Um navio chamado trademarketing.

“Estamos na era H2H”

Ontem fui em uma palestra sobre inovação e ouvi pela primeira vez o termo “H2H” (não é uma composição química de Hidrogênio). Na verdade essa é a nova sigla do momento que significa Human to Human, ou a nova forma de se fazer negócios e se relacionar. Dentre as centenas informações passadas em 90 minutos, muitas conflitavam entre si e outras faziam pleno sentido.

O palestrante que oferecia esse coquetel de dados misturados a GIF’s engraçados, era um renomado professor com experiência internacional que se auto intitula “um apaixonado pela inovação e tecnologia”.

Estamos em uma era de revolução dos valores, e segundo ele até 2020 serão 55% dos empregos destinados aos robôs, logo haverá um famigerado cenário digno de filme de ficção científica, onde o desemprego tecnológico fará surgir centenas de favelas analógicas, de pessoas desconectadas e ou sem “conhecimento”.

Alias, andam gastando demais essa palavra, depois volto ao ponto do conhecimento e da informação nisso tudo, mas antes falemos das siglas.

Eu ouvi pela primeira vez o termo B2B há uns dois anos, nesses meios mais tecnológicos rola muito dessas palavrinhas em “americano” como diria meu pai. Você vai no prospect, saber sobre o job, ouvir o briefing, criar um layout, ficar esperto com o deadline e e no fim dessa aula de inglês a resposta vem sempre em bom e velho português. Descobri que B2B era na verdade “Business to Business” ou empresa para empresa, e que agora não é mais essa a pegada do trademarketing, agora a moda no hypismo corportativo de consumo é “Humanos falando com Humanos”.

Até aí tudo bem, eu sou sempre aquela que pensa nas pessoas acima de tudo, pessoas acima das metas, pessoas acima da empresa, pessoas acima da crise e nas pessoas acima da GRANA. Mas talvez meu chefe e tantos outros “businessman” não tenham essa visão. Por isso, quase como um cometa, surge de vez em quanto um guru tecnológico que lança uma tendência: — Olha galera, agora o certo é deixar o B2B de lado e ir com tudo para o H2H. — Como se fosse (comparando ao universo da moda) quem é o novo preto da vez. Nisso os empresários já começam a surtar, porque todo mundo quer ser expert em algo que acabou de ouvir falar. Parece que é feio nesse mundo corporativo você dizer sonoramente para alguém “EU NÃO SEI” ou “NÃO CONHEÇO” é praticamente assinar um atestado de incompetência. Isso faz surgir o efeito colateral das tendências mercadológicas: os best sellers!!! Livros do tipo “Como fazer um H2H de sucesso”, “149 passos para aplicar o H2H na sua empresa”, “Quem mexeu no H2H”, viram a bíblia do empreendedor comum rumo a iluminação hype.

O palestrante tentou fazer uma imersão do que seria ser mais humanos para humanos, mostrou dois documentários que gosto muito: Eu Maior e Tarja Branca, ambos nacionais. E falou muitas coisas bonitas sobre espiritualidade, citando deus em vários momentos e como o NÓS deve ser maior que o EU, no sentido do coletivo empoderar-se através do individualismo.

Taí minha primeira fase de indagação. Estamos todos conectados e nunca tivemos tanto para compartilhar, mas essa conexão ao mesmo tempo que nos une, também nos dispersa, como estamos todos conectados e dispersos? Em quê ou quem estamos realmente conectados? Essa dispersão me afasta dos outros ou estamos conectados em nossa distração?

Outra frase que me marcou foi “hoje o importante não é mais só ser bilionário, mas se você impacta um bilhão de pessoas”. Em outras palavras, a relevância, a popularidade, passam a ser mais importantes que quanto você tem na conta, porque proporcionalmente sua conta aumenta na medida de seguidores que você tem.

Talvez Jesus Cristo tenha sido o primeiro a revolucionar nesse quesito. Pobre, ele não tinha muita coisa, mas tinha um conteúdo relevante, era popular entre os seus e tinha (pasme) 12 seguidores, que naquela época chamavam discípulos.

Mas talvez o mesmo Jesus não concordasse com o discurso da “era dos humanos”, quando começa o papo elitista fazendo com que nos parabenizássemos ainda no começo da palestra, por ser os 0,3% da população brasileira que tem MBA. Na real, eu sentiria vergonha de falar isso em voz alta, como alguém que está preparando um material baseado em humanos falando com humanos acha algo notável ser os 0,3% da população que teve acesso ao ensino superior? E outra, nem MBA eu tenho, então “I don’t belong here” certo?

Fora esse papo pra vender curso, teve o momento ZARA. Dentre as várias informações sobre soluções criativas para expandir negócios com inovações radicais, o mocinho teve a ideia de citar um navio que ia da China até o Brasil e nesse percurso ele “produzia” as peças de roupa de forma inovadora. Nas palavras dele “essa solução ainda reduzia os impostos”, pois em alto-mar ninguém é de ninguém. Diga isso aos direitos trabalhistas de centenas de chineses que vivem em condições análogas ao trabalho escravo. Esse “navio negreiro” moderno não transportava mais escravos negros, agora o novo navio transportava chineses, tailandeses e outros povos, vítimas de soluções inovadoras que visam somente reduzir custos com mão de obra e aumentar os lucros, humanos para humanos ou humanos com dinheiro para humanos com dinheiro?

Tailandeses vítimas de trabalho escravo no Mar do Sul da China.

Esse papo de H2H é muito bonito para um discurso desses, motivacional, você sai de lá querendo ser o próximo Bill Gates, quer ter um robô, comprar um Google Glass. No final da palestra dava pra ver o brilho nos olhos das pessoas, inclusive eu, contagiada por muitas coisas que ele disse. Entretanto a gente sabe que bem que existe quem promove programa social e tem quem faça social promovendo programa. Nem tudo que ele disse parecia ser sincero, era mais pra dar aquele “tchan” nos patrocinadores do evento, sair com aquele gostinho de vamos mudar o mundo.

De um modo geral, fico ansiosa para que realmente essa seja a era dos valores humanos e que de repente a gente entenda de uma só vez que somos todos uma merda só, perante o universo somos insignificantes e deveríamos ter uma estadia aqui na Terra bem mais harmônica. Todavia do ponto de vista do mercado, vejo que essa coisa de H2H é só mais uma forma de explorar uma ideologia bonita para obter mais lucros, mesmo quando o palestrante afirma ser o “fim do capitalismo como conhecemos”, no fundo não mudou minha concepção de que enquanto houverem pessoas sempre haverá aquele desejo louco por poder, tá no DNA humano isso desde sempre.

Na palestra a palavra “conhecimento” foi inúmeras vezes pronunciada como bem de consumo dando essa vaga noção que se compramos um curso adquirimos consequentemente conhecimento. Sabemos (eu, você e Aristóteles) que na verdade conhecimento é uma ciência que se baseia na experiência. No iluminismo por exemplo, temos a razão como referência ao conhecimento e na idade contemporânea vivemos a crise da razão, onde estabelecemos alguns padrões para o conhecimento.

Tudo que foi dito na palestra não era sobre conhecimento, era sobre informação e oportunidade. É sobre como temos acesso a uma informação privilegiada, um certificado, uma posição quando dispomos do poder de compra. O viés era bonito, vinha carregado de sonhos, garra, determinação pertencente aos vencedores, trazia a expectativa de como a vida será maravilhosa quando a tecnologia estiver avançada, mais e mais. A palestra falava de oportunidades que surgirão para aqueles que já tiveram oportunidades, um maravilhoso mundo novo que surgirá para poucos com bitcoins para gozar das benfeitorias tecnológicas.

Então, meus amigos, mesmo quem bebe dessa fonte encantadora que é a tecnologia e as novas formas de se fazer negócios, seja B2B, C2C, H2H, todas elas seriam facilmente trocadas por uma tarde calorosa trocando uma ideia, humano para humano, com o Sócrates e nem sou eu quem disse isso, o próprio pai da Apple, Steve Jobs, afirmou categoricamente que trocaria toda a sua tecnologia por uma tarde com o Sócrates.

Dizem ser a Era dos Humanos, conectados e intensos, mas a realidade é que esse intenso é tão profundo quanto um pires. Vou terminar propondo o exercício do pensamento otimista de que as pessoas vão olhar através dos números e enxergar as outras pessoas, haverá igualdade e empatia, auto gestão e respeito, interpretação de texto e churros, enfim o mundo perfeito.

Viva o surrealismo romântico!