entrevista com Renato Stockler

Por Patrícia Monteiro

Renato Stockler / Sara de Santis

Você tem um Instagram, que é uma ferramenta muito difundida, seguido por milhares de pessoas e recentemente a Luisa Dörr recebeu a incrível tarefa de retratar mulheres para as capas da revista Time justamente porque sua conta de Instagram chamou a atenção para suas fotos feitas com um Iphone. Você acha que esse é um caminho para a fotografia? Que a linguagem fotográfica depende do autor e que, portanto, cada vez menos importará sua ferramenta?

Eu não acho que o meio não importa, você tem pessoas produzindo para um meio. O exemplo da Luisa é um exemplo muito feliz, primeiro porque ela tem um domínio total do que ela quer e a relação de empatia que você cria com uma pessoa que sabe e tem segurança do que pensa para fazer um retrato, você consegue chegar em resultados diferentes do que se você simplesmente chegasse com uma grande parafernalha, flash, assistentes e tudo o mais. Isso de certa maneira inibe e quando você vai fotografar pessoas que não estão acostumadas isso, você destrói a relação. Ela já começa engessada e você não consegue ir além.

E a Luisa soube fazer isso muito bem ao longo do trabalho dela, ela tem certeza do que ela quer e de como compartilhar esse trabalho. Acho que por conta disso, de ela ter o olhar de mulher fotografando mulher, que é uma grande diferença… é um momento importante para as mulheres que trabalham com imagem ocupar esse espaço que é uma luta de milênios, não é um luta de hoje, de ocupação desses espaços e territórios dominados pelos homens.

E a plataforma é onde você consegue acessar muito mais gente. É um bom sistema, uma boa plataforma para isso, foi sendo melhorada para isso, mas ao mesmo tempo ela não vai dizer o que o fotógrafo, ou o produtor de imagem, tem que fazer. Ela te permite chegar em outros lugares, você ver outras fotografias, outras imagens, ter acesso à própria TIME. Mas a ferramenta em si não é o final. Ela é uma plataforma de compartilhamento.

Se eu olhar para o Instagram como ferramenta final da minha produção eu estou ferrando com a capacidade de memória de uma população, porque primeiro, você fica controlado a um grande grupo de comunicação e segundo, você não sabe se der um bug nesse sistema, o que pode acontecer com o seu trabalho, com a sua memória. Essa é uma discussão importante. O quão efêmero é tudo aquilo que a gente produz? Não dá para achar que tudo aquilo que a gente produz pode virar um documento histórico… Mas existe a necessidade de ter esse documento histórico.

Há a importância de se imprimir, de ter esses objetos físicos que tragam um pouco dessa trajetória. Não podemos ficar na lógica só do digital.

E o celular é só mais uma ferramenta…

Essa é uma discussão que eu acho que já devia ter sido encerrada. O próprio chamariz dessa história da Luisa… o pessoal falando “pô, a menina vem com o iphone…”, cara, não importa isso. Eu posso vir com uma câmera de cinema, uma Alexa com uma lente incrível, um equipamento que custa 150 mil dólares, posso chegar com um celular de 600 dólares… não importa. Qual a tua trajetória, olhar, pensamento, reflexão que tem a ver com isso…

Eu praticamente não fotografo mais com o celular hoje, porque primeiro, meu celular está obsoleto, é um Iphone 6 e eu estou com preguiça de gastar mais 900 dólares num aparelho novo enquanto o meu está funcionando. Eu estou com produção em várias [frentes]. Eu trabalho com médio formato, com 35mm negativo, trabalho com digital, trabalho com vídeo… qual é a minha ferramenta? É meu olho, meu pensamento.

Em uma entrevista há um tempo atrás você disse que “a fotografia me fez repensar a maneira de encarar a rua, por me permitir flanar pela cidade, por me permitir caminhar sem objetivo certo, sem a preocupação de ser ou estar”. Para você, a fotografia tem esse papel de refletir sobre o mundo/local onde vivemos?

Tem. Não só a fotografia. Se você pensa que toda a sua produção, todo o seu pensamento, sua reflexão sobre o mundo, ela pode ser materializada através de uma catarse criativa, através de um texto, de uma relação, através do trabalho, pode ser materializada através da educação de um filho, enfim. As vivências que a gente tem são repassadas de alguma maneira para o mundo. A ferramenta que eu encontrei consegue unir um pouco da vivência que eu tenho com a comunicação, por ser jornalista, por viver numa cidade visual, porque a imagem tem um peso absurdo na formação de um povo, de uma cultura, e ao mesmo tempo isso ser possível de ser transformado como um ganha-pão, como um mecanismo de sustento.

Acho que essa união dos aspectos criativo, econômico e afetivo isso me permite olhar para o mundo de outra maneira. É o canal que eu tenho de me comunicar com o mundo. Todas as minhas inquietações, as pesquisas que eu faço a partir dela, minha capacidade de me indignar com a desigualdade, com os conflitos, com as imposições de força e de poder que a gente vive, eu acho que a imagem e a cultura visual são capazes de acessar outras pessoas e mostrar “olha, isso aqui precisa ser dito”.

E quando eu falo sobre a rua, a rua é um reflexo desse processo. Eu posso ter uma visão sobre a macroeconomia do mundo, ou sobre os grandes conflitos armados que estão pensados pelo mundo e eles podem estar refletidos na cidade. Se eu vou pra São Paulo e tenho pessoas que estão chegando de outras partes do mundo, da Venezuela, do Congo, da Síria… que estão vindo pra essa terra e estão em algum lugar da rua, da onde são essas pessoas? Por que que elas estão aqui? Você começa a ter contato com essas pessoas na rua. É uma maneira também de se reconhecer no mundo.

O Valongo deste ano se propõe a registrar o Brasil e ajudar na construção e preservação de sua memória. Engraçado que você comentou sobre “se indignar” com as questões do mundo… Muito se diz sobre o enorme número de imagens que inundam nossa sociedade. As pessoas ainda se indignam?

A gente está inundado de imagens… mas tem um aspecto importante, e acho que um festival ajuda um pouco nisso, que mais do que nunca o editor e o curador cumprem um papel importantíssimo no mundo. É o momento de quem trata e reflete imagem, lida com imagem.

Não vou dizer que a gente deve deixar na mão dos outros para que façam, tragam para a gente, para os consumidores — todos nós somos consumidores de imagem — uma bandeja pronta e nos digam “isso é o que tem de memória para você”. Mas pelo menos isso precisa ser quebrado, esse mecanismo de imposição vertical que os grandes grupos de comunicação sempre impuseram.

Quando você tem grandes coletivos de fotógrafos independentes no mundo inteiro surgindo e se comunicando, começando a estabelecer essa trama, esse diálogo entre imagens do conflito na Síria junto com o conflito em Honduras… existem meios de falar: somos todos ligados a uma questão, chamada humanidade. Essa humanidade precisa lidar com essas questões, não importa se tem um milhão de imagens, essas imagens dizem coisas.

Se eu tenho zilhões de imagens de pessoas fazendo foto da sua bunda numa academia no espelho, sim isso tem um significado. Isso representa uma lógica de consumo de imagem, de venda de imagem, de processo de auto-imagem. Isso tem significado de formação de um povo, de uma cultura, não posso negar que isso existe. E aí que entra o pesquisador, o curador, o editor nesse momento de olhar para tudo isso e compreender e trazer o debate. Esse é o caminho. E o festival acho que cumpre um pouco esse papel. Projetar o debate.

Quando eu falo de documento, de me indignar com as coisas, sim, as coisas precisam continuar a ser fotografadas. Eu não posso achar que o fato de as coisas estarem postas como elas estão e praticamente depois de anos de resistência você ver que as coisas não mudam, não significa que eu não possa acreditar, sendo utópico, que em algum momento essa transformação pode surgir. A gente vive um pouco desse modelo agora. Surgiram soluções políticas mais centro-sociais no mundo dos anos 90 até agora e agora o balanço histórico está gerando uma onda conservadora violenta. Violenta e absurda, agressiva. Não dá para negar isso. A imagem não vai ser feita desse processo? Eu não vou contar o que está acontecendo no mundo agora? Como é que eu vou manter essa memória lá para frente? Esses debates precisam ser feitos. As pessoas precisam interpretar os dados para evitar que isso aconteça de novo.

Mas você ainda acha que as pessoas são tocadas, são impactadas pela fotografia?

Não tanto pela fotografia, mas pela imagem. Vamos pegar esse exemplo da intervenção no MAM, da ação do MBL. A indignação não está relacionada à uma coisa isolada. Existe um propósito político direto e claro nesse processo de aderência de discurso. Tem uma intervenção, milhares de pessoas assistindo uma adaptação da obra de Ligia Clark, um nu e tem uma criança presente, a mãe está ciente, mas eu recorto todo aquele contexto e coloco um homem nu e uma criança e coloco a palavra “pedofilia”. A aderência de pessoas a esse discurso é muito maior do que a aderência de pessoas contrárias falando “está fora de contexto, você está recortando…”. O jornalismo fez isso a vida inteira. Um presidente da República foi eleito em detrimento de outro em 1989 por uma edição do debate feito por um grande canal de televisão. Edição. Esse recorte precisa ser visto, interpretado e discutido… então a imagem gera sim, para o bem ou para o mal, um tipo de indignação. Uma avalanche de pessoas falaram de pedofilia… Claro, quem vai ser o alucinado de falar que é favorável à pedofilia no século XXI? Mesmo o pedófilo não vai admitir isso.

Então a cola que esse discurso tem vem atrelada à imagem. Sem aquele vídeo, aquilo ali não existiria. É a brincadeira que as pessoas falam: “Está no YouTube? Se não, não aconteceu”.

Amanhã você dá o workshop chamado de “histórias globais”. Do que se trata?

Eu consigo ter uma noção de empatia de uma situação que acontece em Santos, em outras cidades do Brasil, e que podem acontecer e acontecem em outras cidades da América Latina e pelo mundo afora. Se você tem uma dimensão de um mundo que se tornou global economicamente, se tornou mais diverso em termos de população e que hoje gera um movimento contrário à isso, de fechamento de fronteiras, de isolamento de povos… essa ausência de empatia com o outro, a proposta desse workshop é justamente o contrário. É possível mostrar que o que você vê aqui está presente em outros lugares.

Essa lógica de não-território, eu posso tratar de problemas globais dentro do meu espaço. Eu posso encontrar conflito dentro da minha comunidade. Um bairro em Santos, por exemplo, que tenha uma renda média de 5 mil dólares por mês, comparado a uma população que mora em outro bairro que tenha uma renda média de 250 dólares, essa desigualdade está presente em qualquer lugar. Eu posso contar de um problema local e ampliar esse debate para um problema global.

As ações que se tomam em determinados espaços vão refletir em outros. Mostrar para as pessoas que elas estão sim conectadas com outras questões. A desigualdade é o tema base desse projeto que eu vou desenvolver com o pessoal… é um processo de troca. Entender também como as pessoas se enxergam tomando parte desse processo, como produtores de imagem o que elas podem gerar de algum tipo de transformação.

A imagem é capaz de transformar? Eu acredito que ela não é capaz de transformar, mas é capaz de gerar o debate. Esse é o caminho. Acreditar nessa capacidade de mobilização.