Sob os desígnios de Narciso

Narcissus, Caravaggio

Filho do deus do rio Céfiso e da ninfa Liríope, Narciso nasceu com uma beleza incomum. Preocupada com a beleza da criança, que não deveria ser igual nem maior que a beleza dos deuses, sua mãe consulta o vidente Tirésias para saber qual seria o destino do filho.

— Ele terá uma longa vida, respondeu o oráculo. — Mas só se nunca olhar a própria face.

Quando adulto, moças, rapazes, homens, mulheres e ninfas eram apaixonados por Narciso. No entanto, o jovem não se interessava por ninguém. Vivia fechado em si mesmo, inconsciente de sua identidade e do poder de sua beleza.

Em um dia quente, depois de uma caçada, debruça-se à beira do lago para matar a sede. Neste instante, ao olhar-se no espelho d’água, apaixona-se morbidamente pela imagem, sem consciência de que era a sua própria face que contemplava. Narciso, então, permaneceu imóvel em admiração ininterrupta e absoluta daquela beleza singular. Por dias e dias. Debilitado, morreu. E seu corpo se desfaz, desaparece na beira do lago.

Toda a vez que evoco as imagens desse mito, várias coisas vêm ao pensamento. O pesquisador da comunicação, Muniz Sodré, em seu livro A máquina de Narciso (1984), nos delicia com a verdade nua e crua de que todos nós somos narcisos, criados e deslumbrados por nos ver na tela da televisão — a tal máquina do título. Podemos estender tais conceitos para as atuais mídias, em especial, as sociais presentes na internet. Hoje, estamos cercados de outras telas, além das de TV e cinema. Como o personagem mítico, absortos em nossas superfícies líquidas de telas, vivemos a olhar — deslumbrados, seduzidos, encantados — outros semelhantes, duplos de nós, reflexos, fantasmagorias, máscaras que conosco interagem por computadores e celulares.

Buscamos grupos nas redes, nos aplicativos, nas mídias sociais, gente como a gente, com os mesmos interesses, comportamentos, olhares a respeito do mundo. Buscamos uma cara-metade, modelos, formas de ser e estar em sociedade. E, assim, seguimos nossas vidas de narcisos ensimesmados. Tal qual o personagem do mito, quando descobre o outro (a representação, a cópia do seu Eu) ao qual dá mais sentido, mais importância que o original, passamos a tratar a realidade como Narciso trata a si. Na lógica narcísica, a experiência original, real, as memórias que guardamos da vida, pouco importam. Sua foto, sua cópia, o espaço que a memória do aparato possui é que importam. O original sempre é vulgar para Narciso. O que não é espelho lhe parece feio. “Selfie, logo existo” é a pulsão de um imaginário sem imagens viscerais.

Nos consultórios à espera do médico, nas filas, no trânsito, nas calçadas, na cama, nos funerais, bares, hospitais, nos metrôs, nas redes sociais. Os olhos não despregam das telas dos dispositivos. Corpos que desejam ser imagens, anônimos que desejam os quinze minutos de fama. Eu posso. Eu desejo. Eu quero. Meu destino. Minhas regras. O historiador americano Christopher Lasch, autor do livro A cultura do narcisismo (1979), explica que a evolução social no século XX — após a Segunda Guerra Mundial e com a ascensão da cultura do consumo nas décadas seguintes — produziu sujeitos com personalidades de bases narcísicas. A fragilidade dos compromissos, a fuga de todo tipo de relação duradoura, o medo do envelhecimento e o culto à fama e às celebridades midiáticas são sintomas de uma cultura narcisista. Narcotizada por si mesma?

Ali, na beira do lago, depois que o corpo de Narciso se decompõe, surge uma flor, também chamada narciso, de grande beleza, cujos frutos se extrai sementes das quais se produz um narcótico. Não deve ser à toa que o radical da palavra narcótico seja o mesmo do nome do personagem mítico, Narciso. Referência ao efeito “narcotizante” de toda beleza. A cada dois séculos, segundo o antropólogo francês Gilbert Durand, a humanidade vive sob os desígnios de um determinado mito, o mito da vez é o do ensimesmado Narciso. Na ancestralidade, os mitos eram vividos, sentidos e compreendidos como uma verdade absoluta, mas hoje incorporamos tão bem o papel do jovem personagem.

Muito tempo depois da morte do belo rapaz, as ninfas encontram o lago chorando:

— Por que choras? Ainda sentes saudades de Narciso?

— Choro porque no brilho dos olhos dele eu via o lago mais lindo e profundo que já vi em toda minha existência.


H. Z. Wendell > sobre o autor

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