9 luas até o natal

Era dia, eu já desconfiava mas tinha medo de ter certeza, sempre tive medo das certezas, ter certeza na minha ilusão seria o mesmo que fixar em algo e/ou alguém e quando o apego surge, a visão fica turva e sou engolida. Mesmo com todo esse medo fui com ele, afinal tinhamos que ter certeza, sua mãe tirou meu sangue e levou para seu irmão fazer o teste, depois ele me levou pra casa e disse que ao meio dia voltaria para almoçar com o resultado, tempo suficiente para toda família dele saber, menos eu….

Chegou meio dia, ouço o carro estacionando na frente da casa, entro no carro e ele com uma flor na mão e um belo sorriso (aquele que me conquistou desde o primeiro dia que o vi) diz: Parabéns mamãe! — eu tremi por dentro. Toda a família dele mandou parabéns por ele, mãe, tia, vó, irmão, cunhada, irmã….e eu tremendo só de pensar em como eu iria dar a notícia para a minha mãe. O medo da responsabilidade bateu forte

Então era isso, eu estava grávida e não tinha a mínima noção do tamanho da mudança que estava prestes a começar. Os primeiros três meses passei aceitando o fato, a partir daquele momento eu seria responsável por uma vida humana, não que outras vidas não sejam igualmente importantes (como a vida de um gato ou um cachorro), mas cara é bem diferente criar um bebê humano, mas esse assunto fica para outro texto. Já no final do terceiro mês fomos ver essa nova vida que moraria dentro do meu corpo pelas próximas nove luas, chegamos na sala do ultrassom, aquele gel gelado na minha barriga e eu num misto de emoções que não sei explicar até hoje. Olho ansiosa para a tela e então surge, aquele protótipo de ser humano estava ali, vivo e de repente o som preenche a sala….um coraçãozinho batia a mil, cheio de vida, conseguíamos ver sua coluna vertebral e seu corpinho, seu cérebro, o começo de mãos e pés e segurei o choro…fiquei assombrada com a beleza da vida que estava em formação à todo o vapor dentro do meu corpo. Naquele momento minha gravidez virou a coisa mais importante, a minha obrigação, a minha militância seria fazer o melhor possível para que aquele serzinho tivesse tudo o que fosse necessário para a sua formação e o mais importante, que sua chegada a este mundo fosse a mais natural possível.

Gravidez é uma mudança muito louca, o corpo começa a ter vida própria e isso foi um processo dificil de aceitar, ele estava a serviço da vida e qualquer atitude minha que fosse na contramão disso acarretava em sérias consequências, não descansar, comer mal ou ficar triste, inadmissível! Meu corpo tinha vontade própria que emergia ferozmente ao primeiro sinal de necessidade, acho que lá dentro acontecia mais ou menos assim:
- Ácido fólico!!!! Precisamos de ácido fólico! Mandem a mensagem para o cérebro rápido!!!
- SIM SENHOR!
- Cérebro precisamos de ácido fólico urgente! 
- Entendido, vontade incomensurável de couve e milho ativar.
E nesse dia Carol comeu 4 espigas de milho, couve.
Depois foi o morango, depois frutas (nunca gostei muito de frutas), asco por peixe e assim seguimos por nove meses apenas obedecendo e as vezes contrariando com severas consequências (uma vez tentei comer japonês e passei o dia seguinte na cama)

Ler sobre gestação e maternidade era o que eu fazia, queria entender o processo, era encantador e assombroso pra mim pensar que todos nós passamos por isso, fomos gerados no ventre, nascemos, muitos de cesárea e poucos de parto natural, alias esse é um assunto pra outro texto, pois saber das taxas de nascimento brasileiras me fizeram estremecer. Logo surgiram os primeiros movimentos perceptíveis do lado de fora, lembro da primeira vez que senti a Padma mexendo, estava tranquila quando senti uns pulinhos e paralisei: “Será que esses pulinhos são a Padma?”, pensei, alias desde do começo dentro de mim algo sabia que seria uma Padma, uma mulher que se formava dentro do meu ventre, a lótus que surgiria das entranhas do meu corpo. Nove longos meses se passaram, a barriga crescendo, os movimentos ficando cada vez mais fortes e eu ficando cada vez mais incomodada com a barriga. Ela limitava meus movimentos também, já não conseguia dormir, andar direito, sair do carro, abaixar, me trocar, era uma limitação que tinha a sua serventia porém era dificil de aceitar

O ultimo mês durou a gestação inteira, chegava o ano novo mas não dava 39, 40 semanas, eu não estava ansiosa na verdade, só queria me livrar daquele inchaço incomodo e daquela barriga enorme, o Natal se aproximava e eu conversava tanto com ela: “ Padma nasce antes do Natal minha linda, aqui fora o Natal é uma data marcada, talvez você tenha dificuldade em celebrar seu aniversário, seus amigos vão estar viajando, sua vó faz dia 26 e já acha ruim”. Alias um adendo, Padma veio capricorniana, assim como seu pai e sua avó materna, fecha adendo. No dia 23 começaram cólicas timidas e um sangramento, com medo corremos pro hospital, fiz o exame, um dedo de dilatação só, o residente me tranquilizou, voltamos pra casa, minha mãe já estava aqui, e as 22h começou o processo, as cólicas começaram a ficar mais fortes, chegou a doula em casa um tempo depois, abençoado ser que me massageava a cada contração, mais tarde chegaram as enfermeiras, sim o parto seria domiciliar como todo o parto saudável deveria ser e assim entramos na madrugada, eu com medo, com dor, com a mente batalhando para não ser desligada e nisso o corpo aumentava a dor, a Carol precisava ir para que o corpo pudesse trabalhar, o eu precisava adormecer para o ser surgir e parir o outro ser, que estava lá querendo nascer.

Agachamentos, bola, chuveiro, deita, pega o mala, faz mantra, deita, levanta, agacha, nada da bolsa estourar, mede o colo, falta um dedo pra cabeça descer, volta pra bola, contração, massagem, medo, dor, coragem, faz força, exaustão, nada da bolsa estourar, faz força, xixi, faz força, nada da bolsa, amanhece todos exaustos. Minha mãe entra no quarto: “Quem quer café?”, já eram 6h da manhã, o cheiro do café me enjoa, 7h, 8h desisto:
- Creusa, não aguento mais, preciso de uma posição de descanso
- Senta no colo do Leandro com as pernas abertas Carol.
- Mas assim não consigo fazer força
- Põe a mão la embaixo Carol, a cabeça da Padma já está ai, chama ela.

Preciso fazer força! E foi isso que comecei a fazer e gritava “ Vem Padma!!!”. Muitos gritos, muita força e num ultimo suspiro, ploft, Creusa me mostra aquele serzinho enorme que estava morando dentro de mim no minuto anterior, que comprida que ela era e que cordão curtinho, roxinha, gemendo, pedi que sua vida fosse de beneficio para todos os seres e que ela era muito amada, mas pedi para a Creusa fazê-la chorar pois tinha medo dela não estar respirando. Levaram ela pro closet, deram vacina e ouvi seu choro, que alivio! Leandro diz que ela passou por 3 cores antes de chegar no rosinha e então ela veio mamar, que demais é amamentar um bebê, ela sugava como se sua vida dependesse disso e eu me abria pro leite passar. Nesse dia começou o aprendizado de ser mãe, o trabalho mais mal reconhecido porem o mais importante que existe.

Hoje já faz três meses de Padma, três meses de muito aprendizado, descobertas, feridas, cura e cansaço, ser mãe é um troço muito doido, estar gravida é fichinha perto das mudanças que a maternidade traz, mas isso é outra história….e seguimos.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated maezen’s story.