Escreva como você fala

(Tradução livre do texto de Paul Graham: “Write like you talk”.)

Existe um truque simples para que as pessoas leiam seu texto: escreva em linguagem falada.

Quando as pessoas escrevem, elas usam uma linguagem diferente do que se estivessem falando com amigos. A estrutura das frases e até as palavras são diferentes. Dificilmente alguém fala “ocorreu um fato extraordinário” ou “conheci um local ótimo” numa conversa. Mas as pessoas escrevem livros inteiros assim.

Ok, as linguagens falada e escrita são diferentes. Mas a escrita é pior?

Se você quer que as pessoas leiam e entendam o que você escreve, sim. A linguagem escrita — como as pessoas acham que tem que ser — é complexa, o que dá mais trabalho para ler. Também é mais formal e distante, o que dá permissão para a pessoa desviar a atenção. Mas, pior ainda, as frases complexas e rebuscadas dão a você, que escreveu, a falsa impressão de que você está dizendo mais do que na verdade está.

Você não precisa de frases complexas para expressar ideias complexas. Quando especialistas em algum assunto obscuro falam uns com os outros sobre ideias no seu campo de estudo, eles não usam sentenças mais complexas do que se estivessem falando do almoço. Eles usam palavras diferentes, claro. Mas mesmo estas não são usadas mais do que o necessário. E na minha experiência, quanto mais difícil o assunto, mais informalmente os especialistas conversam. Em parte, acho, porque eles têm menos a provar, e em parte porque quanto mais difíceis as ideias, menos você pode arriscar se atrapalhar com a linguagem.

A linguagem informal é a roupa de ginástica das ideias.

Eu não estou dizendo que a linguagem falada sempre funciona melhor. Poesia é tão música quanto texto, então você pode dizer coisas que você não diria numa conversa. E há alguns escritores que podem usar linguagem sofisticada em prosa. E claro que há casos em que os escritores não querem que seja fácil entender o que eles estão dizendo — em anúncios de más notícias corporativas, por exemplo, ou em caso de charlatanismo. Mas para quase todo o resto das pessoas, a linguagem falada é melhor.

Parece ser difícil para a maioria das pessoas escrever em linguagem falada. Então, talvez a melhor solução seja escrever o seu primeiro rascunho da maneira que você normalmente faria e, em seguida, olhar para cada frase e perguntar: “é assim que eu diria isso se eu estivesse conversando com um amigo?” Se não for, imagine o que você diria, e substitua. Depois de um tempo, este filtro começará a operar à medida que você escreve. Quando você escrever algo que você não diria, você vai ouvir como ficou quadrado.

Antes de publicar um novo ensaio, eu leio em voz alta e corrijo tudo o que não soa como conversa. Eu até corrijo trechos que ficaram foneticamente estranhos, não sei se precisa, mas não custa nada.

Esse truque nem sempre é suficiente. Já vi textos tão distantes da linguagem falada que não poderiam ser corrigidos frase a frase. Para casos como esses há uma solução mais drástica. Depois de escrever o primeiro rascunho, tente explicar a um amigo o que você acabou de escrever. Em seguida, substitua tudo com o que você falou para o amigo.

As pessoas muitas vezes me dizem o quanto meus ensaios soam como eu falando. O fato de que isso parece digno de comentário mostra como raramente as pessoas conseguem escrever na língua falada. Caso contrário, a escrita de todos soaria como eles falando.

Se você simplesmente conseguir escrever em linguagem falada, você estará à frente de 95% dos escritores. E é tão fácil de fazer: apenas não deixe uma frase passar, a menos que seja a maneira como você falaria com um amigo.

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