poeira estelar.

maria fernanda.
Jul 30, 2017 · 4 min read

dizem que as poeiras estelares são geradas após colisões, rastros deixados por asteroides, cometas ou alguma outra coisa que componha a via láctea. te observei de longe em meio a uma multidão de pessoas que dançavam como se não houvesse amanhã. tu era uma delas. e eu sei que tu sentia como se o amanhã realmente não existisse. então no meio de tantos eu’s, eu te vi no teu eu mulher-dona-de-si-impenetrável. o batom vermelho destacava teu sorriso sacana enquanto os quadris se movimentavam como se tu fizesse aquilo todos os dias. eu vi teus cabelos pretos de quem acabou de sair de um comercial de shampoo balançando junto ao teu corpo enquanto as luzes vermelhas, azuis, verdes e roxas te rodeavam. meus olhos passaram por cada pedaço do teu corpo mulher-dona-de-mim-mesma. como dizia machado de assis em uma de suas estórias, tu tinha olhos de cigana, oblíquos e dissimulados. tua boca vermelha quebrava minha tentativa de raciocínio. tuas pernas trancafiadas numa calça clara te deixavam tirando o ar de qualquer pessoa que colocasse os olhos em ti. tua mão segurando a garrafa de cerveja enquanto dançava fazia eu me perder e pedir, internamente, tuas mãos em cada pedacinho do meu eu-tão-perdido-em-você. meus olhos encontraram teu pulso tatuado. meu corpo estremeceu em vontade de beijar ele. e todo o resto. eu, que era uma mulher-perdida-e-camuflada no meio de tantas pessoas, me obriguei a aparecer na sua frente. tua risada sacana demonstrava o quanto tu decifrava o que meus olhos gritavam ao te olhar. tu me puxou pela mão, contornou a multidão de pessoas, encostou-se numa parede qualquer. me pôs na sua frente. e então eu não posso dizer exatamente o que aconteceu porque eu. me. p e r d i.
voei.
não sei pra onde.
minhas mãos foram pra tua cintura, as tuas estavam na minha nuca e meu-eu-se-perdeu quando minha boca encostou na tua. sem controle meu e teu. nos colidimos. virei poeira estelar em forma humana. não posso escrever sobre o que aconteceu segundos, horas, dias, semanas ou meses depois. eu não tenho certeza, são só sensações. só lembro do meu corpo estremecer com teus beijos. de sentir minhas pálpebras fechadas e mesmo assim conseguir ver cores. estrelas. flores. tudo isso quando senti tua boca beijar meu corpo. teus dedos entrarem em mim. tu fodeu. fodeu meu corpo. minha alma. meu ser-tão-de-ninguém se tornou meu eu-tão-seu. eu lembro da sensação extasiante ao sentir tua mão me puxando quando te toquei inteira. quando teu corpo mulher-tão-dona-de-si estremeceu aos meus toques. nós colidimos novamente. eu me recordo das sensações. como a sensação do meu peito inflando quando meus olhos percorreram todo o teu corpo de quem acaba com o raciocínio de qualquer um. acabou com o meu. como a sensação de tremer de dentro pra fora só por te ver depois de duas ou três semanas. como a sensação de sorrir automaticamente só por te escutar contando uma história que te faz sorrir. rir. e teus olhos brilham. tu se entrega num momento só teu. e meu peito chora de felicidade por presenciar aquilo. teu olhar de cigana que tomou conta de mim. teu eu tão não-sei-ser-de-alguém me amedrontou. teu eu tão eu-posso-tentar-ser-tua-um-dia me felicitou. no meu íntimo, ao colidir com teu ser pela vigésima vez, eu pedi que tu fosse tua-mas-minha-e-de-ninguém. eu lembro de sensações. como a de aprender a amadurecer a liberdade de estar com alguém. eu sempre te vi como uma pessoa que merece ser liberta. e acho que tu merece. ser liberta de medos, inseguranças ou qualquer coisa que aprisione o teu eu-tão-bonito que tu não conhece, mas existe. teu eu-tão-bonito que revive todo dia quando tu abre os olhos e teu suspiro sai pesado ao pensar que é mais um dia que se tem que viver. mal sabe você que tem pessoas que suspiram com o peito leve ao pensar ainda-bem-que-ela-vive. se eu virei poeira estelar ao me colidir contigo, eu sei que tu é poesia desde antes do meu eu-tão-louco aparecer na tua vida. eu sei que teu eu-tão-sem-certeza é cheio de versos confusos e que tu emana poesia. eu me poetizo por você. pra você. eu tão nunca-vou-mudar-por-nada me vejo tentando ser alguém melhor. não pra você. mas porque você me mostrou que nós precisamos nos libertar de certas coisas. e eu me liberto do meu eu-tão-desaprendido-de-ser-eu. meu eu-tão-levo-as-coisas-muito-a-sério. meu eu-tão-pesado-e-preso-em-mim-mesmo. se eu virei poeira estelar ao colidir com você, sei que tu é um universo inteiro preso num corpo de alguém. mamãe uma vez me disse que nada é pra sempre.. que seja. não importa por quanto tempo essa colisão-sem-ser-prisão acontecer, eu sei que no fim, meu eu-tão-meu-mas-perdido-em-ti vai ser eternamente grato por ter virado poeira estelar pelas tuas mãos. enquanto não acaba, que meu-eu-tão-louco se perca na tua boca de quem-quer-me-beijar-inteira, nas tuas mãos que me desenham. que meu eu-tão-fora-de-mim se afogue no teu corpo e que eu me perca no teu olhar de um eu-tão-indecifrável. e que minhas mãos te decifrem. que minha boca te sinta, te beije, te sugue, te beba. que eu me afogue no teu eu-tão-dona-de-si. que meu olhar te faça sentir-se contemplada. que teu universo-tão-bonito-e-confuso continue colidindo com meu-eu-tão-louco-e-certo-as-vezes. espero continuar colidindo com você. vou continuar virando poeira estelar nas tuas mãos.

    maria fernanda.

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    estudante de jornalismo, pisciana, 18 anos. 🌹