nota de rodapé

no cantinho, rabiscado ao inverso

escuta, 
você já sentiu qual é a coisa pela qual mais tenho apreço em vida? o que vejo quando olho para todas as contas, todos os choros, todos os crimes, todos os casos que reforçam vinte e cinco horas por dia, até mesmo quando estou dormindo, o quanto é fácil achar que tudo vale tão pouco? você já sentiu esse marejar quando são seus olhos? ou quando ela olha pra ele, ou quando todos nós juntos sorrimos? você já sentiu o que eu disse quando disse bom dia e olhei para fora da janela? como se bastássemos dentro de uma sala nua? o que acontece na minha pele quando eu te toco? você já sentiu a geografia das palavras dentro do meu vocabulário? que as palavras dor e dependência não partilham a mesma página nessa palavra cruzada? as palavras relacionadas são d(or)istânci(s)a(udade). você já sentiu como se fosse um desejo, um vestido inexistente ao invés de um vestido branco, uma criança que não para nunca de correr, um programa entediante num domingo mediano? você já sentiu quantas vezes eu te disse sim? você sabe quantas vezes eu me disse não? você já sentiu quantas contramãos essas letras percorreram para fugir do medo que quebrou essa imagem escorada no seu criado-mudo? o quanto, de vez em quando, declarações que não são oficiais, registradas, autenticadas, carimbadas ou traduzidas são essenciais para que eu não esqueça quem sou? eu permaneço porque eu sinto. eu sinto eu sinto eu sinto. eu sinto tanto. eu sinto muito.