Por mais abraços coletivos e menos guerra.
Independência é a certeza de ser amado.

Meu marido saiu para passear como o nosso filho, enquanto eu tomava um banho e fazia um café. Foi abordado por uma senhora conhecida que disse: eu já falei para a Marina que ela está muito apegada ao filho e por isso vai sofrer muito quando ele se tornar independente.
Bom, estou escrevendo para evitar uma úlcera, mas também para organizar meus pensamentos, aqui estão:
1. Eu acredito que ser mãe é mesmo para as fortes. Porque exige o prazer e a dor de uma total entrega. Se doar sem saber como será o futuro, inclusive aceitar que a maior ansiedade de separação será a sua e você terá que lidar com ela. Ser forte é saber ter defeitos, falhas, se permitir ser triste, pedir ajuda. Ser mãe é uma oportunidade para aprender sobre si, e olhar para si também é para os fortes.
2. Eu chamo de psicologia básica 1: geralmente quando alguém fala do outro, está falando de si. Será que essa senhora sofreu muito ao se separar precocemente dos filhos ou da própria mãe? Será que isso é um pedido de ajuda de alguém que precisa desesperadamente de apego? Dou o meu cartão para ela marcar uma consulta? Tem uma outra senhora aqui perto que sempre que eu passava ela dizia: esse menino no colo toda hora, você parece uma Índia! Passava, porque eu dei muito colo, mas agora ele só que saber de chão. Será que essa senhora também não precisa desesperadamente de colo? Eu poderia fazer um grupo aqui no bairro para darmos colo umas para as outras, para sermos amadas, sem a necessidade de se separar precocemente com medo de ferir o outro ou dele não aguentar. Falo isso de peito aberto, pois é mais fácil atender a um pedido de amor do que ter que interpretar críticas.
3. Acho interessante que apareceu a palavra apego, que é justamente o nome da teoria que foi desenvolvida depois da Segunda Guerra por conta das crianças órfãs de que apresentavam muita dificuldade (wikipedia):
Teoria do apego (português brasileiro) ou teoria da vinculação (português europeu) é a teoria que descreve certos aspectos a curto e longo-termo de relacionamentos entre humanos e entre outros primatas. Seu princípio mais importante declara que um recém-nascido precisa desenvolver um relacionamento com, pelo menos, um cuidador primário para que seu desenvolvimento social e emocional ocorra normalmente. A teoria do apego é um estudo interdisciplinar que abrange os campos das teorias psicológica, evolutiva e etológica. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, as crianças órfãs e sem lar apresentaram muitas dificuldades, e o psiquiatra e psicanalista John Bowlby foi convidado pela Organização das Nações Unidas(ONU) a escrever um panfleto sobre o assunto. Posteriormente, ele formulou a teoria do apego.
4. Sobre a questão do cuidador primário, no livro Besame Mucho, Gonzales fala sobre o mesmo estudo:
"Em 1950, as Nações Unidas encarregaram John Bowlby de fazer um estudo sobre as necessidades das crianças órfãs. O resultado do seu trabalho deu origem a um livro que analisa o efeito da separação nas crianças, sobretudo a partir da observação de crianças internadas em hospitais e das crianças de Londres que, durante a guerra, foram separadas dos seus pais e evacuadas para o campo a fim de escaparem aos bombardeamentos"
"Nas menores de três anos, quanto melhor era a relação com a mãe, mais se alterava o comportamento da criança depois da separação. As crianças que já eram maltratadas ou ignoradas em sua casa, apenas choravam ao serem levadas para um orfanato ou hospital. Mas isso não significa que tolerem melhor a perda, mas que já não têm quase nada a perder. Não têm a reação normal de uma criança saudável da sua idade. Pelo contrário, em crianças com idades compreendidas entre os cinco e os oito anos, aquelas que tiveram uma relação mais sólida com a mãe, as que recebiam mais mimos e passavam mais tempo ao colo, são as que melhor suportam a separação. O estreito contacto nos primeiros anos deu-lhes a força necessária para suportar as adversidades, o que atualmente os psicólogos conhecem por resiliência."
5. Muito elucidativo o fato de que a Segunda Guerra nos trouxe de volta ao apego. Não posso deixar de pensar que é justamente a falta de apego que faz os seres humanos criarem a Guerra. Afinal, seria fácil imaginar que Hitler foi uma criança muito amada, aceita pelo que é, acolhida no colo, que recebeu Shantala da mãe, dormiu no peito do pai logo após nascer?
6. Com base em tudo, eu acredito que aquele que foi privado do amor incondicional pode passar o resto da vida buscando o que não teve. Isso para mim não é independência. Independência é a certeza de ser amado pelo que é, de ter um porto seguro, de ter alguém por perto que quer estar presente quando a solidão apertar. Quando se tem tudo isso, é possível voar longe por saber ter para onde voltar.
É muito triste para mim que o ser humano tenha que sofrer privação, e mais triste é que ele não consiga nomeá-la ou identificá-la. Quando não sabemos aonde dói, também não conseguimos pedir o conforto que precisamos. Fica para mim novamente a ideia da importância do apego* na primeira infância, que tem o desafio da incompreensão e os obstáculos do ferimento dos outros, que querem interferir. Nunca sei se estou fazendo certo, mas basear-me em evidências me ajuda a concordar com o meu coração e acreditar que é possível existir um mundo com mais amor e tolerância.
*ou criação com o coração, ou vínculo, ou amor, ou o que você quiser, desde que seja você com o coração aberto, a mente presente, o corpo entregue. O apego parece apenas uma maneira de comprovar aquilo que parece óbvio: o ser humano precisa de vínculo e amor incondicional.
