de setembro de 2015, mais da metade das reclamações em relação às 9 UPAs de Curitiba têm relação com a demora no atendimento. O mês de julho deste ano teve 285 reclamações, das quais 160 eram sobre o tempo de espera, que poderia chegar a até quatro horas, o dobro do máximo estipulado pelo Conselho Federal de Medicina.
Triagem
A triagem nas UPAs é feita por cores. Baseando-se em seus sintômas, os enfermeiros classificam o paciente em Verde, que indica urgência baixa, sem risco de vida, Amarelo, indicando uma urgência de maior gravidade, mas que ainda pode esperar e Vermelho, que indicam emergências que ameaçam a vida.

É importante notar que um dos motivos apontados por enfermeiros e especialistas para a dificuldade de atendimentos nas UPAs são a má utilização delas. De acordo com o site do Governo de Palmas sobre as UPAs — com regras que valem para todos os estados — quem deve procurar as Unidades de Pronto Atendimento são pessoas em estado de urgência ou emergência. Situações que não podem esperar uma consulta, como pessoas com dor forte, desmaios, sangramentos e convulsões, além de pessoas que tem diagnóstico de pressão alta ou diabétes. As emergências implicam em risco de vida e também não podem esperar.

Em 2013, no site brasil247, foi publicada uma entrevista com o então secretário de comunicação de Curitiba, Gladimir Nascimento. De acordo com ele, a população não sabe usar as UPAs, indo até elas com casos que poderiam esperar uma consulta, sem urgência ou emergência. Isso sobrecarrega os enfermeiros, , que tem dificuldade em atender a todos.