A vida contada por uma janela

Imagine que você é o fotógrafo L. B. Jefferies de A Janela Indiscreta e está observando o mundo da sua janela (filme: Rear Window — 1954 de Alfred Hitchcock), você só consegue observar o que acontece, mas não sabe o que é discutido, não escuta as palavras e tudo que consegue absorver são gestos. É isto que acontece na internet e alguns outros meios de comunicação.

Online eu absorvo vídeos e muitas palavras, mas será que o que me é repassado é verídico? Ou será que os fatos estão distorcidos? Será que o meu entendimento é o mesmo que o meu colega que precisou ver o vídeo lendo as legendas rapidamente; ou a minha amiga que apenas leu o comentário de alguém sobre o assunto? O que acontece com os ruídos nestes momentos e em qual deles está mais presente?

Estou numa janela, e não posso ir lá fora ver o que realmente acontece; não posso ir à França, à Israel ou à Mariana. Me basta que repassem as informações da devida maneira e que eu aceite ou não o que leio. Se me contentar com uma matéria, terei apenas uma opinião sobre o assunto. Certamente terei que ler mais sobre. Quem saberá qual está certo (imagem abaixo), o que vê a pirâmide de seu lado quadrado ou triangular? Cabe a mim observar severamente as janelas à minha frente, até encontrar a verdade.

Voltando ao filme, o fotógrafo está com sua perna quebrada e passa o tempo de recuperação observando seus vizinhos. Por acaso ele nota que a esposa de um deles some após uma suposta discussão. Preocupado com o sumiço da mulher, ele passa a ficar paranoico com sua vigília, aborrecendo sua cuidadora, um detetive e sua namorada que o vão visitar. L. B. Jefferies sente-se na obrigação de desvendar o mistério do prédio em frente e enquanto isso, vigia a vida dos outros moradores com menos atenção. A dúvida entre ele estar imaginando ou ter acontecido mesmo um assassinato é carregada até o final do filme.

Com toda sua atenção voltada ao sumiço da mulher, o fotógrafo ignora a vizinha de baixo do suposto assassino estar prestes a cometer suicídio devido sua vida amorosa fracassada.

O que você faz quando uma notícia tira a atenção de outra? Deixa seu foco apenas na nova informação ou tenta dividir suas preocupações entre elas?

Parece que muitas pessoas não aprenderam que a preocupação pode se dividida, que não é preciso esquecer de um para cuidar de outro. E muito pelo contrário, está errado deixar de dar atenção a um quando outra coisa acontece. Imagine que você está numa praça e a criança que já estava lá, cai. Você vai ajudá-la, mas no mesmo momento aparece outra criança machucada. Você abandona a primeira criança para cuidar da segunda? Ignora a segunda? Tenta procurar ajuda enquanto acode as duas? Caso você escolha socorrer apenas uma, por que a outra é menos importante?

Mariana. França. Beirute. Japão. Santa Maria. Síria. MUNDO.

Não importa a tragédia, seja natural ou proposital, deixe tocar seu coração e sinta compaixão por tudo que está acontecendo. Não pense que o mundo está chato por que hoje é “tudo preconceito”; mudanças são necessárias e servem para evitar mais problemas. A intolerância está dominando as pessoas, tapando suas visões, secando sua bondade e empobrecendo as seus lados humanos. Abra sua janela e sua mente, permita-se mudar e entender o sofrimento dos outros. Coloque-se em situações que você proporciona sem perceber e sinta a dor que eles sentem ao serem rejeitados. Religião, opção sexual, identidade de gênero, maneira de pensar, de se vestir, cor da pele, classe social, cultura, nada lhe dá o direito de desmerecer alguém ou alguma situação.

Ame o próximo.

MaHelbig
Do blog: Tertúlia Cult

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