A repressão trabalha por toda parte

Vinícius Portella
Nov 1 · 18 min read

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Luana dizia isso sempre, ao mesmo tempo zoando e seríssima. Era meio que a frase de efeito dela. Falava que queria pintar essa frase nos muros da cidade. Com tinta preta unívoca, caixa alta, letras austeras de fôrma. Pra que um dia quem sabe se tornasse uma daquelas frases recorrentes que todo mundo na cidade conhece (como “só jesus tira o demônio das pessoas” e suas variações; ou aquele “eu dei pra ele”, que ela odiava).

-A mina acha que dar pro boy é a coisa mais revolucionária do mundo. Ah, vá.

Ela era mais preguiçosa do que eu, o que era uma das coisas que eu mais gostava nela. Nunca nem comprou a tinta. A preguiça mútua nos uniu, eu dizia com alguma frequência. Mas esse é um péssimo traço para se adensar num casal, ela começou a emendar, primeiro em privado, depois em público, com uma cara séria, sobrancelha grossa e expressiva toda enfezada, linda.

Quando decidíamos sair no final de semana era uma luta para ver quem ia tomar banho e se arrumar primeiro. Ela geralmente emitia uns barulhos arrastados que chegavam a me assustar, de bicho agoniado ou morrendo. IIIIIIhhhhnrrrnnnnrrrsst. ÃÃHNNNWHRST. Mas acaba se levantando antes de mim (porque sabia que eu nunca perderia esse jogo), e falando, sempre, enquanto erguia os joelhos até o peito para em seguida levá-los a frente jogando o resto do corpo pra fora da cama: Hora de morfar.

Das muitas coisas dela que eu amei até o fim. Ela é baixinha, com uma beleza compacta e precisa como uma miniatura. Jornalista, e muito boa. O forte dela era menos a escrita, em si, ela era boa mesmo de entrevistar gente, de gravar números e traçar relações novas entre eles, fazer-se de sonsa e de teimosa quando necessário pra descobrir algo. Invocada, como quase toda baixinha. Falava de cidade, transporte e segurança pública, principalmente. Mas tinha sido demitida duas vezes nos últimos três anos. Do primeiro emprego foi por ser íntegra e séria demais num lugar que o era de menos. Do segundo foi porque veio uma onda de demissões que levou gente mais estabelecida que ela, mesmo ela fazendo o possível pra agradar a a ecologia corporativa do rolê. Agora tava naquela indecisão eterna dos frilas, sendo enrolada a torto e a direito para fazer trampos bem irritantes e aquém da sua capacidade.

Numa entrevista recente, quando ela basicamente entendeu que faria assessoria de imprensa de um bando de marca (a chamada para o emprego era muito, muito vaga, mas fingia que era jornalismo) ela começou a rir e falou que se fosse pra fazer publicidade ela faria publicidade, pelo menos não morreria de fome. Ninguém na sala achou muita graça.

Ela sabia que o emprego dela tava morrendo, falava isso o tempo inteiro. Jornal é um bagulho do século dezenove para o vinte, não tem porque imaginar que essa parada vai continuar, ela falava. E nem sei se tem que continuar, ela ainda completava. Falava que por isso ia começar a escrever com tinta preta na rua. É um meio de comunicação menos escroto do que quase todos os outros, ainda que muito comprimido.

Eu defendia a integridade dela, lembrava das boas matérias que ela já tinha feito, dependendo da mesa de bar em que a gente estivesse e da companhia em volta até encenava um discurso rápido sobre a importância do jornalismo para uma democracia saudável. Ela olhava pra mim com a sobrancelha vincada de quem de repente não reconhece a pessoa com quem ela mora tem quase dois anos.

Nós dois concordávamos, em tese, que monogamia pra vida era um negócio nada a ver. Invenção troncha e antinatural, célula base do capitalismo e tudo mais. Podia até ter gente que era feita pra acoplar em outra sem soltar até morrer, mas isso era a exceção da exceção. O resto, a grande maioria, tinha sempre que juntar suas mucosas com o de outros mamíferos de tempos em tempos, pra aerar, pra não afogar, pra não acabar botando vidro moído na comida do cônjuge (esse último era ela falando). Ou até pra dar um contrastezinho expressivo com o corpo da pessoa que você ama de verdade,

Mas na prática éramos ambos desajeitados ou tímidos demais para levar um relacionamento aberto adiante. A única vez que tentamos nós dois juntos transar com uma outra menina a Luana começou a gargalhar no meio, e nada fazia ela parar. Verdade que a menina (Juliane) era daquelas para quem sexo precisa acontecer num grau de seriedade meio irrespirável, gente que liga o botão da cara de intensidade e não desliga mais por nada até gozar. Mas ainda assim.

Tivemos que pedir desculpa pra ela, ficamos os três tomando chá pelados ouvindo Clube da Esquina. Não que tenha sido ruim. Já na única vez que eu beijei um cara, num carnaval, depois de tomar MD pela primeira vez, me ocorreu imediatamente que eu tava beijando o Evandro Mesquita (isso porque todo homem pra mim é um Evandro Mesquita em potencial — eu incluso). Então a outra possibilidade de ménage também não parecia plausível.

Uma vez uma menina me pegou numa festa de amigos das antigas para onde a Luana não quis ir (porque os achava, com alguma razão, insuportáveis). A menina era baiana e muito alta, linda, só trocou comigo umas cinco frases antes de me beijar. Eu que nunca tinha sido pego por mulher na vida fiquei feliz pacas, e todo convencido, e inclusive acabei descumprindo a única regra séria que a gente tinha estabelecido para pegação extra-conjugal: que era de avisar a pessoa da situação antes do efetivo rala-e-rola. Fiquei meio sem saber como avisar, primeiro, e depois fui ficando com medo dela achar ruim e desistir de tudo (depois dela sussurar no meu ouvido, constatando mais do que convidando, ainda no meio da festa, que a gente iria pra casa dela depois).

Mas aí quando chegamos na casa dela e o negócio ficou sério o meu pau não subia nem com guindaste. Não sei se era noia, se foi a Ana Carolina que ela cantou no Uber até a casa dela, se foi só uma incompatibilidade mais corporal mesmo revelada de real ali entre os dois corpos. Mas não rolou. E depois de quase rolar e aí não rolar duas vezes, dei como explicação o fato de estar num relacionamento aberto e não ter contado pra ela antes. A reação dela foi primeiro de fechar a cara como se eu tivesse falando algo muito estranho, e depois falar com uma cara irônica: “Agora que cê contou ele sobe, então?”. Eu falei que ia ao banheiro e fui embora, pegando minha roupa na sala, a camiseta em cima da fruteira.

Acabei chegando em casa quatro da manhã sem ter comido ninguém e me sentindo idiota. A Luana tava acordada, em pé em cima da cama com a raquete elétrica de matar mosquito. Eu perguntei se não tinha dormido porque tava me esperando, ela falou que não. Contei a historia toda, expliquei que tinha desligado o celular porque fiquei com vergonha de contar pra ela que tava indo comer uma mina aleatória. Ela não esboçou nenhuma reação, só fechou as cortinas, deitou do lado dela da cama e falou:

-Homem é um bicho muito retardado, benzadeusa. Mas achei fofo você brochar. Mais ou menos.

A Luana tinha isso de uma seriedade, por mais que fosse das pessoas mais engraçadas que eu já conheci. Daquelas pessoas que te fazem rir de doer a barriga sem esboçar mais do que um rasgozinho no canto da boca. Ela dizia que não julgava ninguém, que ninguém era melhor que ninguém (“só existe gente burra e inteligente, de bom gosto e de mau gosto”). Mas dava pra ver a cara dela de desprezo por algumas pessoas. Ela nunca tentava esconder, o que eu respeito mas achava difícil de lidar. Tudo o que eu sei fazer na vida é esconder.

Ela era mato-grossense, eu a conheci pela internet com quatorze anos, os dois fãs de Blind Guardian (sim). A gente se pegou umas vezes morando em cidades diferentes, até que ela mudou pro Rio três anos atrás, depois de morar em quatro outras capitais, e acabamos nos atracando de um jeito muito lento, natural e sussa que até hoje eu tenho dificuldade de reconstituir na minha cabeça. Ela precisava dividir o aluguel, eu queria vê-la todo dia. Quando eu fui ver távamos morando juntos.

Foi a segunda mulher com quem eu morei. A primeira foi a Jéssica, a pessoa mais inteligente que eu já conheci na vida. A Jéssica me dava — me dá — medo. Tive mais pesadelos com ela do que com o Freddie Krueger. Tenho até hoje, na verdade (com ela mais do que com o Freddie, que às vezes ainda aparece no fundo, inofensivo como um figurante, salsichas enfiadas nas suas tesouras).

Quando a gente começou a morar junto ela já tava escrevendo uma “História geral da compressão”, já no segundo volume (de, espera-se, seis). Em alemão. O primeiro volume tinha ganho um prêmio prestigioso e tinha vendido surpreendentemente bem, pra esse tipo de coisa. Tinha trinta e três anos e parecia ter trinta e oito (o que eu achava muito atraente).

O livro na verdade era uma “genealogia da infraestrutura”, ela dizia, quando perguntavam, como se isso tornasse muito mais claro. As pessoas geralmente concordavam com gravidade, respeitosos e com medo dela começar a dar uma aula sobre o assunto, o que quase nunca acontecia, as exceções sendo quando ela tava fumada (o que era raro), ou quando lhe dava vontade de dar uma surra de arrogância em quem ela achava que merecia (o que era menos raro).

Eu obviamente, ficava intimidado com isso. Conheci ela num bar, aniversário de amiga em comum, ela voltando do doutorado que fez na Alemanha. Achei de verdade por algumas horas que ela era estrangeira. O português tinha ido embora um tanto, ela falou. Mas volta, eu disse. Ela era cinco anos mais velha que eu, terminou o doutorado lá em menos tempo do que muitos alemães costumam terminar. Era odiada por todo mundo no seu departamento, segundo ela, que falava isso com uma alegria infantil.

Ela disse que já tinha pesquisado extensamente até os assuntos do quarto livro, tudo dentro do que fez no doutorado, então para escrever os livros na verdade bastava enxertar sua tese, deixá-la mais legível para não-especialistas e botar umas piadas nos começos dos capítulos. Fiquei muito impressionado, achando que ela devia ser uma gênia, o que ela dizia que não era, só era esperta e muito, muito esforçada.

Eu que não sei se sou esperto e sei que não sou muito esforçado fiquei todo admirado. Ajudava que ela fosse linda, ainda que de um jeito meio inumano. Um olho muito claro, a boca nenhuma. Ela parecia olhar para nós humanos aqui com curiosidade e distância, como quem cutuca um animal morto com um graveto.

Eu flertei com ela a noite toda e ela foi simpática,mas nem tchuns. Até que me perguntou, no final da noite.

-Você está flertando comigo? Tem que me dizer porque eu não percebo. Se quiser podemos ir lá pra casa.

Eu apaixonei rapidinho. Ela nunca demonstrava afeição, o que pra alguém que se odeia tá ótimo. Depois da terceira vez que a gente transou, fiz questão de tentar entender os trens que ela escrevia, das partes que ela já tinha traduzido para o inglês.

Achei que tinha entendido quase tudo da introdução do primeiro livro, que falava sobre o desenvolvimento dos alfabetos fenício e grego, mas no segundo capítulo já empacava nos primeiros parágrafos, relia várias vezes, procurava uns termos na Wikipédia e ainda assim sentia que tava tudo trafegando a muitos kilômetros acima da minha compreensão.

É estranho, às vezes, admirar tanto a pessoa com quem você transa quase todo dia. Pra mim pelo menos era. Excitante, claro, mas principalmente estranho. Nunca entendi o que ela via em mim. Mas eu fazia ela rir às vezes, que era a única coisa que a desarmava.

E ela enganava um pouco na disposição sexual. Olhando a gestualidade travada dela parecia ser talvez dessas pessoas muito reprimidas que precisam fazer sexo limpinho, no escuro, com vários preparos. Mas não só era o extremo oposto como aplicava pra vida sexual dela quase que o mesmo rigor científico investigativo que aplicava pras pesquisas delas de ecologia da comunicação e dos meios (como ela chamava).

Fez questão de transar com menina lá pros dezessete, ainda morando no interior de São Paulo, mais para provar um ponto ou riscar um item de uma lista do que para exercitar um desejo concreto e particular. Isso ela mesma me disse. Mas só foi realmente soltar as asinhas e tentar meio que de tudo quando morou na Alemanha, bem longe da família e dos círculos de amigos antigos. Eu morri e ressuscitei sexualmente três vezes, ela falava, os olhos de quem tava tentando ser bastante precisa com o número.

O ano em que a gente esteve junto consistiu deu correndo atrás do pique dela. Lendo um quinto dos filósofos e cientistas que ela lia pra ver se entendia as doiduras que ela escrevia, sem muito sucesso, indo nas festas comédia de gente da transância heterodoxa e tentando não me sentir deslocado demais (o que tampouco dava certo).

Quase tudo de assunto interessante que eu tenho hoje pra falar, quase todas historias inusitadas que eu tenho pra contar na vida vieram desse período. Mas eu não era feliz, tava tenso o tempo quase todo. Namorar ela era uma espécie de trabalho, quase. Um que pagava bem, e tudo, mas um que te deixava se sentindo sempre exausto e inadequado

Por isso a maneira ridícula que eu arranjei de terminar com ela. Fugi. Do nada. Tirei ferias antecipadas do trabalho sem avisá-la e viajei. Combinei no trabalho com um mês de antecedência, mas mandei um email pra ela no dia, de manhã, logo antes de ir pro aeroporto. Ela tava na biblioteca onde ela ficava até as 20h, quase todo dia.

Ficou muito puta, claro, mais por orgulho, acho, do que por imaginar que sentiria tanto a minha falta. Ela sempre se achou melhor do que eu (e ela é, mesmo). Deixou um áudio pra mim no zap de uns oito minutos me descascando de cabo a rabo. Sem levantar a voz, sem perder a razão, sem nem exagerar, exatamente. Mesmo nessa situação a extrema honestidade intelectual dela não a deixava se exceder muito.

Ela só descreveu com uma inteligência assombrosa e sinóptica todas as minhas insuficiências como pessoa, como marido e como cidadão. Aproveitando para explicar de maneira didática (ela adorava ser didática) de que forma meu comportamento ilustrava a infantilidade geral dos homens da nossa época. Em especial dos privilegiados (minha família tem grana, trabalhei pouquíssimo na vida). E ela arrematou com uma frase curtinha que foi o único xingamento dos oito minutos, dito mais com desprezo do que com raiva. Playboy retardado.

Até hoje, quatro anos depois, é o termo que eu uso na minha cabeça sempre que quero me odiar com o máximo de força disponível. Playboy retardado. Nunca respondi o áudio, nunca mais a encontrei. Acabei me mudando pro Rio pouco depois.

Então vocês podem imaginar minha alegria quando dei com ela num jantar em Botafogo pra três casais na casa de uma amigaça da Luana, Patrícia. Cheguei tranquilaço e falando besteira, quando meu olhar bateu com o dela, com um namorado ruivo com tipo de gringo do lado ouvindo a dona da casa falar algo sério.

A Luana, que não era ciumenta mas tampouco era boba, já a tinha stalkeado de leve. Cumprimentou toda simpática. A Jéssica toda seca, durona, mal fez barulho. Tava tão surpresa quanto eu, acho. O namorado gringo chamava Griffin e era matemático, além de ruivo, tava concluindo o pós-doutorado (claro) na Inglaterra. Super simpático, ainda por cima, o filho da puta. Me perguntou o que eu fazia e fingiu interesse quando ouviu a resposta nada interessante que eu tinha pra oferecer.

Já a Jéssica ficou olhando a Luana de cabo a rabo, sem disfarçar. Meu cu um punho fechado. As duas eram treteiras quando bebiam, e a Jéssica já parecia alta. Não havia nenhum motivo lógico real para treta, claro, mas alguma coisa ali na disposição da cena me deixou certo de que a noite ia dar ruim com força.

Em poucos minutos a Jéssica tava dominando a conversa, como tava acostumada a fazer em grupos pequenos, falando algo muito complicado sobre Bitcoin e as possibilidades genuínas, ainda que muito improváveis, de uma reinvenção do sistema financeiro. Todo mundo parecia conhecer o assunto perfeitamente nas suas reentrâncias mais íntimas, menos Marcinho e eu, que obviamente não fazíamos perguntas, só montávamos cara de sabido e tentávamos rir nas deixas certas. Luana falou algo irônico e esperto sobre o custo energético da cadeia de blocos e fez geral rir, até a Jéssica. Eu, idiota que eu sou, marquei um ponto num placar imaginário.

A Luana não se intimida nem um pouco com acadêmico. Ela tem um jeito maravilhoso de sorrir sem mexer os lábios e de ridicularizar a pretensão da pessoa sem falar absolutamente nada. A pessoa fala algo pomposo sobre Aganbem ou sei lá o quê e ela só faz um ligeiro aprumo de sobrancelha, ou manda um “eita, ferro” que soa inocente mas deixa a pessoa parecendo o vilão de pulôver de um filme de Sessão da Tarde.

Eu amava ela com o furor de uma supernova quando ela fazia isso com gente babaca, mas ali eu fiquei com medo dessa disposição bater na quina da inteligência cancerígena da Jéssica. Imaginei o apartamento pretensioso dos amigos da Luana sendo devorado pelo buraco negro da treta entre as duas, relações rompidas pra sempre, pratos jogados na parede.

Mas elas se evitaram por um tempo, intervindo na conversa sempre quando outra pessoa tava falando, nunca olhando muito diretamente. Fui pro banheiro sem necessidade fisiológica, só pra gastar a gastura, explodir minha cara em feições grotescas e lavar o rosto. Quando voltei as duas tavam super de conversinha, amicíssimas, e o gringo tava conversando sobre futebol com o dono da casa, Marcinho, uma das pessoas menos interessantes que eu já conheci (existem legislações tributárias mais interessantes do que o Marcinho). A conversa alternava entre um inglês quebrado e um português quebrado, os dois tentando ser gentis e falar a língua do outro, que ambos sabiam mal.

Os dois tinham opiniões fortes sobre o Chelsea. Eu desempenhei um papel medíocre mas aceitável de homem-que-conversa-sobre-futebol enquanto tentava escutar a conversa delas, sem sucesso. Primeiro achei que falavam sobre a revolução curda na síria, uma obsessão da Luana. Depois achei que falavam sobre o aquecimento global, uma obsessão antiga das duas. Elas pareciam estar se atropelando, mas mais por entusiasmo do que por discordância. Depois desisti de ouvir, achei que eu tava projetando assuntos em sílabas soltas.

Eu devia estar feliz, claro. Era cem vezes melhor que elas ficassem amigas do que tretassem. Mas eu sabia também que mulher lida com essas coisas de outro jeito, e minha já constatada falta geral de noção não me permitia julgar direito se estavam, de fato, simpatizando uma com a outra ou se tinha algo mais sinistro correndo por debaixo.

O assunto do Griffin e do Marcinho agora era séries. Game of Thrones. Eu nunca assisti nem um episódio mas desempenhei bem o meu papel graças a profusão de memes e à previsibilidade do entretenimento corporativo em geral. Dragões, zumbis de gelo. Iterações de fantasias medievais europeias se passando por imaginação. Final meio insatisfatório depois de expectativas criadas. Etc.

As duas agora tavam se encostando. Ai que brusinha mais linda, esse tipo de coisa. Eu imaginei as duas se pegando, uma chupando o peito da outra, de repente, e apesar da cena ser obviamente tesuda pra mim isso me deu um medo do tamanho do mundo. Logo me veio as duas peladas fumando e rindo de mim. E quando ele dá chilique porque a água do banho esfria? A voz oitavando? E quando ele acha que calculou o 10% de cabeça e caga tudo? Ele já te perguntou no meio do trem se ele próprio tava duro?

A possibilidade das duas virarem amigas de fato começou a me parecer apavorante. O Marcinho me perguntou o que eu achava de alguma coisa, eu concordei de maneira vaga, os dois pareceram confusos. Eu pedi desculpas e admiti que tava distraído. Eles explicaram que tavam conversando sobre o Brexit. Griffin estava muito preocupado com o crescimento do nacionalismo pelo mundo. Eu falei que ele era branco e europeu, não tinha muito com o que se preocupar. Marcinho gargalhou, transformando minha provocação infantil e gratuita numa piada.

O jantar foi gostoso, a Patrícia e o Marcinho eram chatos mas pelo menos cozinhavam super bem. No re-arranjo da mesa fiquei bem na frente da Jessica, que fez perguntas protocolares sobre a minha família que eu respondi mas não retribui. Ela contou que estava terminando o terceiro volume da série e que o primeiro agora ia sair nos Estados Unidos por uma puta editora universitária. Todo mundo a parabenizou, Luana a mais efusiva de todas, eu nem registrei a informação. Ela me deixava apavorado como um cachorro em virada de ano.

Jéssica deu uma explicada de leve sobre o seu projeto, de um jeito muito mais solto e compreensível do que costumava fazer durante a minha gestão. Griffin com os olhos brilhando. Todo mundo parecia impressionado, claro. Marcinho fez perguntas tolas que ela tratou da maneira mais gentil possível. Eu quase não a reconhecia, ainda que debaixo do verniz simpático estivesse a frieza inumana que eu conhecia. Playboy retardado.

O papo chegou no Griffin, que além de matemático teórico promissor tinha ajudado a criar uma cooperativa de crédito para trabalhadores rurais na sua região da inglaterra. Seus pais eram pequenos fazendeiros e ele trabalhou com eles até conseguir a bolsa para Oxford. Por causa de suas origens, ele explicou, ele nunca deixava a matemática pura lhe ocupar inteiramente, embora fosse sua verdadeira paixão. Números são a realidade derradeira do cosmos, ele disse, mas o sofrimento da classe trabalhadora pelo mundo nunca o deixava esquecer de que maneira perversa a abstração era usada de maneira injusta para aprofundar a servidão no mundo todo. Mas será — ele perguntava com o que pareceu ser um tesão genuíno — que os instrumentos derivativos rocambolescos que os matemáticos inventaram desde o fim da guerra fria não poderiam ser usado a favor dos trabalhadores? O trabalho da vida dele, então, era basicamente ao mesmo tempo de entender as entranhas do universo e tentar usar essas entranhas para reverter o reinado de exploração e pilhagem do capital.

Vai se foder.

Ninguém nem soube o que dizer diante disso, além de um ‘wow’ genuíno da Luana que me deixou com mais inveja do que eu já tava. Terminamos de comer meio em silêncio, com resmungos protocolares sobre o governo.

A Patrícia tinha que dormir porque tinha que viajar a trabalho bem cedo no dia seguinte. Quando terminamos de lavar os pratos eu senti que o suplício tinha terminado, podia voltar a fingir que a Jéssica não existia e fazer o possível para esquecer seu namorado ruivo e gênio que ia, sozinho, reinventar o crédito, entrar na cabeça de Deus e virar o capitalismo do avesso.

Cheguei para a Luana tentando fazer a minha melhor cara de ‘ufa, acabou’, quando era virou pra mim, claramente excitada:

-Chamei eles lá pra casa, tá? Tá cedo, pensei que a gente pode tomar aquele saquê que você comprou.

Eu não consegui nem responder. Achei que ela tava curtindo com a minha cara. Não tava. Eu comuniquei meu desespero com os olhos, mas ela se fez de sonsa. Os dois já tavam pedindo um Uber pra gente dividir. Eu vi que não tinha saída.

Não falei quase nada no caminho. Griffin continuava gentil e simpático, pra piorar tudo. Conversando no seu português quebrado e fofo com o motorista do Uber. Luana e Jéssica pareciam amigas de infância, uma contando anedotas sexuais pra outras em inglês no táxi. Coisa que a Luana nunca fazia nem com as amigas mais próximas. Eu expressei um muxoxo baixinho, ela se fez de desentendida. Eu falei, no meu inglês tosco, que não achava legal ficar falando daquelas coisas no Uber. A Luana respondeu de bate-pronto:

-Repression is at work everywhere indeed.

A Jéssica riu muito, como se já conhecesse a frase de efeito. Eu não sabia mais com quem eu morava. Aquela noite seria interminável.

Chegando lá em casa, a Luana deu as únicas cervejas da geladeira pros dois e começou a cortar frutas pra tomar com o saquê. Griffin parecia um pouco constrangido, a Jéssica tava na sua distância gelada de sempre, impossível dizer o que ela tava achando da situação. Eu considerei fugir. A Jéssica cortou o silêncio:

-Vou ajudar ela lá dentro.

Concordei. Ficamos eu e o ruivo matemático alto na minha sala. Ele olhando em volta os livros poucos e a decoração genérica, eu sentindo minha inadequação como uma meia molhada. Perguntou de novo o que eu fazia, como se já não o tivesse feito. Eu respondi de novo que trabalhava na empresa do meu pai. Ele percebeu que já tinha perguntado isso e pareceu envergonhado. Eu falei, não sem agressividade, que de fato não era algo interessante o bastante para merecer a lembrança. Ele começou a olhar para os próprios pés.

Eu fui ao banheiro sem necessidade pela terceira vez na noite. Explodi minha cara, arranhei minhas coxas. Quando voltei, passei pela cozinha só pra encontrar as duas se beijando, a Jéssica sentada na mesa da cozinha de pernas abertas. Olhei por um tempo. Elas tavam se beijando com tesão, mas lentamente, sem pressa nenhuma, rindo. Eu me senti extremamente desnecessário, o que eu era, mesmo. O mundo não precisava de mim pra nada. Admitir isso me deixou leve como um saco plástico. Peguei, de maneira discreta, um copo de saquê e um punhado de morango cortado, botei uns gelos. Elas não notaram, ou fingiram não notar. Fiquei imaginando se elas queriam uma intervenção ou não. Possível que não. De qualquer forma eu não queria ter que ver o pau do matemático ruivo alto, que fatalmente seria maior do que o meu. Imaginei ele transando com as duas e fiquei duraço. Ele devia ser um amante competente e carinhoso. Passei pela sala, dei um joinha para o Griffin, que reagiu confuso, e deixei o apartamento. Imaginei os três desbravando mares, reinventando o dinheiro, o jornalismo, a compressão informacional como um todo. O esferoide gira no espaço frio em torno da explosão de plasma, a esperança continua aí, totalmente indisponível. Homem é de fato um bicho muito retardado.

    Vinícius Portella

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