Sobre “ser grande” para fins de exibição
A vida adulta tem grandes viradas que a gente nem percebe vindo. Tal como a transição pra adolescencia.
A adultice vem carregada de contas pra pagar e a gestão de dinheiro (e com o desespero também), vem também com a independencia e liberdade que o adolescente precisa muito e acha que não tem nada (mas as vezes até tem) e aquela ladainha toda de obrigações, responsabilidades, etc.
Me perceber adulta não é fácil. Eu e mais um montão de gente crescemos com aquela coisa do “quando eu for grande eu vou ser física e professora e atriz e jornalista e” e daí um dia eu vi que eu era grande. O maior sinal foi quando eu tava aí vivendo sendo física.
E esse não é um texto sobre ser madura, responsável e qualquer outra coisa que poderíamos esperar de um adulto. Porque eu talvez não seja nada disso. Mas eu já sou adulta pelo menos do lado de fora (e nas tripa também). A sociedade já tem a certeza que eu sou gente grande.
Para mim a adulteza me deixou em confronto com dois conceitos fascinantes: o envelhecimento e a alimentação.
O envelhecimento é óbvio. O corpo tá aí FICANDO VELHO. E meu corpo tem um jeitinho especial e fica velho das melhores formas nas piores horas (19 anos eu tava travada com hérnia de disco, e hérnia de disco é coisa pra velho, vai). Daí tá lá com 25 anos e tomando mil comprimidos pra consertar estômago, intestino, cabeça, ombro, joelho e pé. 25 anos, sabe? Minha bisa avó tem 92, viveu a vida loucamente (gordura,fritura, doce? pode mandar!) e toma menos comprimido que eu. E os cabelos brancos. Nossasenhora não vou nem falar de cabelo branco. Vou até guardar isso aí pra outra hora. O fato é que ficando grande a gente envelhece. E eu acho isso fascinante demais.
Mas eu queria falar do meu assunto favorito no mundo: comida.
Ficar grande me trouxe uma certa liberdade alimentar. Eu comecei a conquistar essa liberdade quando fiz meu primeiro arroz, antes dos dez anos (com supervisão é claro). Daí foi virando festa. Cada ano que passava eu sentia que conquistava um pouquinho mais de poder no universo alimentar.
A liberdade alimentar veio por várias coisas não necessariamente ligadas à idade. Veio com um salário melhorzinho (mesmo que seja bolsa mas salário soa adulto combina melhor com o clima do texto), veio com a rotina que tenho, veio com minhas profissões, veio com meus privilégios, veio com minhas escolhas.
Eu achei que ser gente grande era chegar em casa e jantar um balde de pipoca porque dia foi longo cabeça tá cheia geladeira tá vazia. Daí eu achei que ser gente grande era chegar em casa e jantar um balde de pipoca porque sim, porque eu posso. Daí eu achei que ser gente grande era chegar em casa e ficar chateada porque putamerda acabou a mandioquinha e eu tava super querendo uma janta de “adulto”. Nada disso.
O ser adulta e a alimentação tem uma relação muito diferente disso.
Eu estava completamente errada.
Hoje eu acordei e dei uma checada no saldo no banco. Fiz umas contas. Trabalhei um pouco. Vi o quanto eu tava gastando com comida. Optei pela marmita depois de uma grande reflexão madura adulta e de gente grande.
A adulteza, pra mim, tá numa lancheira do Gumball.
Eu entrei na loja e comprei com meu dinheiro uma lancheira pra levar minha marmita. Dinheiro que recebi fazendo trabalhos que eu não poderia fazer mais nova, porque precisei do tempo, dos anos, da idade que carrego pra adquirir conhecimento e habilidade pra isso. Marmita essa que é pra levar comida e gastar menos no almoço porque é caro pra caralho almoçar direitinho todo dia na lanchonete. E comer direitinho que é pra parar de ter que gastar dinheiro com remédio pro sistema digestório que tá zoadíssimo e eu sou nova pra isso.
A lancheira do Gumball é resultado de todos os passos que dei na minha vida até hoje. É um prêmio e um castigo por todas as minhas escolhas e privilégios.
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E pra você que acha que esse texto é apenas para justificar que eu me digo adulta (hahah) e vou sair por aí com uma lancheira infantil eu digo que talvez você esteja certo mas talvez você esteja errado porque é um texto para exibir a minha lancheira do Gumball. OLHA COMO ELA É DEMAIS:
