Estado de emergência

essa cidade e os prédios
e os carros e o fluxo de pessoas 
e buracos
a serem descobertos e a umidade
incessantemente nula 
reflete em mim o que quer pra si e eu
não consigo chorar.

ando percorrendo qualquer resto
faminta de quatro lambendo o chão por onde
eu sei que você passa 
tragando o ar que 
eu sei que você já tragou
relando nos objetos que
eu sei que você tocou
sugando as pessoas quase vazias
esqueletos inúteis com as quais
eu sei que você esteve nas últimas semanas
uma palavra, uma menção qualquer
seu nome cruzado com a esquina de uma aparente indiferença
e cá estou eu envolta num _________ 
que nem você em carne e gozo e sangue e osso 
foi capaz de me oferecer

e eu não consigo chorar.

cheguei no ponto em que não passa um mísero ônibus
que me leve para qualquer lugar onde preciso chegar
eu não quero, eu preciso, senhor
escuta essa súplica cuspida e escancarada, 
D E S E S P E R A D A
seja o universo para essa galáxia perdida sem estrelas
e se se eu for para casa eu tenho certeza de que 
os porteiros não vão me deixar entrar
pois é visível que não sou eu 
tentando entrar

e me sentar à mesa
e dizer onde estive na última noite
e perguntar como é que foi a sua última noite
e levantar-me da mesa
e abrir a porta da geladeira sabendo que na verdade
eu queria era abrir a janela 
e me olhar no espelho e decidir por não retirar
os resquícios de maquiagem que ainda me restam
e que, eu sei,
mal podem esperar para destruir 
o que sobrou de lúcido nesse rostinho tão falso.

tão falso
tão falso
tão falso.


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