Mãe!!! O que vou comer? (6–12 meses)

Como o tempo passa…o meu bebé já tem 6 meses, parece que nasceu ontem! Na consulta de controlo com a pediatra ela diz: — “Este bebé já esta pronto para as sopinhas!”

Saímos da consulta e dou conta que estou confusa. Que tipo de sopinhas é que a médica queria dizer? Será que tenho que diminuir a quantidade de leite que ele toma e aumentar os sólidos? Será que posso começar a dar a comida normal que o resto da família come? Já posso dar o leite normal?

Vou à internet e há tanta informação que fico mais confusa: uns dizem para não começar com papinha de fruta senão ele só vai querer comer coisas doces e não vai querer saber dos vegetais. Outro click e vem outro post a dizer que com 6 meses já vou tarde, que o meu bebé devia ter começado a comer sólidos aos 4 meses (a minha mãe conta que foi com essa idade que eu comecei também!). Apanho outro site que diz para fugir de tudo que é papinha de pacote e comida já pronta, apenas dar comida que é feita em casa. Parece-me bem, mas fico a pensar naqueles momentos mais complicados (viagens e tal). Será que comidas já prontas são assim tão más? Outro click surge-me um website a dizer para fugir de papas que tenham trigo. E com cada click a lista de recomendações e instruções fica infinita…

Neste momento em que há tanta informação ao nosso redor, que o excesso de informação acaba dificultando as nossas decisões e torna-nos às vezes mais inseguras. Como mães é importante separar os factos das meias verdades. Neste processo de indecisão decidi ir buscar o que os profissionais dizem. Fui buscar as recomendações de estudos feitos por nutricionistas, pediatras, Organização Mundial da Saúde (OMS) e Departamentos da Saúde para tentar resolver algumas contradições que tenho ouvido. Vamos lá ver o que especialistas respondem:

1. Quando e porque é que o bebé tem que começar os sólidos?

Foi apenas em 2002(3) que se atingiu o consenso mundial que não há nenhum beneficio em introduzir sólidos antes dos 6 meses de vida. As crianças com aleitamento exclusivo até os 6 meses adoecem menos de diarreias, tem menos excesso de peso e não apresentam nenhum défice de crescimento. O aleitamento exclusivo até aos 6 meses reduz também o risco de asma e outras doenças de origem alérgica. Então está claro, sólidos só a partir dos 6 meses.

Depois dos 6 meses entretanto a criança precisa de mais nutrientes que não podem ser fornecidos por leite apenas — falamos especialmente de mais energia, proteínas, ferro, zinco, vitamina A. Com 6 meses também o sistema digestivo da criança terá amadurecido para digerir os novos alimentos e o seu corpo esta mais desenvolvido para mastigar, engolir e excretar os outros alimentos. Depois dos 6 meses a criança realmente precisa de outros alimentos, só leite não chega não.

2. Quando a criança começa nesta nova fase de diversificação alimentar pára de beber o leite que bebia até agora?

O bebé continua o aleitamento que fazia antes, sendo amamentado ou tomando o leite artificial apropriado para a idade. A OMS recomenda a amamentação exclusiva até os 6 meses. Depois da introdução dos novos alimentos deve-se continuar o aleitamento pelo menos até aos dois anos de idade (4). Grande parte da sua fonte de energia vai continuar a ser o leite. O período dos 6 aos 12 meses é quando se vai gradualmente preparar a criança para aos 12 meses já poder comer com o resto da família. Então gradualmente vai-se reduzindo a quantidade de leite que a criança bebe, mas não é o tamanho da dose que diminui, e sim o número de vezes que toma leite no biberāo ou é amamentado.

Os bebés dos 6 aos 12 meses devem ser alimentados em doses pequenas, frequentes. Tendo em conta o tamanho minúsculo dos seus estômagos!

3. Começa a comer o que?

Os novos alimentos recomendados estão muito ligados a cultura de cada família. Mas independente da cultura, a família para ser saudável precisa de ter uma alimentação balanceada. Uma que, sem excessos de fritos, açucares e sal, inclua uma variedade de:

 Frutas e vegetais;

 Cereais, grãos, tubérculos (p.ex. milho, arroz, aveia, trigo, batata, mandioca);

 Leite e outros derivados (p. ex. iogurte, queijo);

 Leguminosas (p. ex. feijão, lentilhas, grão, soja);

 Carne, frango, peixe, ovos e outras fontes de proteínas;

 Bastante água;

Com os seus estômagos pequenos, os bebés comem doses pequenas (1 a 2 colheres de sopa) de alimentos variados, de várias cores, e de fontes nutritivas diferentes. No início da alimentação complementar recomenda-se que os alimentos sejam preparados especialmente para o bebé (3) , sem adição de sal, açúcar/adoçantes/mel, especiarias, e cozidos de modo que possam ser facilmente esmagados com o garfo. Gradualmente vai-se oferecendo com uma textura mais grossa, até aos 12 meses a criança estar confortável em alimentar-se com o resto da família.

Os novos alimentos devem ser introduzidos gradualmente, um de cada vez, a cada 3 a 7 dias(3). Não desista se a criança não aceitar à primeira. Em média a criança precisa de estar exposta um novo alimento de 8 a 10 vezes para que o aceite bem(3). Se o bebé se nega a comer, tente outra vez no dia seguinte. Confirme se ele está sentado confortavelmente e esteja sempre perto dele, inclua-o nas refeições familiares.

O objectivo é selecionar alimentos que forneçam os nutrientes que a criança precisa (principalmente ferro, zinco e vitamina A) e evitar aqueles que o seu sistema digestivo ainda não consegue digerir ou que afectam a absorção de outros nutrientes essenciais.

Atenção, nunca dar alimentos novos na mesma semana, para ser possível a identificação de qualquer alergia ou intolerância alimentar (1), (2), (3),(4), e atenção aos alimentos que são muito duros ou com pedaços que facilmente fiquem presos na garganta do bebé, sob o risco de asfixia.

Com a nova alimentação as cores, cheiro, a textura das fezes vão sofrer alterações isto é normal e é de se esperar.

4. Que quantidade?

Nas primeiras semanas ofereça pequenas quantidades do puré, meia colher de chá depois de o ter amamentado (6). Consoante o apetite e interesse do bebé vai aumentando gradualmente para uma ou duas colheres de sopa/papa preparada, por porção. Mas lembre-se que o tamanho do estômago deste anjo são super pequenos. Nos meses seguintes mantenha a porção de duas colheres de sopa por dose, e vá aumentando consoante o apetite da criança.

5. Começar com frutas ou legumes?

Os bebés nos primeiros 6 meses de vida são alimentados através de um aleitamento exclusivo. Quer sejam amamentados a peito ou com leite artificial, os dois leites são essencialmente adocicados. Segundo a literatura investigada começar a dar fruta ou legumes como a primeira refeição sólida, não vai mudar essa predisposição para aceitar melhor alimentos adocicados (6). O principal é dar uma alimentação variada e balanceada, de várias cores e de várias fontes.

Um ponto interessante é que os bebés amamentados deste pequenos, que estão habituados às variações dos sabores do leite da mãe, parecem aceitar mais facilmente novos alimentos, comparado com bebés que sempre tomaram leite artificial.

6. Cereais/ papas infantis — bom ou mau?

Nos dias de hoje é comum o uso de papas de pacote — farinhas de cereais/grãos — como Cerelac, Nestum e outras. Muitos pais adicionam aos biberāo até, ou fazem mais grossa e dão à colher. Mas, mais e mais pais questionam-se se estas são mesmo necessárias. Será que é mesmo necessário a papa de pacote?

Há várias críticas sobre estas farinhas de cereais infantis, desde o nível elevado de açúcar e de sal, aos conservantes e corantes adicionados. Entretanto estes continuam a ser promovidos principalmente, pelo ferro que é adicionado às farinhas, mas este não é facilmente absorvido pelo corpo. A carne, frango e peixe contêm ferro que é muito melhor absorvido que o tipo de ferro adicionado aos cereais. Então servir papinhas de compra aos bebés é algo mais baseado em tradição e cultura, do que em evidência científica.

Então se o bebé tem 1–2 doses de carne/frango/peixe por dia, em adição a outras fontes de ferro não animal, não há necessidade de suplementar a alimentação do bebé com papas de compra. Pode fazer as suas papas em casa, de milho, arroz ou de aveia, onde não é necessário adicionar açúcar nem sal. Se quiser adoçar pode adicionar fruta (banana, maça, pera etc) esmagada.

Como há cada vez mais bebés com sensibilidade ao trigo, e outros cereais com glúten, recomenda-se que as primeiras papas sejam sem trigo, centeio e outros grãos sem glúten.

7. Comidas de frasco, “gergeber”, etc — bom ou mau?(6)

As comidas comerciais valem bastante pela conveniência que oferecem. Entretanto muitas podem ter conservantes, sal e açúcar extras desnecessários e irritantes para o sistema digestivo dos bebés. Encontra-se entretanto no mercado produtos que não têm conservantes, nem sal e açúcar adicionado. Estas sim podem ser usadas esporadicamente quando em viagem ou eventos extraordinários. (6)

O uso regular destes entretanto não é encorajado dado que pode levar a que o bebe tenha dificuldade em aceitar novos sabores e texturas e poderá atrasar a capacidade de mastigar(6). Comida caseira oferece mais sabores e texturas e é mais barata que a comida pronta de compra.

8. Como preparar as sopas?

Em cada prato confirme que tenha alimentos de diferentes cores, algo laranja, algo verde, algo castanho (proteína), algo branco.

Para facilitar a gestão cozinhe com antecedência uma quantidade das comidas do seu bebe, faça no fim de semana 3 pratos por exemplo, e reparta por dose /refeição. Congele, em covetes, ou em tigelas plásticas pequenas. Descongele a dose necessária por refeição, aqueça de preferência em banho maria. (Há que ter muito cuidado com o uso do microondas porque podem aquecer a comida de maneira não uniforme). Teste sempre a temperatura antes de dar ao seu bebé.

9. Precisam de suplementos vitaminares ou outros?(1)

Não ofereça suplementos vitamínicos sem a recomendação médica. Um bebé que nasceu saudável, amamenta-se de uma mãe com alimentação balanceada, ou tem acesso a um leite para a sua idade preparado como instruído pelo fabricante, e recebe uma alimentação complementar balanceada não deveria necessitar de suplemente vitamínicos (1).

10. Como vou mudando o menu consoante o seu crescimento dele?

Ficam aqui alguns exemplos que lhe podem ajudar a preparar um menu para o crescimento ao longo dos meses:

Entre as refeições a única bebida que o bebé precisa é de água. Bebidas de compra como refrescos, sumos, chá preto, café, bebidas açucaradas entre outros só são fontes de açúcar, que destroem os dentes, o apetite, e a saúde dos nos pequenos.

Reescrevendo o que o Pediatra Mário Cordeiro (1) diz: para que tudo corra bem nesta nova fase é sempre bom seguir uma receita que tenha aproximadamente:

200 gramas de bom senso
200 gramas de calma
Conselhos do médico ou de alguém experiente — um naco pequeno
Ausência de qualquer pitada de ansiedade
100 gramas de divertimento
Alegria q.b.
Flexibilidade — um pacotinho
Determinação — nas mesmas quantidades que o ingrediente anterior
Afecto — q.b.

Ficamos por aqui agora, noutros artigos falaremos em mais detalhe de várias receitas para as refeições aqui sugeridas.

Abraço grande,

Marina Barros

Referências:

1) CORDEIRO, Mário. O Grande Livro do Bebé: O Primeiro Ano de Vida. 2ª Edição. Portugal: A Espera dos Livros, 2007.

2) DEPARTMENT OF HEALTH, South Africa. Infant and Young Child Feeding Policy. South Africa, 2013.

3) MONTE, C; GIUGLIANI, E. Recomendações para Alimentação Complementar da Criança em Aleitamento Materno. Jornal de Pediatria. Sociedade Brasileira de Pediatria, 2004.

4) Du PLESSIS, Lissane: Complementary feeding: a critical window of opportunity from six months onwards. Paediatric Food-Based Dietary Guidelines for South Africa. South African Journal of Clinical Nutrition 2013; 26 (3) ( Supplement): S129-S140

5) Rolfes, SR., Pinna, K & Whitney, E. Understanding normal and clinical nutrition. 10th edition — international edition, 2013. Mason, OH: Wadsworth, Cengage Learning

6) Government of Western Australia, Department of Health. Baby’s first foods: The right start….a guide to the best foods for your baby. Produced by Child and Adolescent Health Service 2011, revised June 2014

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