Palavra no ventre vazio

Como um tsunami que devasta a costa, o som da tua palavra penetrou e, através dos ouvidos, descendo, foi sentida no pescoço, apertado, no peito, gelado, estômago embrulhado e, finalmente, ventre, esvaziado. Vazio intenso e profundo era a sensação que percorria meu corpo, e se depositava no ventre, vazio do som da tua palavra.

Uma simples palavra, talvez para conforto ou tranquilidade dos medos do corpo, capaz de perturbar tanto assim o equilíbrio de um ser. Desestabilizou, desorientou, perturbou.

Mas o que estava acontecendo ali? A alma doía e se esvaía, levando junto um sonho, um desejo, uma expectativa mal construída: o ventre vazio, ela deixava. A palavra.

E o corpo? Não reagia, ele, à palavra? Podia, assim, o corpo permanecer alheio ao tsunami que a alma sofria naquele instante infinito? O corpo disse: para! Mas o ego, piedoso, submisso ao de fora, determinou que se seguisse: deixa o menino gozar. Ignora-se assim a dor da alma, a se esvaziar. Encha este ventre de ar, mas deixe o menino gozar. A alma há de se recuperar.

E assim, de ventre vazio e onda desoladora, o corpo seguiu, desconexo do sentir, como se outro ser autônomo fosse. Ao mesmo tempo que a alma vazia, o prazer sentia. Dor e prazer. Passageiro prazer fulgás. Vazio ventre a chorar.

A aventura chega ao fim. Rápida, como o tsunami que devastou a alma. E agora, ego? O que fazes com a alma? Como junta seus cacos e preenche o vazio? Juraste nunca mais agir assim, sem coração e sem sentir, mas esqueceste do prometido e, mais uma vez, agiu sem sentir, agiu no vazio. E a relação vazia, corpo e carne descartável, foi o que entregaste, ego, traidor do ser.

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