O ano de 2014 começou batendo recordes no Brasil, pelo menos de calor. São Paulo e Porto Alegre fecharam o mês de janeiro com as maiores temperaturas já registradas pelo Inmet, o Instituto Nacional de Meteorologia: a capital paulista teve o mês mais quente da história climática desde 1943; Porto Alegre alcançou suas maiores temperaturas dos últimos 100 anos; e o já quente Rio de Janeiro também se superou, registrando sensação térmica de 57°C.
Enquanto tudo isso acontece, homens vestem suas calças, camisas, ternos e gravatas para irem ao escritório. Um inferno cotidiano de quem não tem o privilégio de passar o verão inteiro na praia e precisa enfrentar as ruas, o transporte público, o trânsito e ambientes de trabalho que muitas vezes não são abençoados com ar condicionado.
O Brasil é um país tropical que importou (para não dizer “copiou”) muitos dos seus hábitos e costumes de países europeus, que têm um clima completamente diferente. Foi necessário que os termômetros de diversas capitais registrassem temperaturas que beiram a ignorância para que o uso de bermuda no trabalho começasse a ser discutido com mais ênfase — tudo por conta da audácia de um funcionário público no Rio de Janeiro, que causou um rebuliço ao ir trabalhar com a saia da esposa, já que as bermudas são proibidas no escritório no qual ele é ilustrador.

Um grande marco que abriu uma boa discussão e pôs em destaque uma bela iniciativa que teve início em meados de 2013 — o Bermuda Sim. A ideia surgiu de três jovens profissionais que começaram a questionar porque as pessoas são obrigadas a trabalhar de calça em um país tropical.
“Por que as empresas ainda insistem em dress codes que nada tem a ver com o nosso clima? Em um país onde a sensação térmica ultrapassa os 50º no verão, por que não é permitido trabalhar de bermuda? Sim, bermuda”.
O movimento Bermuda Sim é uma campanha bem humorada que tem como objetivo mostrar que a roupa não influencia a postura profissional. É uma luta pelo bem-estar e qualidade de vida dos trabalhadores, independentemente da função ou classe social. Para se unir à campanha é bastante simples: basta entrar no site, enviar o e-mail do(a) chefe anonimamente e o Bermuda Sim entra em contato com ele(a) pedindo para liberar o uso da bermuda no local de trabalho. Até o fechamento dessa matéria já eram somados 15 mil e-mails enviados para chefes.

Através da campanha ou não, algumas grandes empresas e setores já permitiram o uso da peça de roupa, como a Totvs, uma programadora da Globo e a Prefeitura de Curitiba, que deu o aval aos motoristas de ônibus da cidade. Outras pequenas mudanças também já estão sendo notadas, como o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que liberou os advogados da obrigatoriedade do uso de terno e gravata.
Com mais conforto, os funcionários ficam mais produtivos — e talvez menos irritados, já que muita gente sofre de alterações de humor quando o calor incomoda demais (como esta que vos fala). Uma simples troca no modo de vestir também pode ser econômico e mais sustentável — com as pernas de fora, os aparelhos de ar condicionado não precisam trabalhar tanto, reduzindo a conta elétrica das empresas e contribuindo para a sociedade em geral com o menor consumo de energia, como observou Oliver Abreu Küffner.
Usar bermuda não significa estar mal vestido. É claro, é preciso ter um certo bom senso na hora de escolher o look, como sugerem os “Bermudamentos” da campanha Bermuda Sim: nada de short de surfe ou uniforme de times, além de ser necessário ficar de olho no comprimento da peça e nas estampas — afinal, não deixa de ser um escritório, guarde as bermudas florais para a praia.
É incrível acreditar que ainda em 2014 alguém precisa lutar pelo direito de usar uma peça de roupa sem preconceitos — mais difícil ainda é crer que são os homens que estão dando esse grito, algo parecido com o que as mulheres tiveram que enfrentar quando quiseram vestir calças ou minissaias. Só não façam uma fogueira com seus ternos e calças de alfaiataria, já está calor suficiente!


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