Você se doa ou você se dói?
Em 1674 Fernão Dias Paes estendeu sua bandeira para liderar um grupo de desbravadores em busca de uma esmeralda lendária chamada Sabarabuçu na região conhecida hoje como Serra da Esmeralda. Antes mesmo da Samarco, Vale e tantas outras empresas explorarem os minérios daquela região, Fernão Dias desbravou por sete anos a região de Minas Gerais até sua morte em 1681 e entrou pra história.
Séculos depois, Fernão Dias volta a chamar atenção desta vez emprestando seu nome para a escola estadual em Pinheiros, localizada na Zona Oeste de São Paulo que fez o primeiro levante de alunos contra as medidas de “organização” das escolas estaduais decretadas pelo governador Geraldo Alckmin e seu secretário de educação, Herman Voorwald. Desde o dia 10 de novembro, centenas de alunos (até agora são 104 escolas) estão ocupando as diversas escolas que estão na mira do Estado.
Tive a oportunidade de conhecer a ocupação na minha cidade, São José dos Campos, a Escola Estadual Major Miguel Naked fica na zona sul de São José e ministrar uma oficina de Criação de Personagens para prover atividades junto aos adolescentes que lá estavam.
O contato foi feito pelo Pedro, um jovem desses com cara de bom moço de humanas, sabe? Alguns até brincaram que seus personagens “eram iguais ao Pedro, de boas…”, mas além dele haviam outros meninos e meninas mais velhos que organizavam a ocupação. Muitos membros da UNE (União Nacional dos Estudantes), da ANEL (Assembléia Nacional dos Estudantes Livre), de sindicatos regionais e de alguns partidos políticos. Juntos, eles faziam a assistência aos adolescentes que estão ocupando o Nakedão, como é carinhosamente chamado.
Cheguei embaixo de chuva, já era quase sete e meia da noite de uma segunda-feira bem chata, o sereno estava só aumentando. Ao chegar no portão, trancado, percebi alguns “sentinelas” que cuidavam de vigiar o acesso e da segurança dos demais. Tudo organizado, com escala e revezamento digno de profissionais da área de segurança.
Fui recepcionada por um guri que deveria ter seus quinze anos no máximo, me apresentei sem muita cerimônia e o mesmo ficou de confirmar com o pessoal da “Anel” se meu acesso seria autorizado. Fiquei ali no sereno mais alguns minutos esperando minha autorização. Assim que pude entrar no prédio da escola senti uma mistura de medo e euforia: medo, porque estava em um ambiente desconhecido, sabia que havia ocorrido uma manifestação em frente a escola no período da tarde e que a polícia poderia estar por perto, esperando para pegar de surpresa, talvez de noite. Pensei comigo: eu ali, manca, sem muito jeito pra correr, pular, se esconder, seria alvo fácil de bombas de efeito moral, balas de borracha, cassetetes e de qualquer opressão policial que surgisse, caso a PM resolvesse invadir. Por outro lado, era inegável a euforia, ver tantos adolescentes juntos, organizados, em prol de algo. Talvez a maioria deles não tenha a consciência política da amplitude das ações que estavam fazendo, mas tava ali era inegável aquele sentimento de companheirismo que só as causas mais apaixonantes nos proporcionam.
Fui recepcionada por um cidadão cabeludo e barbudo, meio sem jeito fui perguntando: Vocês são da ANEL? — Quase que simultaneamente ele sorriu e olhou para o outro homem que estava ao seu lado e disse: Graças a Deus, não! Aquilo me deixou desconfiada e logo imaginei que fossem de algum partido político ou sindicato que tinham algum tipo de desavença com os órgãos estudantis.
Olhei em volta e vi mais jovens, ainda não havia me encontrado com o Pedro, o contato que organizou a oficina junto comigo pelo Facebook. Os adolescentes me olhavam como se fizessem uma sabatina de olhares, afinal eu era um corpo estranho naquele ambiente de pessoas que se conheciam bem. Escolas de bairro tem disso, essa coisa que saber exatamente quem é irmão de quem, onde que o colega mora, quem são os pais e por aí vai, por isso uma pessoa estranha é facilmente reconhecida no meio deles.
Uma mocinha me viu ali perdida e começou a organizar a turma, devido ao seu tamanho, ela teve que subir no palco do pátio para ser ouvida e anunciou minha chegada. Morri de vergonha, justo eu que sou tão desinibida, me via ali prestes a ser descoberta por todos:
-Oficina de desenho, pessoal, vamos desenhar! Vem Ingrid…Vem Renan— Gritava ela do meio do palco, tentando organizar os colegas. Outra garota da organização se aproximou e perguntou se eu tinha trago material. Eu estava apenas com poucas folhas coloridas e algumas impressões em sulfite que tinha feito para usar durante a oficina, então não estava preparada para fornecer material.
Alguns alunos desconfiados foram sentando, outros olhavam de longe a minha movimentação. Estou acostumada a falar em público, dou aulas, oficinas, palestras, mas confesso que foi a primeira vez que me senti tímida, sentia que ali eu estava invadindo o espaço deles. Eu estava nervosa!
Quando formou um grupinho com seis a sete alunos, eu me sentei a mesa com eles e fiquei distribuindo as folhas coloridas. Estavam sem lápis e borracha, mas tinham muita curiosidade para saber o que eu estava fazendo lá. Perguntei a uma das mocinhas que estava organizando se tinham materiais, mas a resposta foi negativa, então improvisamos com o que tínhamos na mão. Comecei me apresentando, bem na defensiva, afinal eram adolescentes, a raça mais “tô cagando pra você” de todas. tentei usar o material que eu tinha levado, umas impressões sobre arquétipos para tentar explicar da onde vinha o conceito de herói, de vilão, tão presente na criação de personagens, mas não houve muito interesse. Nem a foto de Carl Jung todo simpático fez com que eles esboçassem qualquer sentimento. Fiquei meio sem saber se estava agradando, então segui meu instinto, baixei a guarda e me permiti ser uma folha em branco, junto com eles e o resultado foi incrível.

A medida que íamos criando os personagens juntos, notava-se talentos precoces, um que tinha mais talento para desenhar, outro que era um poeta nato e teve até aquele que tocou pela singularidade, uma personalidade única com um gosto musical muito diferente. Aos poucos fui me deliciando de estar na companhia daquela garotada, enfim tinha me sintonizado com eles, estava curtindo a companhia de todos, sem hierarquias de professora e alunos, apenas na harmonia da conexão humana.
Ficou muito claro para mim naquele momento como o Estado desperdiça potenciais humanos. As pessoas estão sendo negligenciadas e o ensino sucateado, transformando escolas em depósitos de gente com potencial para ocupar penitenciárias. Um investimento às avessas que só um governo macabro consegue fazer, feche as escolas, reduza a maioridade penal e aumente os presídios. Poucos se interessam em saber como é uma ocupação, quem são os alunos, como vai ficar a vida deles depois que a medida do governo entrar em ação. A periferia, os alunos de escola estadual, as crianças pobres, todos eles, não interessam para o mainstream. Nossa atenção é sempre levada para outras pautas como a catástrofe de Mariana, os atentados em Paris, Lava-jatos e Trensalões e por mais que esses assuntos tenham relevância e sejam importantes serem discutidos, a solidariedade não pode ser seletiva, se você sente a dor do seu irmão de Mariana, de Paris ou da Síria, por que não ajudar os alunos querendo um ensino melhor? Por que a pauta deles é menor? Por que quando a periferia mostra sua ferida aberta a gente nega o ponto?

Você pode até não concordar com as as organizações estudantis, os sindicatos, os partidos políticos que fazem frente, mas se essas pessoas não tomam decisões e dão a cara a tapa, seja lá qual intenção que elas possam ter por trás, ninguém faz nada. E mesmo que você acredite que eles, os alunos, são “massa de manobra” na mão dessas organizações, o que faz da gente menos massa de manobra assistindo as escolas fecharem do conforto do sofá?
Tem uma letra de uma música da banda joseense Salve as Kamadas Líricas que reflete bem meu sentimento depois dessa vivência na ocupação, o refrão diz: “você se doa ou você se dói. Você destoa ou você destrói” e se doar é um lance muito louco, porque só na hora que você se entrega a uma situação, um momento, uma causa, tudo a sua volta deixa de doer, principalmente sua consciência.
Paz e Amor, rapeize!
