ACABOU CHORARE

Para as organizações, momentos de grandes derrotas podem trazer um período de imensa desordem. Após uma derrota, é impreterível que as organizações compreendam as razões que levaram à derrocada, sob pena de perderem o momento histórico da reação e permanecerem atordoadas com o seu efeito. No entanto, avaliar um acontecimento histórico ainda em andamento não é das tarefas mais fáceis, mas, sem dúvida, é uma exigência da luta política para os que querem intervir no processo histórico e disputar realmente a sociedade.

Começo esse texto com um parágrafo óbvio para ressaltar a importância de levar a sério a tarefa de avaliar o momento político atual e a estratégia política do campo da esquerda que parece ter sido derrotada após o golpe para que seja possível realizar um denso balanço sobre esse período. Por isso, não é sensato que caíamos em abstrações que realizam uma romantização da política ao exigirmos que nossas táticas estejam submetidas à lógica normativa principiológica. A política está longe de ser aquele espaço dominado por diabretes que aguarda a ação redentora de um grupo de iluminados. Por isso, a ação política não é a materialização de princípios, mas um ato estratégico.

Tendo isso como pressuposto, passemos para o que de fato nos interessa. Tem crescido em parcela do Partido dos Trabalhadores e do campo popular uma avaliação preocupante sobre o período do ciclo petista que culminou com o golpe de 2016. De fato, essa noção equivocada vem sendo mais expressiva em setores do Partido dos Trabalhadores e tem conseguido se apresentar como uma tese realmente consolidada: a de que o maior equívoco do ciclo petista foi a escolha dos aliados. Esse quase devaneio aparece feito um mantra em qualquer encontro petista. Basta aquela fala repetida em quase todo encontro em que o presidente Lula é chamado para discursar, algo que diz mais ou menos assim: “pode ser que tenhamos cometidos erros. Mas não tenho certeza qual foi.” Eis a frase mágica que desperta no âmago de parcela da militância petista aquele sentimento que parece uma profunda tristeza com a traição; que faz brotar aquela vontade de esfregar na cara da maior liderança política da América Latina algo que parece um “nós avisamos”. Dessa furacão de sentimentos, surge aquele grito maroto que parece dizer absolutamente tudo: “FORAM AS ALIANÇAS.”

Pronto. Resolvido o problema. Podemos todos voltar pra casa e esperar 2018 para resolvermos o problema do golpe com uma chapa puro sangue. Todo o problema da estratégia da esquerda dos últimos anos se sintetiza, para esses setores, na escolha dos seus aliados. Ora, não é de se estranhar que cause certa tristeza assistir a vídeos de campanha de Dilma e Lula, e ver um Garotinho, um Sarney, ou um Michel Temer sorrindo alegremente cantando jingles. No entanto, é preciso maturidade para levar a sério a política e para agir estrategicamente na luta de classes. Para esses setores é preciso dizer mais uma vez o óbvio: não haveria a redução da pobreza, a expansão do ensino universitário, a criação do Mais Médicos, e tantos outros feitos do governo petista sem as tais alianças.

Há um problema absurdo nessa tese que rebaixa a política a um campo de ação dos desejos: a abominação das alianças. Seria, já em abstrato, uma tremenda tagarelice de quem amargurou uma derrota e uma traição na base do campo “aliado”. Mas, se levarmos as situações concretas do Brasil e das experiências revolucionárias que aconteceram na história, essa noção equivocada do significado e das consequências do ciclo petista se transforma em conto que só tende a infantilizar a ação política. A revolução cubana, por exemplo, contou em seu início com uma aliança forte de setores da burguesia interna (ou nacional, para quem é de burguesia nacional), o que motivou Fidel Castro a ocultar ao máximo a radicalidade e a natureza socialista da revolução em curso.

Mais: não é aconselhável confundir a popularidade do presidente Lula com a filiação a um projeto socialista. Dessa forma, nunca houve qualquer indício de que os setores populares tivessem força própria para tocar um processo de grande transformação por conta própria. Retrato disso foi a composição do Congresso Nacional no auge do ciclo PT. Ora, bradar contra a política de aliança é querer transformar a política no campo de ação dos desejos. É querer que a história funcione com a lógica dos mais íntimos devaneios do esquerdismo principiológico.

No entanto, é indiscutível que algo deu errado na política de aliança petista. Afinal, como podem os próprios aliados terem articulado uma tática de assumir a presidência no tapetão? Como é possível que tenha sido uma política acertada se possibilitou a criação de uma estratagema para isolar as forças e as organizações populares e de esquerda? Nesse cenário, a resposta mais fácil é gritar: “não deveriam ter se aliado com eles.” Assim, não se faz autocrítica nem a crítica dos elementos mais profundos da ação política do ciclo que se pôs em crise após o golpe de Estado. Quase um simplório: “Pronto, Tesouro. Não se misture com essa gentalha.”

A questão crítica das alianças do PT esteve muito menos em com quem se aliar e muito mais em por qual razão e o que significam essas alianças. Aqui reside um erro fatal do ciclo PT. Aliança não torna o outro igual. Por isso, fazer aliança não transforma o outro, que tem alguns interesses em comum e vários outros distintos, em companheiros de luta. Isso não pareceu tão claro para os principais agentes do ciclo PT (mas foi absolutamente claro para a lumpen-burguesia do PMDB e partidos nanicos que descartou o PT sem nem pestanejar quando assim precisou para assegurar a sua sobrevivência).

Mas, o mais grave, aliança tem um caráter instrumental na luta de classes. Não se faz aliança apenas para juntar um grupo de gente em torno de uma ação. É preciso ter intencionalidade na escolha dos aliados. Sem dúvidas, os principais agentes do ciclo PT teve sim intencionalidade, o problema esteve em qual. No horizonte da esquerda no ciclo PT se eclipsou a disputa pelo poder.

A aliança se transformou em um meio para garantir a próxima eleição. Nesse contexto, não há necessidade de hegemonizar a aliança, o que interessa é que ela ocorra para garantir a maior quantidade de eleitores de dois em dois anos. Frente a isso, se tornou desnecessário minar a influência do PMDB no Congresso Nacional, se esvaiu a importância de fortalecer experiências de disputa de hegemonia na sociedade que permitissem às organizações populares criarem força própria (como exemplo disso serve a negativa da proposta de Frei Betto para o Fome Zero). Essa noção levou a Presidenta eleita vacilar sobre o tema da constituinte exclusiva para a reforma do sistema político com o mais singelo movimento da base aliada no governo; essa estratégia bienal permitiu que, no auge da crise político-econômica, Dilma Rousseff, contrariando o programa com o qual foi eleita, optasse pelas reformas que agradariam o capital financeiro.

Portanto, o problema do ciclo PT, nunca foi a escolha das alianças, mas sim a sua estratégia. É essa a grande questão que deve preocupar a militância que intenta de fato forjar um ciclo mais favorável para o povo brasileiro e para a esquerda. Demonizar as alianças só nos isolará ainda mais na política nacional e fará com que só possamos criar um projeto sem pernas próprias. Nesse contexto, nos interessa refletir sobre a estratégia do ciclo PT, fazer um balanço daquilo que deu certo e do que deu errado e, principalmente, formular um projeto que de fato dispute a hegemonia social no Brasil. Sem isso, continuaremos gritando palavras de ordem negativas que nos transformarão em meros expectadores da política nacional. Dizem que a canção dos Novos Baianos foi composta inspirada na reação da Bebel Gilberto a uma picada de abelha. Após chorar por algum tempo, com a dificuldade de falar português de uma criança crescida em terras estrangeiras, no auge de sua maturidade resolveu parar de chorar com um “Acabou chorare”. Pra cumprir nossa tarefa, é preciso essa maturidade e dizer em alto e bom som: acabou chorare.