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à uma hora e cinquenta e cinco da manhã
de cada dia 
há dois anos 
reúno-me comigo mesma e outros
personagens fictícios para concluir
que há uma curva inteira
feita de pontos fora da curva

meu filho jorrado em sangue e censura
rasga meu território insular 
para me trazer a benção de uma missão
 — limpo minha baba

você surge de algum canto 
empoeirado do quarto que esqueci
e me pergunta se podemos juntos
terminar de ler aquele livro que há tempos
atrás nos fez questionar o mistério dos
gatos e do motivo pelo qual a poesia
vinda da tua boca é a única que eu 
conseguiria ouvir até o dia das flores

até duas e meia da manhã
nenhuma resposta
para a pergunta que duas e quarenta eu
te faço

o que é isso que só
você
ainda que falso
consegue extrair dessa pedra

homens maus que criam
meninos não tão maus assim
correm e balançam as cortinas
enquanto o carmim continua a
escorrer 
mancha lençóis e as pernas que percorrem
uma desconhecida maratona do amor

cinco minutos depois
e minha mãe aparece na soleira da porta
manda todos embora
incomodou-se com o barulho
olha-me nos olhos e diz
eu te avisei

há muito frase 
sem pontuação dentro
desse quarto
desse plástico
desse copo
desse corpo
dessas letras
eu te avisei


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