
doente
Pareço um doente desgraçado.
Talvez eu seja.
Pelo menos é o que me disseram
(ou o que eu disse para mim)
Estou tomado por uma série de dores no coração
Causada por algo que nunca aconteceu
A certeza que o futuro do pretérito me proporciona
Me deixa em coma
Respirando pelos aparelhos do pensamento
E do remorso do jamais-ocorrido
Tentam me medicar
Com um pouco de realidade
Dissolvido no presente do indicativo
Mas não é suficiente para diminuir
O ritmo frenético de meu arrependimento
De algo que poderia ter acontecido
Manifesta-se em mim
O sintoma do “e se…”
E se considerassem tolice
Eu poderia até morrer
De tanto conjugar o verbo ser
No pretérito do subjuntivo
Chegam a conclusão que tive uma overdose de pensamento
E me receitam dois comprimidos para te esquecer
E mais um caso eu considere
Pensar no passado de um futuro inexistente
Mas a doença é crônica
E disso não posso me curar
Pois estarei sempre a pensar
E enquanto eu viver, a cogitar
O que eu poderia ter feito antes
Para agora estar curado
