A última noite gélida

A noite parecia levemente mais fria que o normal, os dedos dos pés estavam gelados e a insônia era evidente (assim como todas as noites).

A janela estava aberta e o computador ainda ligado, porém eu não estava usando-o naquele momento. Estava cansado e deitado na cama, quieto, tentava dormir.

De olhos fechados, ainda sem conseguir dormir, lembrava de tudo o que tinha acontecido naquele dia. Parecia um mecanismo automático do cérebro, não conseguia desligá-lo.

Em meio à escuridão e a brisa suave da noite ouvi passos. Aliás, era o que pareciam, passos! Porém, eu já não tinha tanta certeza disso por estar meio dormindo e meio acordado.

Em uma fração de segundo cheguei à conclusão de que estava acordado, pois não faria sentido ter pegado no sono tão rápido. Outra conclusão que cheguei foi a de que aqueles sons eram realmente leves passos na sacada do apartamento onde morava, fiquei apreensivo e imóvel.

Para minha falta de sorte a luz do lado de fora estava desligada, ou seja, se realmente estivesse alguém ali eu não poderia ver direito o seu rosto.

A situação já se encontrava desconfortável demais. Resolvi levantar para verificar se algo naquela paranoia tinha alguma veracidade. Em um pulo quase olímpico saltei da cama com os olhos na janela, nesse momento meu coração involuntariamente disparou.

Logo, descobri que a paranoia estava mais do que certa, fiquei cara a cara com um homem de aparência sombria e má. Tentei gritar com tamanho susto, voz não saía. Percebi que ele segurava uma arma e nesse curto período de troca de olhares ele já a empunhava em minha direção.

Respirei fundo e me virei para sair correndo. Ouvi um barulho de disparo. Tropecei no pé da cama e caí no chão. Por questão de segundos pensei que estivesse sido baleado, mas dor eu não estava sentindo, então levantei, consegui gritar e saí do quarto.

O suposto ladrão percebeu que usar sua arma de fogo não foi a melhor ideia, percebeu também que se continuasse ali a situação poderia sair de seu controle. Então, ele saiu por onde chegou, uma falha na cerca elétrica entre o muro do vizinho e a sacada do apartamento.

Ao sair do meu, fui direto ao quarto da minha mãe, gritei, chamei, mas ela não estava lá. Nesse momento fiquei confuso com a noção de tempo. Ao olhar pela janela o sol já parecia estar nascendo.

Então, ouvi uma voz que chorava alto e que parecia vir do meu quarto, não precisou nem caminhar até lá, ao olhar pra trás vi um corpo estirado de bruços no chão e uma mulher que chorava ao encontro desse corpo. Essa mulher era minha mãe e o corpo era o meu.

Percebi que eu não tinha só tropeçado no pé da cama, antes disso, o disparo do ladrão tinha me atingido em cheio na cabeça.

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