tsunami de bosta (de gato) da vida adulta

As coisas vivem acontecendo e o que fazemos com elas é o que diz quem somos, dizem. Desde ano passado as coisas não tem sido das melhores. E por coisas quero dizer eu.

Um amigo muito querido tem o costume de dizer que eu to enfrentando um “tsunami de merda”.

Ele disse isso há três anos, quando eu entrei no mestrado e não pude me dedicar totalmente a ele por preferir dar atenção à coisas mais urgentes (e não me arrependo). Ele disse há dois anos, quando eu emendei um casinho de assédio na universidade com, provavelmente, os dias mais difíceis da minha vida. Ele disse isso há um ano, quando eu tive que mudar novamente a medicação porque o tratamento parecia não estar ajudando. Ele diz isso agora, quando eu to, novamente, encarando dias enroladíssimos com mais trabalho que remuneração.

Não que a vida seja só merda. Ela é bem boa. Talvez não seja um tsunami. Mas eu não posso negar que minha vida me garante um suprimento contínuo de marolinhas de bosta. Às vezes, literalmente.

LITERALMENTE

Como vocês já sabem, eu tenho dois gatos. E gatos cagam. Como animais limpíssimos que são, eles cagam numa caixinha, enterram seu cocô e reclamam muito se a caixinha estiver suja. Então eu limpo. É um ciclo feliz e saudável. Mantém a casa limpa e os gatos felizes.

Optamos por uns floquinhos de serragem porque além de ser super fácil de limpar, o lixo pode ir direto pra privada. Ao menos é o que diziam.

Há alguns dias a privada começou a apresentar problemas. E, longe de mim fazer uma comparação com meu emocional mas… eu vejo uma grande semelhança entre a privada e eu. A suspeita é que ela foi juntando uma bola de sujeira e se entupindo aos poucos. Os xixis eram devidamente levados ao esgoto quando apertávamos a descarga, mas bastante lentamente. É como se a passagem estivesse difícil e a qualquer momento a privada fosse resistir a aceitar mais merda.

E esse momento chegou. Justamente quando eu estava jogando as caquinhas felinas pela privada. A água foi subindo e subindo e nada de baixar.

Acho que uma vez na vida todo mundo deve ter que enfrentar uma privada entupida. E essa foi minha vez.

Tentei lidar com a situação com a maior graciosidade. Primeiro eu xinguei os gatos. Depois eu fechei a tampa, fechei a porta, e só fingi que não estava lá. Mas aí eu lembrei da terapeuta falando que eu preciso evitar cair na tentação das fugas, que eu preciso encontrar maneiras de enfrentar meus problemas. Então eu fiz o que qualquer pessoa sensata faria: voltei no banheiro e dei mais uma descarga.

Tudo que tinha ido, lentamente, vaso abaixo foi substituido por mais água e sujeira. Então eu fui procurar soluções para enfrentar o problema de forma adulta. Perguntei ao google. As soluções eram várias. Improvisaram um desentupidor com garrafa pet. Grudavam Tchau Bosta no vaso. Jogavam uns produtos loucos antes de usar o desentupidor.

Um casal de amigos disse que tinha conseguido desentupir com plástico filme. Você coloca o plástico vedando a privada, e dá descarga. O plástico até sobe e vc acha que vai explodir. Mas não explode e o ar que ficou ali confinado ajuda a empurrar a água.

Deveria ser assim. Mas não foi. Vazou água com serragem por todo o banheiro. E o que tava indo lentamente, agora não ia mais. Era muita água suja por todo o meu banheiro e pouca noção do que fazer.

E, novamente fazendo uma comparação porca com minha saúde mental, eu acho que foi só quando eu decidi pedir ajuda e botar a mão na merda que a situação teve alguma chance de melhoria.

Depois de improvisar um pote com meia garrafa vazia de chá gelado, eu botei minhas mãozinhas ali, na água de bosta animal, e esvaziei a privada. Enchia um potinho, levantava, e jogava no ralo. Foram muitas e muitas dessas. Até esvaziar para um nível aceitável. E estar pronta para testar o plástico filme outra vez. E não funcionar.

Não teve jeito. Liguei pros meu pais. Eu acho que minha mãe só riu, já que ela tinha imagens da cocozeira que estava meu banheiro. Meu pai deu a dica de tentar simular um desentupidor com um pano. Peguei três panos de chão e vamos lá enfiar a mão fundo na bosta. Nada.

No fim ele trouxe um desentupidor de pia que tava lá de bobeira na casa deles. Eu tentei mas falhei miseravelmente. Até com as ferramentas corretas. Meu pai pegou o desentupidor e tchuc chuc pronto tá resolvido.

Às vezes é bom contar com alguém que tem mais experiência pra ajudar.

Mas a moral da história é que quando a gente foge das próprias técnicas de enfrentamento o mundo joga um monte de bosta no chão pra forçar lavar o banheiro.

(sim, um dos meus jeitinhos de lidar com a ansiedade é lavando o banheiro)

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