O que vicia mais? Cocaína, açúcar ou salário no final do mês?
A pessoa com o hábito pode optar por parar.

Esses dias um casal veio nos visitar, ele disse que tinha parado de comer açúcar fazia um ano e isso havia ajudado com uma depressão e ela queria muito sair do trabalho e, quando questionada sobre o porquê de não sair, ela disse:
O que será que vicia mais: cocaína, açúcar ou salário no final do mês?
Isso me fez pensar pois recentemente tomei a decisão de sair do mundo corporativo após mais de 10 anos sem parar por mais de 20 dias. Já havia ensaiado isso e inclusive pedido demissão, mas o Presidente muito querido do meu último trabalho me convenceu que não era hora. Talvez era, talvez não, mas só mostra o quão difícil e ensaiada foi essa minha decisão (já falo mais sobre ela). Ao mesmo tempo faz alguns meses que eu estou no processo de cortar totalmente o açúcar, não por uma questão de peso, mas porque acredito que ele influi no meu humor e na minha capacidade de meditar e silenciar a mente (já falo mais sobre a minha decisão).
O que é vício? Traduzi essa explicação do Medical News Today e adicionei a questão do hábito por motivo de comparação:
Dependência — há um componente psicológico / físico; A pessoa é incapaz de controlar os aspectos do vício sem ajuda por causa das condições mentais ou físicas envolvidas.
Hábito — é feito por escolha. A pessoa com o hábito pode optar por parar, e subsequentemente irá parar com sucesso se quiser. O componente psicológico / físico não é um problema, como é com um vício.
Sobre a cocaína eu não tenho experiência pessoal para falar a respeito. Mas sempre achei muito desagradável estar perto de pessoas sob o efeito da droga, elas não conseguem desenvolver uma conversa, apesar de acharem que estão arrebentando e eu tenho muita preguiça disso.
Eu comecei a querer parar o açúcar depois de um curso que fiz para a introdução alimentar do meu filho. No curso Colher de Pau (muito bom por sinal) todos eram encorajados a pensar em três palavras que representavam as lembranças da alimentação na infância. Fiquei surpresa de nunca ter feito isso e as minha palavras foram: açúcar, pai e agitação. O açúcar porque eu comia muito, muito mesmo, várias balas, lata de leite condensado e tudo que vier a mente. Pai porque com um pai médico eu tinha o aval de comer qualquer coisa que eu quisesse. E agitação porque eu era uma criança muito agitada que não gostava de ficar na mesa, me veio o insight que talvez tenha sido por causa do açúcar.
Olhei alguns estudos e existem divergências: alguns dizem que o vicio do açucar é psicológico e outros que existe sim um componente químico. Fato é, o Dr James DiNicolantonio publicou em uma revisão:
“Quando você olha estudos de animais que comparam o açúcar com a cocaína, mesmo quando os ratos já estão presos na cocaína, uma vez que você introduz o açúcar, quase todos mudam para o açúcar”.
Sei lá, isso para mim já é suficiente para achar que o açúcar é algo perigoso. E com a minha experiência da infância, que me levou a fazer até testes para DDA, eu tendo a achar melhor suspender o uso de açúcar. E isso é fácil? Não, é difícil para dedel e eu tenho fissura quase 24 horas por dia e recaídas. Mas sigo na luta, apesar da recaída de ontem que me fez ter uma insônia daquelas.
Sobre o trabalho, acho que existem muitos tipos de personalidade, aquelas que se enquadram muito bem e se energizam com ambientes altamente competitivos e horário das 9-mais de 19. Sei disso porque trabalho avaliando personalidade ha algum tempo. Quando se prefere trabalhar de maneira autônoma, gasta-se muita energia fazendo o contrário. No meu caso, esse modelo corporativo tradicional tende a comprometer o meu equilíbrio interno. Tenho muitos ganhos, principalmente com os relacionamentos, mas às vezes chego em casa esgotada. Mesmo sabendo disso, foi muito difícil para mim sair do mundo corporativo pois ele me trouxe uma independência financeira. Diferente do açúcar, depois que eu saí eu sinto todos os dias que fiz a coisa certa, gasto menos com coisas desnecessárias, aproveito muito melhor o meu tempo e estou mais conectada com o meu propósito. Estão abrindo novas frentes de trabalho, enquanto eu posso flexibilizar o meu horário para estar presente para o meu filho, vejo que é possível um modelo de “project based work”. Trabalho era então um hábito, apesar de eu ter precisado de muita terapia para tomar essa decisão.
Claro que não posso fazer uma conclusão científica, mas o que eu consigo concluir a respeito desse pequeno embasamento e da minha humilde experiência e observação é: cocaína não é bacana porque ela te distancia dos outros e você precisa deles, avalie sair de um trabalho que te desequilibra porque provavelmente existe um outro caminho que te energiza mais e pense na possibilidade de parar de comer açúcar. Faça um teste sem açúcar e veja como se sente, perceba os ganhos e as dificuldades, assim você pode optar por seguir o caminho que te faz bem. Enfim, liberte-se para florecer. Se o salário pode ser um hábito e os ratos preferem o açúcar, talvez esteja aqui a resposta.
