Mariposa

Gosto do equilíbrio delicado, tênue, aquela sensação entorpecedora no limite entre a serenidade e o caos. Sabe quando aparecem aqueles caras na televisão que equilibram pratos giratórios em cima de varetas e você fica tentando entender porquê eles não caem e se espatifam no chão? Vejo a mesma coisa quando, absorto, observo pendões de flores que oscilam docemente ao sabor do vento. Elas balançam juntas, mas num equilíbrio tão errático, tão excessivamente contraditório, que minha mente vacilante tende a ver ali o caos instaurado. Vê o desequilíbrio, a instabilidade. Vê que, aumentando uma variável no sistema dinâmico associado, todo a essência pendular do movimento se altera. Os pratos caem no chão.

Mas então desvio-me do foco da minha história. Ao contrário, perco-me divagando sobre o equilíbrio de órgãos sexuais secundários de giminospermas e as equações diferenciais parciais que modelam seu movimento. Recomeço, pois, já que a história merece ser contada do início.

É que ela apareceu meio assim. Não como flores que balançam ao vento, nem como pratos que rodam em cima de varetas. Ela apareceu com a inconstância do resfolegar ritmado, delicado e errático das asas de uma borboleta.

Borboleta ou mariposa? Mariposa. Era noite e ouvia as corujas.

Mau agouro, qualquer um diria. Mas eu não me perco pensando na mania assorbebadamente humana de dar significado a eventos tão casuais como a aparição de mariposas, gatos pretos e pios de coruja. Até porque acredito que hajam culturas onde corujas, gatos pretos e/ou mariposas são vistos com bonomia e benevolência, ou não. Pouco importa, afinal cultura só pode ser interpretada num contexto histórico-social específico. Resumindo, gato preto pode dar azar hoje, mas pode dar sorte amanhã. Mas de onde eu tirei este gato?

É que para mim ela era mais uma mariposa do que uma borboleta. É que ela não trouxe, pelo menos não no início, nenhum sentimento de candidez, leveza, simplicidade. Não experimentei qualquer sentimento minimamente bucólico ao vê-la pela primeira vez. Até porque arcadismo está fora de moda há muito tempo. É coisa do arco da velha.

E ela não se parecia em nada com as musas arcadistas que minha professora de português me obrigou a ler na escola. Parecia mais com outras musas que eu lia nesta época em revistas de muito menor reputação, mas de circulação, digamos, mais democrática do que os livros dos inconfidentes. Ela atiçava instintos que, socialmente, deveriam permanecer reclusos.

Não que fosse bonita. Mas aquela boca tinha algo de aterrador. Desequilíbrio. É essa a palavra. Quando a via conversar, longe de onde eu estava, não conseguia parar de observar como os lábios tapavam e mostravam os dentes brancos, a vermelhidão da gengiva. A boca bailava indecente demais para não ser notada. Distante demais para ser ouvida. Mas parecia tão próxima, tão excessivamente presente que era como se fosse me engolir.

Não tinha tido muitas mulheres até então. Tampouco tive muitas depois. Não que elas não me interessassem. Eu que não era lá muito interessante. Sempre soube que elas buscavam outro tipo de conquista e, portanto, resignava-me em ser um observador distante de conquistas impossíveis.

E foi assim ao longo daquele ano. Por mais que eu não quisesse (e no fundo eu sabia que queria) ela estava sempre próxima. As mesmas matérias na faculdade, amigos em comum, aparecia perto de mim na hora do almoço. Às vezes, inclusive, sorria para mim. Ela me notava? Ela me conhecia?

O tempo passou e o que eram apenas lábios tomou mais formas. O som da voz, suavemente estridente, mas bem mais agradável que o barulho das cigarras. O cheiro do perfume, que mudava quase diariamente. A forma indefinível dos cabelos, as unhas mal-feitas e roídas. Os olhos tristes e baixos que pareciam trazer em si muito mais do que apenas erotismo. Tudo parecia tender ao desequilíbrio. Mas se equilibrava.

E eu seguia tentando evitá-la. Iludido, achei que poderia manter apenas para mim este platonismo. Ora, lá ia eu caindo em mais um dos clichês arcadistas. A vida, ao contrário, faz tudo para que o encontro seja inevitável. E foi.

Eu era monitor de equações diferenciais. Sempre gostei desta matéria, mesmo antes da graduação. Ela tinha reprovado. Normal, mais de 60% das pessoas reprovam pelo menos uma vez esta matéria. E, como monitor, meu trabalho era ficar enfurnado em uma sala de aula da universidade, esperando dar meu horário para sair. Ninguém nunca aparecia. Estava explicado os 60% de reprovação.

E então, numa quarta-feira ela apareceu na sala. Não se reportou diretamente a mim. Ao contrário, sentou-se lá no fundo da sala e tentava resolver sozinha os exercícios do Boyce. Eu sabia quase todos eles de cor. Ela não levantava os olhos. Nem eu. Era como se nos ignorássemos. Por duas vezes senti que ela queria fazer alguma pergunta, mas algo a deteve. Continuei parado, esperando.

Ruidosamente, ela guardou os materiais na bolsa e encaminhou-se para a porta.

– Alguma dúvida? — a voz fez muito ruído na sala vazia.

Ela ia escapar. Talvez nunca mais voltasse.

– Quer que eu te ajude a fazer a lista?

Dizer que sim era admitir sua própria incompetência. Por isso ninguém ia às monitorias. Ela devia estar muito desesperada. Continuou parada, em silêncio, a alguns passos da porta.

– Sabe porquê eu gosto de Equações diferenciais?

– Não consigo imaginar um motivo para alguém gostar disso. — ela finalmente disse algo. Não pude disfarçar um certo nervosismo. Meus dedos batiam ritmados sobre a mesa.

– Elas podem modelar quase tudo. As batidas do seu coração, o balançar dos cachos do seu cabelo, as interações entre as moléculas do seu corpo. O movimento errático das flores que balançam ao vento… — estalei os dedos — resumindo, a beleza e o caos.

– Não se pode modelar o caos.

– Ora, se não pudesse ser modelado, Deus não poderia ter feito. Mas o caos é muito mais fácil de se modelar do que a beleza.

Ela sorriu.

– Venha, vamos estudar.

E àquele encontro seguiram-se outros muitos. Duas vezes por semana nos juntávamos para resolver os exercícios do livro, ela e eu. Dava exemplos de aplicação, contava histórias de problemas interessantes, fazia tudo para que ela se motivasse pela matéria. Estava gostando daquela proximidade. O encontro era ansiosamente esperado, dia após dia.

Ela passou a gostar realmente da matéria. Trazia várias dúvidas, fazia perguntas interessantes a todo momento. Os olhos dela brilhavam quando finalmente resolvia um problema. Pela primeira vez em toda minha vida percebi que poderia ser útil ensinando alguma coisa a alguém.

Mas ao mesmo tempo que a proximidade era boa, era também dolorosa. As noites estavam cada vez mais difíceis de suportar.

Até que, um dia, as coisas ficaram diferentes. Era junho e ventava muito. Estava frio. E enquanto pensávamos na solução de um problema, veio o silêncio. Eu não me concentrava, nem ela. Concentrava-me em olhar para o livro, para não ser atacado por outros pensamentos.

– Porque você não me olha nos olhos?

A pergunta veio fulminante. Balbuciei algumas palavras desconexas. Ela calou-me com um beijo.

– Vocês nerds pensam demais.

Eu estava nervoso, vermelho. Não dizia coisa com coisa. Fui pêgo desprevenido, admito.

– Adoro esse seu jeito.

– Que jeito?

– Tímido.

Naquela noite fizemos amor pela primeira vez, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Foi a noite mais espetacular de toda minha vida. Tudo o que eu sempre esperei estava se realizando em minha frente, com aquela mulher-mariposa que eu tanto desejara.

E, na manhã seguinte, o quarto do hotel deixava entrar a luz do sol e eu pude ver seu corpo, repleto de cicatrizes. Não fiz qualquer pergunta. Fingi dormir mais um pouco. Ela me acordou com um beijo.

– Obrigada.

Eu apenas sorri. Tinha medo de falar algo estúpido ou fazer alguma piada de nerd. E lembrei-me dela sempre assim, sorrindo nos meus braços.

Mas as mariposas são efêmeras. Vivem pouco. Eu soube apenas tempos depois que ela lutava contra um câncer terminal. Maria morreu sete meses depois, numa tarde ensolarada de janeiro, em sua cama, cercada de amigos. E eu prometi não derramar uma só lágrima.

E eu cumpri esta e todas as outras promessas feitas nesses sete meses. Só me arrependo de ter perdido tanto tempo antes deste primeiro e redentor beijo. Podia ter sido muito mais tempo.

E, finalmente, gosto tanto do equilíbrio delicado e inconstante, pois isso me faz lembrar, a cada segundo, o quanto vale a pena estar vivo. E o tanto que me ensinou a menina de olhos tristes e unhas roídas, que mesmo à beira da morte teimava em aprender algo novo, contra todas a expectativas.

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