OLHOS DE QUEM VÊ

Era difícil encontrar o buraco da fechadura no escuro.

Fernando pressionava a chave do apartamento com dificuldade, tateando a extensão da porta em busca do lugar certo para encaixá-la. O interruptor estava ao seu lado, mas por algum motivo ele não quis acender as luzes da sala. Quando finalmente conseguiu trancar a porta, virou-se para a sacada e observou a cidade ao seu redor, quieta, quase como se fosse Domingo. Mas era uma Quarta-feira em pleno verão, e ele acabara de voltar exausto do trabalho.
Girou os calcanhares voltando-se para a cozinha quando ouviu um ruído.

Prendendo a respiração, ele cessou o movimento e ficou em silêncio, tentando descobrir o que ele acabara de escutar. Parecia líquido escorrendo, pingando em algum lugar do apartamento. “Talvez eu não fechei a pia direito”, pensou. Mas, ao retomar seu caminho para cozinha, deu uma leve escorregada no piso e percebeu que o que estava pingando era ele. Olhando para baixo, o homem viu um rastro molhado por onde havia andado na sala, as poças refletindo as luzes dos prédios pela sacada.

— O que é isso? — murmurou ele, agachando-se para averiguar o que eram aquelas manchas. Na escuridão da sala os rastros pareciam feitos de lama, e ao tatear as pernas confirmou que sua calça e tênis estavam extremamente sujos de uma lama espessa e pegajosa. — Vou ter que limpar essa porcaria agora.

Fernando tirou seu tênis e colocou-os em cima de uma sacola plástica, andando descalço até seu quarto onde tirou as roupas sujas e dirigiu-se para o banheiro. Acendendo a luz, imediatamente percebeu que suas mãos também estavam sujas, assim como os pés que pingavam lama mesmo estando protegidos no tênis pelas grossas meias. Entrando debaixo do chuveiro ele deixou a água quente limpar suas extremidades, o líquido negro escorrendo pelo piso e rodopiando para o ralo. Um bom banho quente era o que ele precisava após aquele longo dia.

O homem não conseguia pensar em mais nada enquanto a água descia pelo seu corpo. Estava extasiado demais, queria apenas aproveitar aquele vapor quente e relaxar, principalmente porque uma corrente gélida estava entrando pela fresta da porta que ele não havia fechado, fazendo com que seus pelos do braço se arrepiassem. Fernando fechou os olhos e mergulhou a cabeça debaixo do chuveiro, sentindo o calor em seu cabelo. Desembaraçou as mechas lentamente com os dedos, como se seu corpo estivesse seguindo a movimentação rítmica das partículas de vapor no ar, e ao abrir os olhos novamente foi quando ele viu.

Ali, entre a fresta da porta. Levitando em meio a escuridão do quarto havia um glóbulo branco o observando. O olho fitava-lhe em desespero, a pupila negra excitada e as veias pulsando nos cantos. Fernando continuou parado, debaixo da água sem esboçar nenhuma reação. Ficou imóvel, a respiração presa e a adrenalina jorrando no sangue, apenas observando a figura que estava parada do outro lado da porta.

Lentamente estendeu o braço para a maçaneta, pendendo seu corpo para fora do chuveiro enquanto mantinha os olhos fixos na escuridão da fresta. Quando sua mão molhada finalmente encostou no puxador, impulsionou-se para frente e escancarou a porta, ficando cara a cara com a escuridão do apartamento. Não havia mais nada ali. O olho havia sumido, e o que sobrou eram somente as sombras dos móveis penetrando onde a luz do banheiro se projetava.

Fechando o chuveiro, Fernando secou-se na toalha e a amarrou na cintura, saindo pelo apartamento acendendo todas as luzes à procura de um possível invasor. A porta e as janelas estavam todas trancadas, e não havia ninguém escondido debaixo da cama ou dentro do guarda-roupa. “Foi o cansaço” pensou, vestindo seu pijama. A essa hora os prédios já estavam todos apagados, e as luzes da rua eram apenas um vislumbre amarelo através das cortinas. O homem mergulhou na escuridão e deitou em sua cama, cobrindo-se com um cobertor e respirando lentamente aguardando o sono. Foi quanto ele escutou novamente água pingando. Constante e gradualmente se acentuando, como se as gotas estivessem cada vez mais próximas. Fernando abriu os olhos e encarou a escuridão, indagando se havia fechado direito o chuveiro. “Logo para”, pensou.

Fechou os olhos novamente, tentando ignorar o gotejo que se tornava mais e mais constante. Agora, parecia que mais de um foco estava pingando. Dois, quatro, seis, dez… e então, o chuveiro inteiro se abriu, sobressaltando Fernando. O homem levantou-se rígido e se dirigiu rapidamente para o banheiro, onde viu a luz do cômodo acesa e vapor saindo pela fresta na porta. Prendendo a respiração e caminhando na ponta dos pés, Fernando aproximou-se lentamente da abertura, tentando enxergar se havia alguém ali dentro.

Viu de relance uma silhueta caminhando de costas para ele, parada debaixo da água. O vapor quente se misturava com a corrente fria provinda de seu quarto, e sua respiração se tornou ofegante. O sangue pulsava em suas veias conforme a silhueta se movia, seus olhos desesperados tentando identificar a pessoa que havia invadido seu apartamento. Em silêncio Fernando esperou, colado no batente da porta, seu olho vidrado na fresta aguardando…

Fernando conseguia ouvir seu coração pulsando freneticamente no peito. Ele estava agachado, na escuridão do apartamento, dividindo espaço com alguém que não deveria estar ali. O vapor do chuveiro não permitia que ele visualizasse com clareza o invasor, então assoprou silenciosamente o ar dentro do banheiro para as partículas quentes se dispersarem. A pessoa lá dentro sentiu a diferença de temperatura, pois começou a girar lentamente para a porta. Com os braços erguidos na cabeça ela era apenas um corpo envolto por vapor, mas logo os membros foram afastados e seu rosto, enfim, pôde ser identificado por Fernando.

A pessoa debaixo do chuveiro era ele mesmo. As mãos ainda sujas, os pés ainda melados e aquele líquido pegajoso ainda escorrendo de seu corpo para o ralo. Fernando arregalou os olhos, desesperado, sem entender o que estava acontecendo, e foi quando o homem no banheiro o avistou e correu em direção à porta, ocultando-lhe a visão.