Do outro lado da fronteira

algumas coisas vão embora 
porque vivem melhor na estrada — 
degustadas pela memória, 
sem estômago para bifurcações. 
o passado é mecanismo de sobrevivência
e quem diz que não
está vivendo para dentro da própria casa.

o imediatismo é esmola 
e nosso mecanismo é a nostalgia,
nem oito e nem oitenta são as coordenadas
milimetricamente planejadas sob as quais
o mundo foi construído. 
a saudade só existe em português 
e você acha isso bonito — 
eu rio

se olho
é só a repetição mecânica da vida,
a declaração autenticada de posse

a contramão do infinito

um buraco para reflexão
o piloto automático
a sobrevivência de migalhas 
que se tornam cada vez menos nítidas 
nas imagens que você cultiva -
uma primeira vez única
e a melhor primeira única vez

até o próprio fim,
vingança sem menções honrosas,
em que você se torna
saudade de um outro alguém.


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