Retratos da Rua — O empoderamento social através da arte

Deborah Mabilde
Aug 31, 2018 · 6 min read

São 11h da manhã de uma sexta-feira de outubro, e a Avenida Borges de Medeiros, em Porto Alegre, está, como sempre, lotada de pessoas caminhando para cima e para baixo, indo para o trabalho ou voltando da faculdade. Faz calor. Atrás de mim, ouço alguém dizer, “Lembrem do enquadramento, pessoal!”. É Fabiano Ávila, estudante de psicologia e um dos professores do Cara na Rua, uma oficina de fotografia voltada para jovens e adultos que estão em risco social e pessoal, como a população em situação de rua. Ao redor dele, os alunos escutam atentos às dicas do professor, independente do fato de Fabiano ser mais novo que a maioria dos presentes. Logo depois, todos se dispersam com as câmeras para realizar o exercício fotográfico; é hora de colocar em prática a teoria aprendida na aula da semana anterior.

Criada há dois anos, a oficina faz parte do Universidade na Rua, um programa de extensão da UFRGS que mobiliza estudantes dos mais variados cursos para buscar soluções para o problema social da população de rua. A ideia surgiu quando Daniela Cidade, professora de arquitetura da UFRGS, demonstrou interesse em produzir uma oficina de fotografia que beneficiasse a população em situação de rua. Com a ajuda do Movimento Nacional da População de Rua (Pop Rua) e da Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Alegre (EPA), surgiu o Cara na Rua, uma oficina de fotografia que resulta em uma exposição fotográfica e na produção e venda de cartões postais com as fotos produzidas pelos alunos. Além da geração de renda alternativa para os alunos com a venda dos cartões, o outro objetivo norteador do projeto é através da arte produzir o empoderamento social, trazer a cultura não somente como forma de conhecimento mas também como uma possibilidade de autodescobrimento. Mostrar que a arte é de todos e pode ser feita por todos. “O único pré-requisito para participar é ter interesse”, ressalta Fabiano, que ministra as aulas com sua colega, Laura Izquierdo.

A oficina é dividida em aulas teóricas e práticas, com saídas de campo, como qualquer outra. A maior diferença do Cara de Rua é que as aulas são completamente visuais, para facilitar a compreensão e também ampliar a acessibilidade do curso, pois nem todos os alunos sabem ler ou escrever. São utilizados vídeos, documentários e filmes para basear o aprendizado. Logo depois, os alunos têm saídas de campo para treinar o que foi aprendido em aula. “Tudo muito básico, claro”, diz Fabiano. Enquadramento, profundidade, posicionamento, etc. Muitos nunca tiveram qualquer contato com a tecnologia antes, por isso o processo de introdução deve ser o menos complicado possível,. “Perguntamos o que eles querem aprender, produzimos o material em cima disso e depois damos seguimento às aulas” afirma Fabiano. Na última edição da oficina, o tema escolhido foi “Olhar Urbano”, com o recorte centro histórico de Porto Alegre.

Após a realização das fotos, acontece a produção dos cartões postais, feitos pela gráfica da universidade. Cada aluno que participa da oficina ganha 15 cartões para vender no fim do processo, o que gera cerca de R$ 180 reais por mês, por aluno. “Eles acreditam que vale a pena pelos cartões postais, pela renda, mas também pelo conhecimento da fotografia, o crescimento social. E fazemos o possível para que eles saibam disso, aprendam a explicar o próprio trabalho e ter orgulho disso. Quando alguém vem perguntar sobre os cartões em uma exposição, ou na escola, eu faço questão de chamar um deles para explicar”, diz Fabiano.

No final de outubro, aconteceu a primeira exposição fotográfica do projeto, chamada Olhar Urbano, em que cerca de 35 cartões postais com fotografias dos alunos foram expostas na Câmara dos Vereadores. Por ser uma exposição itinerante, a expectativa do grupo é levá-la para outros lugares, pois uma das maiores metas é trazer mais visibilidade ao projeto, mostrar um outro lado da população de rua, que tanto é marginalizada na sociedade.

Paulo Roberto, mais conhecido na escola como Paulo Pinguim, é um dos alunos mais antigos da oficina. Esteve lá desde o começo, e hoje é reconhecido entre os professores e coordenadores pela intensidade e beleza de suas fotos, que mesmo amadoras, conseguem contar histórias inteiras em uma captura de segundo. Paulo, que tem 40 anos, pergunta se pode não entrar em detalhes de sua história de vida, apenas contando que está em situação de rua há dois anos e que luta todos os dias para ter uma vida melhor. Humilde, Paulo fica envergonhado ao ser elogiado por suas fotos, mas tem orgulho de dizer que a arte é uma forma de sustento para ele. Também menciona a escola e agradece as oportunidades que o projeto lhe deu.

Atualmente, o propósito futuro da oficina é se desvincular da universidade e seguir independente, assim como o Boca de Rua, que já funciona há 15 anos. Os alunos chegam a vender todos os seus cartões postais na mesma semana que ganham, às vezes até no mesmo dia. Até aumentaram o valor, de R$ 2,00 para R$ 3,00 cada. Para a maioria das pessoas, esta quantia pode não parecer muito, mas um pequeno aumento como esse pode vir a significar uma refeição a mais ou um lugar para dormir para os alunos. Até o fim do projeto, os professores e a coordenação têm a expectativa de produzir 10 mil cartões, o que geraria cerca de R$ 30 mil de renda bruta. Para que isso aconteça e possa continuar, eles precisam ganhar apoio de outras instituições, pois o custo da produção e da manutenção das máquinas, mesmo subsidiado pela Universidade, ainda é muito alto.

Apesar de ser destacada por ser uma das únicas iniciativas que envolvem a fotografia e a população de rua em Porto Alegre, a oficina Cara na Rua não é a única atividade cultural deste tipo na escola EPA. Criada em 1995, a escola atende um público muito diferenciado, são jovens e adultos de todas as idades que buscam acolhida e escolarização, seja ela básica como alfabetização, ensino fundamental e médio, EJA, ou cursos complementares. Por ser um dos únicos lugares na cidade que recebe a população em situação de rua, a escola conta com alguns diferenciais; oferece três refeições diárias para os alunos e também permite que eles lavem suas roupas nas dependências da escola, guardem pertences e tomem banho. A única obrigação é a frequência contínua nas aulas.

A professora Lidiele Berriel de Medeiros, formada em artes visuais pela UFRGS, trabalha na EPA há cinco anos, e fala um pouco sobre as outras formas de empoderamento social através do meio artístico que acontecem na escola. Ela afirma que são várias oficinas feitas na escola, entre elas fotografia, cerâmica, reciclagem e reaproveitamento de papel. Hoje, os participantes produzem objetos, livros e cartões, que são posteriormente vendidos como forma de renda alternativa para os alunos. Feitos no turno oposto às aulas, o objetivo destas oficinas e ateliês é o acolhimento dos alunos , a possibilidade de inserção no universo do trabalho para uma população que foi excluída da sociedade, a quem muito foi negado. Desde a ameaça da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre de restringir a escola somente ao ensino infantil, em 2014, a comunidade, os movimentos sociais, o movimento da população de rua, os grupos da universidade, a equipe da saúde coletiva, e os professores vêm se mobilizando e tentando dar um novo fôlego para o trabalho que eles já vinham tentando desenvolver, em um esforço para que a escola continue aberta.

Lidiele reforça a importância de que os alunos se identifiquem como trabalhadores, protagonistas de suas próprias histórias. ”Acho que a arte oportuniza muita coisa. É uma forma de inclusão. Além disso, a arte é uma forma de resistência, especialmente de quem perdeu tudo, teve suas necessidades negadas e é considerado ‘escória da sociedade’, é um ato muito revolucionário estar ocupando um espaço artístico. Diálogo com a sociedade, autoafirmação e autoestima”.

Deborah Mabilde

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Jornalismo, cinema, literatura e ocasionais reflexões sobre viagens.