Um adeus

Hoje mais uma vez me perguntaram sobre ti, como tu estavas nos últimos meses. Foi mais uma vez na qual eu respirei fundo e menti olhando no fundo dos olhos. Disse que ‘muito bem’, pois estas palavras me saíam muito mais simples e críveis do que dizer que me feriste tanto que a simples menção do teu nome já me faz tremer.

Meu problema, dizem, foi ter esperado tua gratidão e, portanto, a culpa é minha. Quando se trata de nós duas é incrível como todo peso, expectativas e ônus dessa relação recaem sobre mim. Eu respiro fundo e, mesmo que frágil, me faço de forte apenas para te carregar alguns metros ou meses adiante. Quem pode me culpar por me sentir cansada e querer descansar?

E se me perguntam quando nos veremos novamente e se estou feliz e ansiosa com isso? Ai, meu deus, como eu gostaria que minha perplexidade e sorriso amarelo respondessem por mim! Como eu queria que a hesitação na minha voz demonstrasse todo meu desconforto com esse interrogatório sem nexo e desestimulasse mais perguntas… Creio que não farias algo assim só para me ferir, mas ainda sinto a pontada dos teus espinhos na minha carne. Como ter certeza?

Nossa batalha sempre ocorreu entre meus olhos escuros e antigos, já cansados de ver o mesmo céu noturno e ondas em sua dança a beira mar e teus olhos brilhantes e translúcidos como âmbar, com toda vibração da juventude. Mesmo sendo teu núcleo muito mais áspero e duro que o meu, bom, isso não seria fácil para algum leigo perceber. Sendo assim, sigo sendo o monstro dentro do armário de algumas crianças enquanto tu resplandeces divina a luz do dia.

Por eu ser covarde e por eu ser presa, me despeço em definitivo já bem longe de ti. Me desculpe por não olhar nos teus olhos enquanto parto, mas sempre tive medo de tuas reações. Nunca soube se poderias arrancar um pedaço meu ou de minha alma se me visse partir. O sangue de feiticeira, que tu negligencias em tuas veias ao me ver, borbulha e queima. Eu, que sou feita da matéria dos sacrífios, estremeço pois sei o preço que cobras por me aproximar de ti. Eu nunca poderia escapar com vida, mas quem acreditaria nisso ao ver teus olhos da cor do mel translúcido, tão grandes quantos os meus, mas expressando uma inocência que eu nunca tive?

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