Capitalismo sexual, complexo de Cinderela e a falsa liberação sexual

Cresci querendo ir contra tudo que meus pais me impunham como feminino e frágil, consequentemente rejeitei o ideal da moça virgem quando adolescente e fui pro sentido oposto, caindo na falácia violenta da liberação sexual, que me rendeu uma memória dolorosa da minha sexualidade em descoberta e desenvolvimento. Talvez numa vontade inocente de iniciar a vida amorosa e com a auto-estima destruída pelo não cumprimento dos papéis à mim estabelecidos, acreditei que quanto mais histórias minhas e sobre mim existissem melhor seria, eu me sentia mais livre e adulta, distante da imagem da moça frígida de pernas cruzadas e voz doce. Essa liberdade veio com o sopro da sensação de poder e me levou ao ideal da femme fatale tão cultuada pelos homens ao meu redor; é aparentemente uma mulher fatal por ser livre e não cair nos braços do patriarcado, de olhar profundo, culta e sexy(claro), mas ainda um objeto de desejo de “domar” masculino, objeto de culto de poetas/pintores e objeto de composição do quadro cinematográfico, essa mulher segue as performances que observou na pornografia para satisfazer o homem e se coloca em situações de exploração sexual como se colocam prostitutas e atrizes pornôs, seu prazer nada tem de relevante, tudo aqui é construído em torno do desejo masculino.
O que havia de comum entre esses ideais que me espelhei, além de pintarem a sexualidade da mulher como performance, é que eram construídos a partir de uma necessidade feminina de conquistar um homem e ter sua auto estima valorada pelos homens que a desejariam. Necessidade essa, acredito inconsciente de tão profundamente incrustada em nós, que surge dos contos de fadas e revela a romantização do homem como parte do ideal de felicidade ensinado às mulheres. Puxa-se a memória da história da princesa que é salva pelo seu príncipe e portanto vivem felizes para sempre. O príncipe trair, estuprar, bater, abandonar, abusar, trocar por outra nunca constou nas histórias que nos contavam, mas sempre foi o outro lado da moeda do ideal de virilidade do homem dominador, que vai salvar e cuidar e proteger de todos os males.
A autossuficiência não é um bem agraciado aos homens pela natureza; ela é um produto de aprendizagem e treino. Os homens são educados para a independência desde o dia de seu nascimento. De modo igualmente sistemático, as mulheres são ensinadas a crer que, algum dia, de algum modo, serão salvas. Esse é o conto de fadas, a mensagem de vida que ingerimos junto ao leite materno. Podemos aventurar-nos a viver por nossa conta por algum tempo. Podemos sair de casa, trabalhar, viajar; podemos até ganhar muito dinheiro. Subjacente a isso tudo, porém, está o conto de fadas, dizendo: aguente firme, e um dia alguém virá salvá-la da ansiedade causada pela vida. (O único salvador de que o menino ouve falar é dele próprio).
Colette Dowling, Complexo de Cinderela
O comércio de corpos femininos (prostituição e pornografia) mantém a supremacia masculina, porque participa ativamente da construção do prazer sexual feminino a partir da excitação da submissão da própria mulher, excitação essa que chega ao extremo das fantasias de estupro vivenciadas por muitas mulheres. Os tão famosos “orgasmos fingidos” são parte das inúmeras vezes em que mulheres “permitem” o intercurso sexual (penetração) por mais que doa e que não deseje, mas que não lhe vêm a cabeça questionar, pedir que aquilo cesse. Agradar o parceiro é o foco da mulheres que querem manter o ideal de felicidade (jamais alcançado sem o homem nele), mesmo que isso custe dissociar, se colocar enquanto objeto/carne (e ter consciência disso), ou melhor, enquanto robô humanoide, performar a puta na cama e a santa na rua, se submeter a degradação e dor diariamente. É preciso pontuar que isso é terrorismo sexual, muitas “mulheres comuns” dissociam, assim como vitimas de abuso sexual e mulheres em situação de prostituição o fazem, é o estupro institucionalizado socialmente. Lembro bem de quando um ex namorado me levou pro quarto da empregada, me “fodeu” com força e agressividade, gozou, saiu, mijou no banheiro, deitou na cama puto e eu fiquei sem entender o que tinha acabado de acontecer, mas saí dali ainda querendo viver um “felizes para sempre com ele”, como se nada tivesse acontecido.
Nós vimos que o domínio masculino sobre os corpos de mulheres sexualmente e reprodutivamente provê a base da supremacia masculina, e que a opressão na sexualidade e através dela diferencia a opressão de mulheres da de outros grupos.[…] o mecanismo mais poderoso hoje em dia para a construção da sexualidade masculina é a industria do sexo. A prostituição e sua representação na pornografia criam uma sexualidade agressiva que requer a objetificação de uma mulher. […] a prostituição constrói uma sexualidade de dominação masculina/submissão feminina em que a identidade e o bem estar da mulher, sem mencionar seu prazer, são vistos como irrelevantes.[…] Garotas são treinadas através de abuso sexual, assédio sexual, e desde muito cedo com encontros sexuais com garotos e homens assumindo um papel sexual reativo e submisso. Nós aprendemos nossos sentimentos sexuais da mesma forma que aprendemos outras emoções, em famílias de dominação masculina e em situações nas quais não possuímos poder, cercada de imagens de mulheres como objetos na publicidade e em filmes.
Sheila Jeffreys, Como as políticas do orgasmo sequestraram o movimento feminista.

Temos a combinação perfeita para a subjugação/servidão feminina, numa lógica que serve também ao capital, por nos vender e nos manter sob o poder de homens: mulher que depende emocionalmente de um cuidador, que é ensinada a falar baixo, ser calma, pura, santa e agradável, que possui um conto de fada no seu ideal de felicidade, que busca padrões estéticos impossíveis, que romantiza através do casamento como instituição ou do amor como sentimento profundo e puro, que se coloca em segundo lugar em diversas situações, principalmente as sexuais, para agradar o companheiro + homem egocêntrico, que tem sua sexualidade construída em cima dum ideal de dominação e virilidade, ensinado a se impor e não fazer nada contra suas vontades, criado sem limites e com imagens de violência desde cedo, busca ser forte e não espera ser salvo = relacionamento abusivo, sexo sem vontade, supremacia masculina.
A submissão feminina junto a dominação masculina é o status necessário para a manutenção do Capital circulando entre as mãos dos homens brancos, porque mantém a instituição da família patriarcal como a conhecemos. Precisamos de mulheres e homens que sejam necessariamente anti-pornografia, contra um ideal de virilidade e de submissão, contra a falácia da libertação sexual, e que entendam que suas companheiras vivem a única opressão estrutural em que o oprimido se deita com o opressor, da qual não sabemos as raízes e não conhecemos inteiramente, da qual nada deve ser desassociado. Sexo também é político, é preciso ressignificar.
