Meus filmes favoritos de 2015 (e outros não tão favoritos)

Este deve ter sido o ano em que eu mais fui ao cinema até o momento. Aproveitei uma data histórica para ver minha trilogia favorita na telona pela primeira vez, vi várias franquias clássicas voltarem (algumas em grande forma, outras nem tanto) e grandes e ousadas ideias ganharem forma na telona. Resolvi então escrever algumas breves notas sobre estes filmes.


- Maggie - A Transformação (Maggie)

O gênero de zumbis já tem regras e o papel de metáfora para a destruição da sociedade tão estabelecidos na cultura pop que qualquer outro uso de mortos-vivos sempre surge como uma novidade muito bem-vinda.

Tudo que o diretor Henry Hobson e o roteirista John Scott III precisaram fazer para isso foi alterar a regra mais básica do gênero: e se a infecção por mordida, em vez de quase instantânea, se arrastasse ao longo de meses?

O brucutu supremo Arnold Schwarzenegger deixa a pancadaria de lado para encarnar um fazendeiro cuja filha (Abigail Breslin, que já enfrentou zumbis em Zumbilândia) foge de casa e volta com uma mordida no braço. Mesmo sabendo do inevitável que virá, Arnie mantém a garota com a família - e o que se segue é uma reflexão sobre doenças terminais e a dor de aceitar a iminência da morte.

- Eu, Você e a Garota que Vai Morrer (Me and Earl and the Dying Girl)

Um rapaz que faz filmes caseiros com o “parceiro de negócios” que ele não tem coragem de chamar de amigo é forçado pela mãe a visitar uma colega de escola que tem câncer.

O filme também lida com as mesmas questões de Maggie, claro, mas apresenta outras que não têm nada a ver com o câncer. Até que ponto nos isolamos por medo das opiniões alheias, ou mesmo egoísmo? Que diferença você pode fazer na vida de alguém só por estar lá?

- Missão Impossível - Nação Secreta (Mission: Impossible - Rogue Nation)

O quinto capítulo das peripécias de Ethan Hunt mantém tudo o que a franquia faz de melhor: perseguições, traições, agentes duplos/triplos, Tom Cruise em cenas de ação absurdas… E ainda assim consegue surpreender o espectador desde a abertura, que subverte um dos maiores clichês da franquia.

Não bastasse isso, o filme apresentou o mundo a Rebecca Ferguson, ocasional interesse romântico de Hunt e fodalhona frequente. Deu tão certo que a continuação será o primeiro filme da série a manter protagonista feminina e diretor.

- Homem-Formiga (Ant-Man)

O projeto cuja longa gestação deu origem à Marvel Studios sofreu uma forte baixa antes de chegar às telas. Edgar Wright saiu logo antes de iniciar as filmagens, mas o roteiro e storyboards que ele deixou para trás deram ao filme seu mesmo estilo repleto de cortes rápidos e lutas criativas.

(Não por acaso, Wright é creditado como roteirista e produtor executivo.)

A Marvel volta e meia é acusada de contratar diretores para simplesmente “seguir o manual”, mas o que temos aqui é a Casa das Ideias seguindo o manual do autor da Trilogia do Cornetto. Seria melhor ter Wright na cadeira do diretor, claro, mas mesmo sem ele o projeto que era motivo de piada virou um filme divertidíssimo.

- Vingadores - Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron)

Era pra este filme ter sido uma porcaria.

Não bastassem os seis protagonistas remanescentes do filme anterior, Era de Ultron abre ganchos para pelo menos três filmes futuros, introduz vários novos personagens e faz alterações polêmicas na mitologia original. Se você lembrou de X-Men 3 e Homem-Aranha 3, pode ter certeza de que não foi o único.

Talvez isso explique o cinismo com que Era de Ultron foi recebido, mas Joss Whedon conseguiu mais uma vez criar um filme divertidíssimo. James Spader cria um vilão carismático e assustador, as novas adições à equipe já chegaram se sentindo em casa e o climão de quadrinhos que tanto fez o sucesso do anterior se faz ainda mais presente aqui.

- Star Wars - O Despertar da Força (Star Wars - The Force Awakens)

Depois de um filme que foi criticado por se parecer demais com seu antecessor, um que vem sendo elogiadíssimo pelo mesmo motivo. A Internet é um lugar estranho. (O que me faz pensar no que dirão deste quando o Episódio VIII sair. Enfim.)

Incumbido das duras missões de tirar o gosto ruim que ficou da trilogia prequel e superar o hype mais insuperável da história do cinema, J.J. Abrams fez um filme simples e seguro, que evoca o episódio IV e apresenta uma nova geração de personagens para seguir com a tradição de aventuras estelares.

Há tempos não se escrevia tanto sobre um filme, então para não me estender vou dizer apenas que Rey é a segunda melhor personagem feminina da década (sigam lendo para a primeira), desde que saí do cinema estou com a impressão de que ela é neta do Obi-Wan Kenobi… e sério, os vilões constroem OUTRA Estrela da Morte? Até o Han Solo tira sarro disso!

- Perdido em Marte (The Martian)

Para um dos maiores diretores vivos, Ridley Scott andava com a mão meio descalibrada. Êxodo e O Conselheiro do Crime chamaram mais atenção pelas polêmicas do que pelos filmes em si, Prometheus é mais lembrado pelos diversos buracos no roteiro e ninguém realmente se importou com Robin Hood.

Eis que a volta de Scott à ficção científica recolocou o diretor no caminho certo. Depois de uma tempestade de areia que o deixa, , perdido em Marte, o astronauta interpretado por Matt Damon precisa sobreviver no planeta vermelho até o resgate chegar… e é isso. Não existe um antagonista personificado, coisa rara no cinema, nem Damon tem a sorte irritante de Robinson Crusoé. Lembro de escrever no meu primeiro blog sobre tudo dar certo sem esforço para o “homem branco superior” de Daniel Defoe - sério, Crusoé vira um saco de sementes só para esvaziá-lo e quando vê nasceu um milharal.

Já Mark Watney, o personagem de Damon, conta apenas com a ciência e sua própria inventividade para realizar proezas que vão desde se comunicar com a NASA até gerar oxigênio e água. O que se segue é uma história da inteligência humana superando um problema que parece insuperável. Quem disse que ciência tem que ser chata?

- Divertida Mente (Inside Out)

Lembra de quando Carros 2 fez todo mundo se perguntar se a Pixar tinha perdido a mão? Pois o estúdio recuperou o fôlego e trouxe um filme que é fácil, fácil um dos seus melhores.

Ao colocar emoções como protagonistas, o filme ajuda as crianças a lidar com o próprio amadurecimento e traz os adultos de volta à transição para a adolescência. E quem não chorou na cena do Bing Bong não tem alma.

- Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max - Fury Road)

A norma de Hollywood dita que mesmo os filmes de ação mais alucinada têm um primeiro ato mais lento, para apresentar os personagens e o mundo que eles habitam. George Miller olhou para a norma de Hollywood e disse “MEDÍOCRE!”

Estrada da Fúria já começa na terceira marcha. Miller construiu o quarto Mad Max como uma “perseguição de duas horas”, incluindo ininterrupta com as tais informações sobre o mundo na ação. A cena em que Immortan Joe desce de seu pódio para ver é uma aula para roteiristas e cineastas: nenhuma palavra é dita, mas só de ver por onde Joe passa entendemos como sua cidadela funciona.

Para completar, nestes dias de intensas discussões sobre feminismo e arquétipos de gênero, o filme ainda nos brinda com Charlize Theron como Imperatriz Furiosa, a melhor personagem da década.

Na saída do cinema, enquanto tentava entender o que tinha acabado de ver, eu construía teorias sobre o passado dos personagens e me perguntava: COMO um diretor de 70 anos faz do quarto capítulo de uma franquia inativa há 30 anos (e tendo perdido o ator principal, um dos maiores astros da história) algo tão impressionante?


  • Filmes que não foram tão legais assim

- Jurassic World

Se as pessoas que vão ao Jurassic World “estão cansadas dos mesmos dinossauros”, por que o parque está transbordando de gente?

Pode parecer frescura (e provavelmente é mesmo), mas essa dissonância logo de cara me tirou do filme. Pra piorar, o filme não entende a própria moral e os personagens rasos desperdiçam um ótimo elenco. Dinossauros digitais são bacanas, claro, mas o que fazia o primeiro Jurassic Park funcionar eram os personagens humanos. E ninguém aqui chega nem perto de Ian Malcolm ou Alan Grant.

- O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator: Genysis)*

Numa franquia sem previsão de término, como os quadrinhos sempre foram e o cinema vem se tornando, em algum momento a Skynet mandaria exterminadores atacarem Sarah Connor ainda criança.

OK, eu entendo. É um plano lógico, considerando que tudo mais deu errado. Mas a analogia com HQs se torna perfeita ao percebermos que muita coisa deste reboot disfarçado foi plantada para ser explicada nas continuações. Ou seja, os dois maiores filmes de ação da história foram apagados em prol de uma história confusa e que não se fecha.

E estúdios de Hollywood, já é hora de parar de insistir em Jai Courtney como astro de ação. Como Sam Worthington antes dele, o cara não tem carisma nenhum - o que fica ainda mais claro quando ele contracena com o T-800 “velho, mas não obsoleto” de Schwarzenegger.

* Agradecimento ao tradutor por corrigir a grafia canhestra do título original. Olha aí, gente, às vezes a tradução PT-BR acerta na mosca.

- Golpe Duplo (Focus)

Ainda falando sobre carisma, ninguém duvida que Will Smith e Margot Robbie têm o charme necessário para conduzir este filme sobre carismáticos trapaceiros - um gênero que vive ou morre pelo apelo de seus protagonistas. Ou seja, Golpe Duplo começa bem na disputa para escolher o que assistir.

O problema é só por causa deles que o filme funciona. A trama é uma colcha de retalhos que não casam entre si, como se tivessem montado um roteiro juntando cenas de vários outros. Tanto que a ação mais importante de toda a história, que serve de gancho para o ato final, acontece do nada e não faz sentido.

- Homem Irracional (Irrational Man)

Joaquin Phoenix até convence como um niilista conquistador com barriga de tiozão letra C, mas Woody Allen constrói um de seus filmes mais irregulares em torno do personagem.

Phoenix, um professor universitário, decide cometer um assassinato com base numa conversa que ouviu num restaurante, tudo enquanto enrola duas mulheres (Parker Posey e Emma Stone) e as leva a terminar seus respectivos relacionamentos.

Nenhum destes términos recebe maior atenção, e a história que o filme realmente conta — a do tal assassinato — demora DEMAIS a engrenar. De repente acontece uma virada que deixa o filme cruelmente divertido. Pena que logo depois ele acaba.

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