Difícil largar tudo para ficar com um filho, difícil não largar.
Quero fazer diferente.

Como qualquer outra mãe de primeira viagem, eu jamais imaginava como seria ter um filho. Eu até imaginava coisas, mas muito diferentes de como é a realidade. Nosso pediatra uma vez comentou que é impossível mesmo saber, uma vez que as mães vivem enclausuradas e não podemos vê-las, ficando sem modelos reais. Eu por exemplo achava que poderia ler um artigo científico enquanto um bebê brinca. Hoje vejo que para trabalhar é preciso que alguém fique com ele em algum lugar em que eu não esteja.
Não imaginei que eu não fosse voltar ao trabalho depois da minha licença. Não voltar não era uma opção, já que eu pensava no futuro distante e queria ter estabilidade para pagar uma boa escola e etc. No final não voltei ao trabalho antigo e nem penso em colocar o meu filho na escola tão cedo. Foi muito difícil tomar a decisão de sair e eu fiz porque achei que era mito cedo para deixá-lo com alguém. Além disso eu estava precisando dessa coragem há algum tempo. Os primeiros dois meses dessa liberdade foram de alegria e glória. Depois começaram a aparecer as dúvidas e incertezas, que parecem crescer a cada dia.
Por um lado acho que estar com o meu filho é o correto. Acredito muito na importância de um vínculo que ofereça a sentimento de segurança, além de eu ser capaz de oferecer uma livre motricidade, uma introdução alimentar respeitosa, amamentação em livre demanda, respeito ao ritmo interno, melhor que qualquer outra pessoa. Afinal de contas o melhor para ele sou eu e qualquer senso comum sabe disso. Quero também fazer diferente, estar mais presente, acho que tem um lado meu feminista e desafiador nessa mãe que quer largar tudo. Quero de alguma maneira mostrar para o mundo que eu acho errada essa cultura de crianças órfãs que têm pais, que são abandonadas em prol de uma carreira que oferece um dinheiro que não vale o tempo perdido de companhia. Quero fazer diferente de um mundo em que o amor virou secundário e em que a presença digital substitui um bom e velho telefonema de saudade, ou uma passada na casa do outro. Quero dizer, tem realidade e idealismo no meio da minha decisão de ser mãe em tempo integral.
Por outro lado tem o mundo que continua girando, as pessoas que estão cheias de planos e você querendo ser um pouco como elas. Tem um lado meu que não quer perder as oportunidades para não cobrar isso lá na frente. Quero de alguma maneira ir evoluindo para também ser uma mãe realizada e feliz, para não parar no tempo e, depois que os filhos crescerem, talvez deprimir. E daí aparece aquela oportunidade perfeita, que vai te oferecer flexibilidade. Você passa a tarde com a certeza de que vai aceitar. Daí o seu filho tira uma soneca e acorda gritando, com pesadelo e tudo que passa pela sua cabeça a partir desse momento é: “que bom que sou eu que estou aqui com ele e ele não merece nada menos que isso”.
Tenho a nítida sensação que me boicoto dos dois lados. A mãe que quer ficar 100% dedicada ao bebê acha que não pode porque isso seria parar no tempo. E a mãe que quer trabalhar acha que está fazendo algo horrível como abandonar o seu bebê. Tem obviamente o fator social do preconceito que cerca as mães, tanto com as que resolvem pausar a vida profissional, quanto com aquelas que terceirizam o cuidado para poder voltar a trabalhar. É um boicote interno com um preconceito externo, uma combinação quase fatal para a autoestima de qualquer um. Eu confesso que já tive muito preconceito também, com aquelas que deixam o bebê na cadeirinha que balança, com as que contratam enfermeira para a noite, por exemplo. Hoje eu acho que estamos todas juntas, tem aquelas que precisam dormir senão enlouquecem, a outra que se ficar com o filho no colo vai quebrar as costas. Eu sou contra o auto boicote e o preconceito, mas também não consigo fugir deles.
A questão que se coloca no final é: quem VOCÊ quer ser? Você quer estar presente o tempo todo para acompanhar cada momento e consolar todos os pesadelos? Ou você quer se realizar profissionalmente para fugir da frustração de ter largado tudo. O que importa no final é o que você acha certo e o que vai te fazer feliz, porque os dois lados terão muitos desafios, perdas e ganhos. O que não pode é estar em um lugar querendo estar em outro, isso não é presença. Estar sem estar não vai te levar a ser uma boa mãe ou uma boa profissional. Então o grande questionamento é, quem você quer ser? E daí se alguém descobrir vem me contar, okay? Porque eu ainda não consegui decidir.
