Estréia

Ela fez silêncio enfim. Nenhum som mais se ouviu. Ninguém se moveu. Ninguém teve coragem. Era um silêncio que doía, uma sensação de quase morte que atravessava o peito de todos os que estavam ali. Se fosse só o texto… Se fosse só a montagem, só o palco, só as cortinas abertas, a luz difusa sobre ela, toda branca. Mas não era.

O problema é a sua voz na cabeça. Cada uma das suas inflexões, cada uma das suas pausas dramáticas. O último desabafo, o grito desesperado de alguém que sacode as próprias entranhas. Era como se eu, apenas eu, estivesse na platéia, tão perto e tão silencioso que poderia ouvir o barulho das minhas próprias lágrimas acertando o chão, com força. Como se eu fosse o único.

Estávamos todos sós. Nas imensas vagas de nossas solidões silentes, sofremos juntos, como irmãos que fingem não perceber o que é tão óbvio que dói. Mas aí, a dor aparece assim, na nossa frente, escancarada e indócil. A dor tinha cheiro, tinha cor e estava ali totalmente debulhada em lágrimas, deitada no chão, ninguém ouvia seus gemidos.

Ninguém bateu palmas quando as cortinas se fecharam. A desconhecida do meu lado tomou coragem e apertou minha mão, muito forte, como se estivéssemos todos no mergulho final de um avião rumo à morte. Ela chorava. Olhei em volta: a senhora com o xale puído, os óculos de tartaruga e os cabelos brancos desgrenhados chorava. O homem gordo, vestido com seu terno fino e finalmente despido de suas amarras chorava. A adolescente, o profissional liberal, a atendente, o faxineiro, o professor, o casal de namorados, a avó e seus netos, o pianista, a puta, o agiota, o assassino, a virgem, a médica, o promotor: choravam. Ninguém se movia. Ninguém ousava perturbar a ordem desse réquiem numa catedral profana.

A cortina se abriu. Ela carregava flores. Negras. Estava sobre um praticado. Negro. Vestia uma roupa, negra. Calçou uma luva na mão direita, juntou as pernas e ergueu o punho cerrado com volúpia e raiva e ante apupos histéricos e febris da platéia catatônica.

Sorriu.

A última palavra do monólogo não precisou ser dita.