Crítica literária depois de 10 capítulos: Estação Onze

Decidi aproveitar o dia do leitor pra mostrar que eu TO LENDO ROMANCE DE NOVO. Tenho bastante vergonha de dizer que, nos dois ou três últimos anos eu não li mais que 3 livros não técnicos, e até os técnicos não li inteiros. Paper não conta como leitura, nem blog, muito menos meme. Mas to precisando de distração boa então tá na hora de parar de deixar a marina do passado com vergonha.

Não tenho nem currículo nem bom senso suficiente para fazer críticas literárias, e nem é essa a minha real intenção. Quero apenas fazer a coisa que, como pessoa egoísta que sou, mais gosto: falar sobre meus pensamentos ao longo dos dez primeiros capítulos do livro.

Pode ser que tenha spoilers. Não sei o que configuraria realmente um spoiler nessa situação, visto que nem reviravolta acho que teve. Só li dez capítulos minha gente.

Mas vou tentar me ater aos resuminhos da orelha e da contracapa.

RESUMO DOS RESUMOS
Estação Onze - Emily St. John Mandel

Aparece uma gripe que mata quase todo o mundo em poucas horas. Pula vinte anos: artistas itinerantes vão andando por aí e se apresentam pro que sobrou de mundo. Aparentemente a vida de 6 pessoas se cruzam e o leitor se emociona com as perspectivas novas sobre a vida e a beleza do mundo.

Tem uma referência a Star Trek Voyager na orelha:

"Sobreviver não é suficiente".

O LIVRO

É gostosinho de ler. Não diria que é uma escrita fenomenal, até porque eu não saberia classificar uma coisa dessas. Não dá vontade de parar a cada três linhas mas não fez meu olho brilhar. Considerem que é um texto um tanto (um bom tanto) melhor que esse aqui, embora num estilo bem distinto, ainda bem.

Esses 10 primeiros capítulos eu li numa deitada. Poderia dizer "numa sentada" mas eu estava deitada pronta pra dormir e ia ler só um pouquinho até cair no sono. Acabei lendo um pouquinho mais do que o esperado, acho que é um bom sinal. Ponto pra Emily.

Vamos à história.

Vocês que já jogaram Plague inc. sabem muito bem que um vírus, pra acabar com o mundo, não pode gerar uma doença eficiente DEMAIS em matar seus hospedeiros. Se mata rápido, não dá tempo de espalhar o suficiente pra acabar com o mundo. Até diminui bem a população se a transmissão for muito fácil, pelo ar, uma SARS turbinada talvez.

Mas, independente da minha descrença no fim da civilização como conhecemos, ela acaba. Tá ali no resumo. A galera passa a viver em pequenos povoados meio distantes. E tudo volta pruma era meio estranha. Sem energia, sem internet, sem remédios, SEM MODERNIDADES. Não sei se era o propósito mas me deixou pensativa.

Vamos supor que, realmente, 95% da população morre da Gripe da Geórgia. Sobra aí uma galera perdida. Você sobreviveria? Eu acho que não. Mas também acho que deve ser possível ter acesso a algumas pequenas coisas. Sei lá, 2019 já. Tem casa com painel solar gerando energia pra si. Algumas pessoas iam ter melhores condições né. E aí já viu. Tem gente com mais condição, tem poder envolvido e pá, já estaríamos próximos da sociedade atual, só que com menos gente.

Tem umas coisas meio bizarras tipo o cara que gera energia numa bicicletinha porque está "procurando a internet no seu computador". Mas ele só é citado tão rapidamente que dá até pra não perceber. Não você que está me lendo, porque quando você ler o livro vai lembrar de mim nessa hora. O resto vai passar sem sentir.

Claro que o livro se passa no eixo EUA-Canadá e isso muda muito a idéia de como as pessoas vivem nesse mundo pós apocaliptico. No Brasil seria diferente. Povoado nativo no meio da Amazônia SEQUER PERCEBERIA O FIM DO MUNDO, embora tenho certeza agradeceriam por sumirem os homens das redondezas querendo a terra deles. Pessoas que vivem nessas regiões pobres que a gente nem sabe que existe (mas existem) talvez não sentissem também. Iam seguir a vida felizes por não ter acabado como pessoal dos grandes centros. Os humilhados serão exaltados, essas coisas. Porém isso não é critica social foda e eu não vou fazer vocês pensarem no quanto a gente, como sociedade, marginaliza e ataca algumas pessoas e etc.

Vamos pensar no resto do Brasil: SP ia morrer todo mundo. Um infectado no metrô e pronto, a capital e todas as cidades adjacentes e as adjacentes das adjacentes estão com os dias contados. Sobrariam os depressivos demais pra sair de casa, embora não durariam muito porque ninguém tem estoque para o apocalipse. Imagine só se isso acontece por volta do carnaval? Aí que acaba o Brasil mesmo. É importante essa reflexão.

A lição, ainda no começo do livro, é: se você fica sabendo que tá rolando uma epidemia você deve se trancar em casa com mantimentos. E, claro, você precisa estar sempre preparado para o fim do mundo. Seja o apocalipse zumbi, uma epidemia de gripe, a terceira guerra mundial. Enlatados, ração, água (muita água e um bom esquema de captação de água de chuva), papel higiênico (eu gosto de pensar que no começo do apocalipse eu mereço algum conforto), um vaso com terra pra plantar batatas, lanternas, velas e fósforos, remédios diversos.

Mas no Ano 20 pós Gripe não tem mais mantimento sobrando, e a galera já saiu de casa porque, como eu disse, vírus que mata rápido morre rápido pq é burro. Eu imagino algo meio todos-os-filmes-de-apocalipse. Então grandes centros cheios de gente se matando por nada, pessoas viajando (andando) por aí atrás de lugares melhores, ladrões no meio do caminho, etc. Mas sabe o que tem no Ano 20 pós gripe? COMPANHIA DE TEATRO. E é essa a minha coisa favorita do livro.

Ele tem a delicadeza de lembrar que mesmo nesse cenário horrível de civilização-rudimentar-pós-crise as pessoas precisam de entretenimento e cultura. Os artistas, entitulados Sinfonia Itinerante, passeiam pelas cidadelas apresentando teatro e música para as pessoas, porque "Sobreviver não é suficiente", a frase escrita no primeiro trailer que carrega a trupe pra lá e pra cá (puxado por cavalos, claro).

Já no décimo capítulo a autora dá o tom da discussão de relações humanas nos lembrando das maravilhosas PICUINHAS. Dois parágrafos gigantes explicam o relacionamento dos integrantes da Sinfonia Itinerante e nos lembram o quanto as relações humanas podem ser moldadas por picuinhas facilmente superáveis.

Suponho que pelo resto do livro a história vai nos instigar a entender e analisar o comportamento e relação entre os moradores de diferentes povoados e resolver conflitos de ordem mais filosófica que prática, tipo “pq amamos?” ao invés de “como a Internet?”.

Promete ao menos ser uma boa distração pros próximos dias.