Aos 77 anos, Maria Leonice Hessel compartilha suas primeiras- e muitas- lembranças

marilia gouveia
Nov 7 · 6 min read

Se as palavras definissem a força da mulher pernambucana, cada letra do alfabeto teria o prazer de construir sentenças que expliquem a etimologia do que é não perder as esperanças. Carinhosamente chamada de Leonice pelos familiares, é até possível dizer como a letra ‘L’ se sentem tão privilegiada de ser a primeira pronunciada deste nome tão importante para a família Hessel. Hoje, mãe de quatro filhas- Rosa, Zilda, Marisa e Cida -e avó de nove netos, Leonice preenche a casa com muitas alegrias e, segundo ela, sua família é o seu maior motivo de felicidade.

Nascida em 8 de agosto 1942 (com registro de cartório em 16 de agosto do mesmo ano), a cidadezinha de Garanhuns, em Pernambuco, é o berço desta grande mulher que não pesca por um segundo entre conversas e adora um cafezinho no final da tarde. Leonice chegou ao mundo para nos lembrar de que parados somos iguais aos outros milhões que existem pelo mundo. Mas quando tomamos por noção a nossa grandeza em seguir em frente, mesmo com tantas pedras em nosso caminho, podemos fazer da água o vinho, e de tantas casas, o nosso lar.

Os lares de Leonice

Desde muito nova, dona Leonice teve de lidar com perdas muito significativas. Aos nove meses, sua mãe, Maria Rosa, faleceu vítima de uma infecção durante a gravidez de um bebê que nem chegou a nascer. Filha mais nova do casal, cresceu com o pai -seu maior herói nesta vida- Cícero Salgado de Souza e seu irmão, seis anos mais velho, José Salgado de Souza -segundo ela, o maior motivo por tudo o que tem hoje.

Seu primeiro lar foi tomado logo cedo. O pequeno vilarejo da Vagem do Laranjo é o local das suas primeiras lembranças. Cercado por matas, com muitas plantações de café e hortaliças, o clima ameno da região foi acolhedor para o momento de dor do trio Salgado de Souza. Um acordo enfadonho fez com que após a morte da mãe de Leonice, as terras que o pai tinha construído a casa da família fosse entregue à um dos irmãos de Maria Rosa.

Sem ter onde morar, a casa de uma das sobrinhas de Cícero, Maria, casada com Antônio Costa, foi acolhedor e familiar. Em Vargem Grande, próximo de sua antiga casa, foi quando Leonice aprendeu a chamar Maria de mãe e os filhos dela, de primos. Nos fundos do terreno, uma casa com dois cômodos os serviu de lar por muito tempo.

Maria Leonice Hessel em viagem à Portugal

Entre outras desavenças no percurso, pulando de casa em casa dos parentes, Leonice só conheceu o termo ‘minha casa’ décadas depois. Seu pai adoeceu diversas vezes e os irmãos tiveram de transitar entre outros parentes para não ficarem sozinhos- já que ainda eram crianças. Em uma dessas visitas, Leonice visitou sua prima Maria de José Custódio. Mãe de duas meninas, Josefina e Gescina, proporcionou um dos momentos mais memoráveis de sua trajetória. A prima Maria cuidou muito bem da pequena Leonice, lhe dando banho e lavando seus vestidos, e disse que a menina precisava de sapatos para não encardir os lindos pés. Então, fez as medidas e lhe comprou belas sapatilhas (seus primeiros sapatos).

Literatura de Cordel

A última casa em que morou com o seu pai foi a de um senhor para o qual ele trabalhou, no sítio de Zezé Bahia. Por lá, conheceu Dona Maria Cordeiro, mãe de Geni; ela comentou que levaria Geni à escola para aprender a ler e escrever e perguntou se Leonice gostaria de ir junto com a menina. Prontamente pediu ao pai autorização e, de imediato, ele permitiu. Entrou no colégio aos 10 anos sem saber uma só letra. Nesta época seu irmão já não morava com ela e o pai e só os visitava a cada dois meses. Quando ficou sabendo que a irmã entraria na escola, comprou seu uniforme completo- saia azul, blusa e meias brancas e sapatos pretos. Aprendeu a ler e escrever com muita facilidade e amava caminhar mais de uma hora até o colégio todos os dias com seus companheiros de sala: Amabilia, Enedina, Luiza, Gerusa, Luzinete e Jaime.

Quase um ano depois, o pai de Leonice já estava muito fraco para trabalhar e os dois se mudaram mais uma vez. Na casa da Tia Laura, encontrou conforto, mas pegou piolho pela primeira vez. Alguns anos mais tarde, Cícero veio a adoecer de novo e dessa vez não resistiu, faleceu quando Leonice tinha apenas 11 anos e o irmão 17. Mais uma mudança, os dois foram para a casa do Tio Ernesto, e José decidiu que era hora de começar sua vida em São Paulo. O irmão partiu com a promessa de levar sua querida Leonice com ele assim que tivesse dinheiro o suficiente para as passagens dos dois e trocados a mais para os manter bem por alguns meses.

Sozinha na casa do Tio Ernesto, Leonice teve que aprender a lidar com a solidão e a saudade. Saudade do pai, do irmão e de uma mãe que não chegou a conhecer. Foi então que novos desafios entraram em sua vida para o bem. Ernesto era um homem de muito respeito e trabalhador, construiu tudo o que tinha, sempre honesto, contudo, era analfabeto. Ele amava ir ao centro e ouvir recitarem histórias de cordel, então comprava folhetins de monte e preenchia as tardes de sua sobrinha. Com uma leitura muito rasa, Leonice lia e relia muitas vezes as histórias para decorar e ler em voz alta para o tio e para amigos que ele levava em casa. Com vergonha de errar algum verso, memorizou tão profundamente que se lembra até hoje da primeira história completa que recitou, cada verso e cada estrofe.

Poemas vindo do coração

A leitura se tornou algo tão significativo em sua vida, que não parou mais. Ler e escrever para a dona das risadas mais saborosas são atitudes de prazer e alegria. Em sua uma bagagem de vida recheada de histórias, hoje ela escreve poemas, poesias e tudo que envolva palavras. Gosta de partilhar com os seus familiares e amigos da vida tudo o que faz seu coração feliz, seja a natureza, o canto dos pássaros, os seus netos e filhas, seu irmão amado e pequenos detalhes do dia a dia.

Aposentada, aos 77 anos, não para por um segundo. Perambulando pela sua doce casa no centro de Santo Amaro, ela se delicia em contar de sua vida para todos que tenham um bom coração para escutar. Enche a boca para falar do orgulho que tem dos netos por terem lhe dado um computador e lhes ensinado o mundo da tecnologia e das letras todas separadas uma das outras de um teclado digital.

Em apenas um mês, aprendeu as ‘manhas’ do ciberespaço e hoje tecla como ninguém. Quando conheceu o Word, um mundo novo se abriu. As palavras no papel digital foram sendo escritas e versos de poesias lindos foram nascendo. Colecionando mais de 50 poesias, ela as guarda como talismãs. Além disso, ela ainda tem um livro escrito, sua autobiografia, Maria Leonice Hessel. Junto com as poesias, estão todos registrados na Prefeitura e algumas até publicadas na revista informativa de Campo Grande, Santo Amaro.

Venham até mim criancinhas, foi o que Jesus falou

Quem ama as crianças foi à mim que amou.
Por isso preste atenção cuide bem das crianças,

Com todo o seu coração. O futuro do mundo está em suas mãos.

Porque são as crianças de hoje que amanhã irão governar.

As crianças são a imagem do menino Jesus

Onde houver crianças e amor com certeza haverá luz.

Maria Leonice Hessel (2018)

Quando ouvi pela primeira vez a história de vida de Leonice, me remeteu as palavras superação e coragem. Escutamos diariamente versões aumentadas de personagens gloriosos nos telejornais e, com Maria Leonice, tudo é verdade. Essa mulher que se lembra de tudo e todos -haja HD interno! -, tem todas as palavras na ponta da língua, não se contenta e nem se acomoda. Está aprendendo inglês por aplicativo no celular e se diverte em mandar áudios para as filhas de tudo o que está conhecendo. Assim como Zildinha disse no livro de sua mãe, Leonice é mãe, é amiga, é porto seguro e a única capaz de curar gripes apenas ‘apernando’ -abraçando com as penas- na hora de dormir.