O som e a fúria, William Faulkner

Faulkner ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1949, o National Book Awards em 1951 e o Pulitzer, duas vezes, uma em 1955 e outra em 1962. Mas aqui não cabe ficar falando dos seus feitos, basta sabermos um recorte histórico para que boa parte da obra dele, passada no fictício condado de Yoknapatawpha, “faça sentido”. Ele nasceu cerca de trinta e tantos anos, no Mississipi, após a guerra da secessão, quando várias famílias aristocráticas sulistas dos Estados Unidos entraram em decadência e foram, portanto, devastadas econômica e psicologicamente. Logo, essa decadência serviu como pano de fundo para O som e a fúria. O livro conta a história da família Compson, que destrói a si mesma num fatalismo quase mágico. Os personagens de Faulkner estão presos a si mesmos, sem poder deixar de fazer o que sempre fizeram, como Sartre escreveu “nunca olham para frente; eles olham para trás, quando o carro os leva adiante”.

O som e a fúria tem como temas principais a loucura, o desespero existencial, o tempo, a relação hierárquica de poder, a decadência das relações humanas etc. Não é um livro que eu recomende, mesmo sendo um dos melhores que li e um dos mais difíceis também. Nele estão muito bem representados o fluxo de consciência (reprodução da atividade mental do narrador), a pluralidade de vozes narrativas (no caso, quatro narradores), e a quebra da estrutura linear do tempo. Eu demorei uns quatro meses só nas duas primeiras partes desse livro (enquanto cortejava com outras leituras, claro) e as duas últimas partes foram lidas em três dias.

Mas de que vale ler um livro tão difícil? Vi em algum lugar alguém que tinha detestado o livro, com total direito, mas havia sido por acreditar que havia um culto em cima de calhamaços por algumas comunidades intelectuais. Não acho que seja o caso desse livro. Assim como o escritor pode cobrar pouquíssimo de um leitor, também pode ele cobrar absurdos, isso não faz de um livro pretencioso ou fraco, o valor de um livro não se dá na sua dificuldade ou facilidade, ou no equilíbrio, mas na intenção do autor, o que quis passar com aquilo. Se ele quis desafiar o leitor, com maestria no caso de O som e a fúria, ótimo, a literatura tem de ser desafiante e instigante, a literatura não serve só de entretenimento, também deve incomodar; não necessariamente ela vai incomodar com a dificuldade de ser lida, um autor pode escrever algo simples e brilhante também. Uma coisa não exclui a outra.

Dito isso, vamos ao livro.

A primeira parte é narrada pelo irmão Benjy, já aos 33 anos, que possui alguma deficiência mental bem séria e age como uma criança de três anos, só conseguindo se comunicar através do choro; amava três coisas: a irmã Caddy (“Caddy tinha cheiro de árvore”), o fogo e o pasto, vendido para custear os estudos do irmão Quentin, como disse Faulkner no apêndice “também nessa ocasião não perdeu nada porque, tal como no caso da irmã, não se lembrava do pasto e sim da perda do pasto, e a luz do fogo continuava sendo a mesma forma luminosa do sono”. Nós entramos no livro vendo a visão de uma criança ou de uma pessoa que vê como uma criança, se Benjy não faz ideia do que está acontecendo, quem dirá nós. Chegamos como intrusos no ambiente familiar, a cena já estava acontecendo e o narrador não está nem um pouco preocupado em nos explicar qualquer coisa. Lidando com essa narrativa caótica, nós vivemos o caos do próprio personagem, o que nos faz querer desistir. Apenas quando aceitamos a nossa incapacidade de compreensão que conseguimos admirar a narrativa do Benjy. “Elas vieram. Abri o portão e elas pararam, virando. Eu estava tentando dizer, e peguei uma, tentando dizer, e ela gritou e eu estava tentando dizer e tentando e as formas coloridas começaram a parar e eu tentei sair. Tentei tirar de cima da minha cara, mas as formas coloridas estavam andando de novo. Estavam subindo a ladeira até o alto e eu tentei chorar. Mas quando eu puxei o ar e depois não consegui botar pra fora e chorar, aí tentei não cair da ladeira e caí da ladeira nas formas coloridas que giravam”.

O segundo narrador, talvez o mais interessante, é o irmão depressivo Quentin, que estuda em Harvard, graças a vendas feitas pelo pai, logo, carregando o peso enorme da família, que abdicou de tanto pela sua educação. É corroído pela paixão incestuosa pela irmã promíscua Caddy e, nas palavras de Faulkner, “amava não o corpo da irmã, e sim algum conceito de honra dos Compson sustentado de modo precário e (como ele bem sabia) apenas provisório pela membrana mínima e frágil de seu hímen”. Quentin é aficionado com a noção do tempo, quebrando o próprio relógio numa tentativa de parar o tempo, mas o tique-taque incessante continua sem parar na sua cabeça. É difícil dizer o que realmente aconteceu e o que não passa de fantasia na cabeça de Quentin. O fim trágico desse personagem é preconizado pela sombra que vê ao acordar e confirmado para nós apenas com os narradores subsequentes “Quando a sombra do caixilho apareceu na cortina era entre sete e oito horas, e portanto eu estava no tempo de novo, ouvindo o relógio. Era o relógio de meu avô, e ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e todo o desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que era tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele a às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão para filósofos e néscios.”.

O terceiro narrador é o irmão Jason que representa tudo aquilo que mais odiamos, mas não consigo odiar o personagem em si, apenas achá-lo perturbado. Há quem diga que ele é o único irmão “normal”, mas eu o acho talvez o mais doentio. É egoísta, todo o dinheiro que rouba da sobrinha (filha bastarda de Caddy, que possui o nome de Quentin, em homenagem ao suicida Quentin) não tem finalidade, apenas o faz para obter satisfação pessoal. Rejeita o amor familiar e o amor romântico, mas é o único que recebe amor da mãe doente. Ele detesta todas as mulheres fortemente “Uma vez vagabunda, sempre vagabunda, é o que eu digo.”, “Nunca prometo nada a uma mulher, nem aviso a ela o que vou lhe dar. Com mulher é assim que se deve fazer sempre. Para ela ficar sempre na expectativa. Se você não conseguir encontrar nenhuma outra maneira de surpreendê-la, dê-lhe um soco na cara.”; detesta também negros, judeus e estrangeiros, de forma sádica “E depois veem esses nortistas falar no progresso dos negros. Progresso, é? Progresso para mim era botar esses negros todos para correr, até que não se pudesse encontrar nenhum ao sul de Louisville, nem mesmo procurando com um cão de caça”. É um personagem cheio de ressentimento e vive tentando lutar contra a falência e a honra da família. É nessa terceira parte que mais se tem ação, é a mais cheia de fúria e ódio, é nela em que as coisas ficam mais nítidas.

Já a quarta e última parte possui um narrador onisciente, com foco na Dilsey, que é a matriarca negra da casa, é a testemunha da degradação da família Compson “eu vi o primeiro e o derradeiro”, “eu vi o princípio, e agora eu vejo o fim”. O irônico é que Dilsey, numa época extremamente racista, é a voz da razão no meio da loucura dos Compson, é ela quem fica com a família até o fim, sem abandoná-los. Ela representa todos os valores bons que vão resistir mesmo com a tragédia dessa família, representa a humanidade.

“Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É bastante cômodo dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá subsistir: que quando o último tilintar do destino tiver soado e se esvaecido da última rocha inútil suspensa estática no último vermelho e moribundo entardecer, que mesmo então haverá ainda mais um som: sua fraca e inexaurível voz, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isso. Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque dentre as criaturas tem ele uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando-o a coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que têm sido a glória do seu passado. A voz do poeta necessita não meramente o registo e testemunho do homem, ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer” (discurso do prêmio Nobel de Faulkner)

Para mim, este é o grande romance moderno da literatura norte-americana e Caddy, que seria a personagem central da obra, é uma das mais interessantes da literatura mundial. É largada pelo marido, deserdada e excluída pela família, proibida de ver sua filha (a Quentin, criada por Jason), a ela não é dada nem a oportunidade de contar sua versão da história, o que nos resta são suposições e a visão não tão confiável dos irmãos. Ela representa o objeto de obsessão dos três irmãos: Quentin com seu amor incestuoso, Benjy com seu amor infantil e dependente, e Jason com um ódio amargurado e ressentido, refletido no seu desejo de fazê-la mal. Dela é exigido manter a honra da família, ser pura e inocente. Alguns dizem ser Caddy a representação do leitor ideal, que, assim como sua pureza, não existe, seria aquele que não deturpa o que o autor quis passar com o texto com suas visões particulares de mundo.

Acredito que a leitura vá ficando mais fácil por causa do fim da família que vai se aproximando, é como se todo o som alto e a fúria, todo o caos “Mas ele berrava devagar, impotente, sem lágrimas; o som desesperado e denso de todo o sofrimento mudo que há sob o sol”, fosse se acalmando “A flor quebrada estava caída sobre o punho de Bem e os olhos dele estavam de novo vazios e azuis e serenos, agora que cornija e fachada passavam por ele mais uma vez da esquerda para a direita, poste e árvore, janela e porta e placa, cada um em seu lugar certo”.

“E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos
o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve!
A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator
Que se pavoneia e se aflige sobre o palco –
Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz.
É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria
E vazia de significado”.
(“Macbeth”, cena V, Ato V — Shakespeare)

Se forem tentar ler: resistam.

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