Em favor dos grupos de Tricot.

Para simplificar o papel de cura dos grupos.

Photo by Ben Duchac on Unsplash

Ultimamente tenho refletido muito sobre a nossa questão da moradia. Por algum motivo tenho achado estranho essa coisa de pessoas morarem sozinhas, ou entre quatro paredes com vizinhos que não conhecem. Afinal de contas, o ser humano é ou não é um ser social, que precisa profundamente do outro e de uma comunidade para viver feliz e saudável? Por outro lado temos os grupos de terapia, de todos os tipos, os grupos pós parto, os grupos de homens, de mulheres que correm com lobos, de avós, de lutos e etc. A maioria com um vies terapeutico, que implica um direcionamento para alguma teoria e conduzidos por alguma técnica terapêutica especifica.

Inúmeros estudos e autores apontam que o ser humano é um ser social e que, mesmo achando que é mais feliz sozinho, ele se sente mais feliz e é mais saudável quando faz parte de alguma comunidade ou de um grupo, quando se sente conectado com as outras pessoas. Só o simples fato de que nós somos capazes de sentir empatia e amor, já nos mostra que temos esse “chip”, mas a ciência confirma que precisamos colocar em prática essas características para nos sentirmos mais próximos da felicidade. Ao mesmo tempo temos muita dificuldade de encontrar isso e muitas vezes, ao acharmos que perdemos a capacidade de nos conectarmos, ou simplesmente ao nos sentirmos deprimidos e sozinhos, achamos que temos algum problema. E então vamos buscar ajuda de algum profissional, que vai confirmar que temos um problema e podemos até encontrar um grupo que fale sobre esse “problema”por algum ponto de vista.

Nada contra os grupos de terapia ou apoio, muito pelo contrário, eu já participei de muitos, de vários tipos. Acho que eles podem ajudar muito e não só porque o indivíduo que conduz a conversa é alguém treinado, com muitas especializações, mas sim porque encontramos o acalento no apoio das outras pessoas. Stephen Porges fala muito sobre como é através da conexão com o outro que podemos curar os nossos traumas mais profundos. Acho que essa conexão, que surge naturalmente no grupo, muitas vezes é menosprezada e colocamos no terapeuta a responsabilidade por tanto sucesso no tratamento. Eu realmente acho que é interessante ter um bom mediador, mas me pergunto se o grupo em si não daria conta de criar uma aura de cura, sem a ajuda de algum profissional.

Há um pingo de negatividade quando juntamos pessoas para falar de problemas e eu fico perguntando se isso não é de alguma forma um potencializador de sofrimento. Como se fosse um delírio coletivo. Pegamos por exemplo os grupos de pós parto, que me ajudaram muito. Várias questões são semelhantes entre as mães, como a falta de apoio, o cansaço, a ressignificação de papéis e etc. Nos juntávamos toda semana para falar de questões muito profundas em um momento que já era profundo. Hoje vejo que o que precisava mesmo era companhia, companheirismo, mas talvez um pouco mais de leveza e positividade. E se esses mesmos grupos tivessem um objetivo de conectar profundamente as pessoas, sem falar de problemas? Se de alguma forma abrissem esse canal da empatia, sem apertar feridas.

Pois tive experiências assim de outras maneiras, como nos grupos de espiritualidade. Quando falamos de Fé, estamos canalizando a nossa energia para frente e ao mesmo tempo estamos nos colocamos como parte de um todo, que em si conecta todos nós. Fazer um grupo de meditação, de kirtan e ao mesmo tempo canalizar para que haja um troca profunda, me parece gerar tanto a cura quanto o impulso para vida de que falava Lowen. Criar uma sensação de pertencimento sem que passe necessariamente por abrir mais feridas. Criar uma possibilidade de cura sem que haja tanta regressão.

Depois que passei a morar em uma rua com cara de interior, em que as pessoas ficam de portas abertas e ajudam umas as outras, eu tenho pensado seriamente em mudar para algum tipo de comunidade. Eu vejo que o negócio de co-living vai bombar, quando todos perceberem que o isolamento é o inimigo da felicidade e da saúde. Mais cedo ou mais tarde, isso vai acontecer, já que a ciência está aí para nos mostrar a verdade. E todos queremos mesmo é sermos felizes e saldáveis, acordar com vontade de viver. E tenho pensado também na questão dos grupos e no fato de que esses não precisam ter um nome ou um sentido. Um grupo de tricot, por exemplo, pessoas se juntam para falar de nada, do que quiserem, fazendo uma coisa que gostam. Podem até chorar, ou chorar de rir. Quão curativo pode ser um grupo de Tricot, um grupo de caminhada, uma comunidade de piquenique, um clube do livro?

Por isso eu sou a favor de simplificar o conceito de grupos de cura. Porque todos os grupos são capazes de curar. Assim pessoas que não estão a fim de falar sobre problemas, podem passar a “pertencer” da maneira que quiserem. Seja jogando gamão, fazendo dança de roda ou Tricot.

Marina Haddad Martins

Written by

Psychologist, researcher and believer.

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