Chama como quiser, as vezes eu chamo de faxina

Uma vez disseram “escreve sobre isso, põe no papel tudo que você gostaria de pôr pra fora”. Lembro que já fiz isso outras vezes, até dava certo. Mas lembro também o quanto isso é de rasgar as veias. O quanto ir juntando as palavras e formando a verdade dói. E está doendo. Isso aqui vai ser um monte de metáforas mal elaboradas e sem compromisso com a gramática, só com a verdade mesmo.

Foi uma tempestade e tanto, ou foi terremoto? Ainda não foram colados todos os pedaços, essa casa ainda tá uma bagunça e tem muito cômodo vazio. Grande parte deles ficarão sempre ali vazios ou passarão a ser aquele quarto da bagunça que todo mundo tem em casa e parece só servir para acumular coisa velha, rasgada e sem conserto, mas que você deixa ali “vai que um dia tenha utilidade” (não vai ter). Ou para guardar aquilo que por mais que você conheça a utilidade, esteja intacto (ou com algumas marcas de uso que seja) não cabe mais, não é algo que você use tão sozinho quanto está hoje, ou foi deixado ali por alguém que não consegue mais usar. Passear nesses cômodos e se deparar com tudo ali meio que arrumado aparentemente, mas obviamente fora do lugar, é como admirar aquelas obras de arte estranhas, que à primeira vista você não entende “WTF???” Mas que se continua olhando vai despertando as sensações, vai submergindo dentro da sua consciência e te leva em viagens mais longas que a volta ao mundo em uma bicicleta. É tanto lixo encobrindo as suas melhores fotos, seus postais e os suvenires das suas melhores viagens. Aquela peça de roupa estranha que você analisa e esbraveja como teve coragem de usar aquilo? Comer aquilo? Fazer aquilo? Dizer isso? Ir ali??? Passear por esses cômodos entulhados é pedir para abrir outra ferida. Sempre vai ter aquela cadeira partida que vai te dar um tombo, aquele copo quebrado para abrir-te o dedo ou aquele móvel no meio do caminho para dizer oi ao mindinho. Vai ter também aquele CD antigo que ainda que fora de moda, contexto, das rádios ou dos fones de ouvido dos seus melhores amigos continua sendo o seu favorito e mostra o quão eclético o tempo te faz ser. Com aquela canção manjada que ninguém aguentava mais ouvir à época, nem mesmo você, mas hoje parece tão atual, soa com tanta força que nem parece que você se negou a ouvir. Quem diria que você guardou aquele CD e jurou jamais ouví-lo novamente? Apesar de tanto cacareco inútil tomando espaço, impedindo a passagem da luz, tornando o caminhar difícil volta e meia você encontra aquela foto que ainda ficaria bem naquela moldura ao lado da cama, a camiseta básica que você usou naquele show, no primeiro encontro, e da última vez que topou com quem está com você naquela foto meio bacana que vai parar naquela moldura de novo e será encarada ao som daquela música old but gold. A gente acaba sempre tirando algo dali, se não for para o reuso na tentativa de reviver aquela sensação impregnada na memória afetiva vai ser para jogar fora mesmo. Por quê se tornou cansativo abrir a porta e encontrar aquilo ali, volta e meia aquele baú mórbido te causa dor nas costas, já que você insiste em achar que serve pra alguma coisa, nem que seja para apoiar coisas boas em cima. Mas não, não serve para nada, foi um péssimo investimento e só. Foi errado, muito errado, AONDE VOCÊ TAVA COM A CABEÇA? PRECISA PARAR DE GASTAR A TOA, ACHAR QUE PRECISA, QUE PODE SER ÚTIL”. Precisa parar de se sabotar, pode ser cool, mas não te cabe. Sabe que fica bem no fulano, naquela sala da cicrana, naqueles braços, noutra cama, mas aqui não. Nunca coube e você sabia, mas essa mania de controle e pensar que se afastar daqui, apertar de lá… NÃO. O tempo até resolve, mas quando tem de ser. Quando é para caber não precisa de reformas miraculosas nem de uma garibada na pintura sequer. Quando cabe é barato, o frete não demora e até os arranhões nas suas paredes contrastam de forma positiva. Mas você comprou, investiu tempo, dinheiro e a sua força empurrando aquilo de lá pra cá, daqui pra lá, arranhando outros móveis durante o trajeto, e até quando achava uma posição boa e alguém elogiava era insuficiente. Não seria mais fácil vender pela metade do preço na internet? Procurar alguém que encontrasse utilidade? SEI LÁ SÓ LARGA ISSO NA RUA E DEIXA QUE ALGUÉM LEVA. Mas não, ficou ali usando pouco, enchendo de pó, arranhando, ocupando um espaço que até vazio era mais eficiente e nem substituiu bem aquela cadeira que ainda que apertada era seu cantinho mais aconchegante. Mas hoje vai. Foi! Ainda que com dor nas costas foi a última vez que carregou a aquilo. A esperança é que em algum momento essa faxina acabe, os antialérgicos e o álcool já não sejam mais tão necessários, a janela consiga por luz dentro ainda que a porta esteja fechada e visitas sejam proibidas.

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