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“Quando acaba, é uma agonia que só, eu sei. A gente toca é uma esfera de piedade e autopreservação quando tenta chegar até as mãos, olhos e alma do outro. Tudo se torna ironia fina, fino sarcasmo, medo imediato e persistente. Quando os lábios do outro se tornam semiabertos, teus olhos já ficam semicerrados, quase fechando, como se as pálpebras já estivessem tentando suportar a carga das terríveis palavras que estão por vir. Quando os olhos do outro se tornam semivítreos, imersos numa semi-solidão, você sabe que é porque há um outro alguém passeando nos tenros jardins-encantados-do-pensamento-de-fulano, alguém que não você, pois você mesmo está ali ao lado, não fora convidado para o encontro, está dolorosamente ali ao lado, com o corpo semi-encolhido, ameaçada pelo fantasma divino que está prestes a caminhar para fora daquele corpo semi-inerte que o carrega e se materializar no espaço que você ocupa nesse exato momento, enquanto faz semi-preces para que não seja verdade, deve ser outra coisa, não pode ser, por favor, por favor…
Mas nada acontece.
A não ser alguns semi-sorrisos sinceros em horas inesperadas que preserva ativa a corda bamba pela qual a tua esperança se agarra; a não ser uma semi-condicional dessa agonia, que preserva ativo um afeto inexistente quando o teu corpo está gemendo alto sob o peso do corpo do outro e o toque, a presença e o amor não podem se tornar mais reais do que naquele instante; a não ser pelo semi-discurso proferido como saudação cotidiana, “tchau, boa noite, te amo, beijo”, que preserva ativo a sua ilusão de que ainda há significado em tais palavras; a não ser um distanciamento explicado por uma semi-desculpa, que já não preserva nada. Pois nada acontece, a não ser um fim consolidado por um semi-motivo. A não ser um último semi-olhar pesando um semi-egoísmo, um ou outro semi-relacionamento, semi-caráteres, semi-vidas. Semi-eu.
Essas suas lágrimas deveriam ser semi-lágrimas, meu bem, diria até objetos de estudos da semiótica.
Vê? 
Você deixou-se perder apenas mais um semi-amor.”

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