Norte de Goiás, uma encruzilhada, madrugada.

Descrição da Imagem: Uma belíssima composição de cores mostrando várias árvores retorcidas sendo parcamente iluminadas pela luz do entardecer. As cores quentes, laranja, amarelo, vermelho, remetendo ao por-do-sol, são compostas com estrelas do crepúsculo que se avizinha, no alto da imagem.

Noite alta. Descemos do ônibus no meio da estrada, meu pai e eu, num trevo qualquer, no norte de Goiás, às margens da rodovia Belém-Brasília. Frio, um vento cortante e a desolação de um lugar que mal se enxerga uma luz na madrugada.

Andamos, meu pai e eu, pela estrada escura, tropeçando pelo acostamento mal cortado. Eu tinha menos de 12 anos. Dos dois lados da estrada, as plantações de cana balançam ao vento, com um sibilar característico.

Meu pai me pede pra prestar atenção nas estrelas. Um céu imenso, negro e salpicado de tantas estrelas cintilantes, ali tão longe das cidades grandes que eu conhecia.

— Se você olhar com muita calma, meu filho, você vai ver estrelas cadentes.

Parei sobre uma pedra enquanto meu pai entrava no mato para cortar um pedaço de cana e eu olhei o céu detidamente, com curiosidade para ver estrelas cadentes e pensando muito forte no pedido que eu gostaria de fazer. Talvez fosse minha única chance de pedir algo para uma estrela. Não vi nenhuma.

Continuamos a andar. Meu pai descascou a cana com o canivete e foi me dando pequenos gomos. Ali era a terra do meu pai, as lembranças do meu pai, os cheiros da infância do meu pai, tudo recendia a ele, que estava cercado por uma euforia que eu desconhecia. E, principalmente, não entendia.

Era o tédio, o cansaço, a noite maldormida no ônibus para chegar até ali.

Uma parada de ônibus no meio do nada, perdida…

paramos, descansamos.


O sol ainda não havia nascido, mas dava pra ver as cores mudando no crepúsculo. Estávamos de carona no carro do leiteiro, andando pelas estradas de terra, meu pai na cabine, eu sentado nos tonéis de metal, que seriam cheios com o leite, tentando me equilibrar para não cair.

Descrição da Imagem: Uma estrada de terra, ladeada por árvores retorcidas, levando até o horizonte.

Sono, fome, o gosto da terra entrando na garganta, algumas pessoas que também pegavam carona. Eu descendo e correndo para abrir e fechar porteiras. Minha sensação de não-pertencer àquele lugar. Mas a certeza de que estava vivendo algo muito importante.

A caminhonete andava devagar, mas mesmo assim eu estava com medo de cair. Os outros caroneiros, goianos curtidos de sol, com camisas compridas, botinas e chapéus grandes.

E meu pai, muito empolgado, conversava animadamente com o leiteiro.


Paramos. É aqui a fazenda do João Grande? É sim.

Descemos.

Uma casa, um curral com alguns gados mirrados, árvores espaçadas, o campo descoberto, algumas pessoas curiosas paradas na porta. João Grande, um negro alto e de voz de barítono, velho como o mundo, mas forte como um touro vem atender a gente.

Ouve as palavras do meu pai, incrédulo.

Eu olho tudo, muito curioso. Os cachorros, os cavalos, as galinhas… Tento entender o sotaque das pessoas, uma coisa meio cantada, pontuada de expressões populares.

Ele aponta um pequeno caminho de terra, ao lado do curral. Eu fico com um pouco de medo das vacas, mas sigo.

Uma grande represa, sapos coaxando — eu tinha visto poucos sapos na vida, né? — uma cacimba... A excitação do meu pai crescendo e eu ainda tentando lidar com toda aquela informação…

A casa de pau a pique, pobre, sem reboco e sem piso, um pequeno terreiro, os pés de seriguela, o chiqueiro, os olhares curiosos de uma senhora velha e surda. E um senhor magro, de óculos, cabelos brancos e lisos, pele curtida de sol, milhares de rugas de todos os tipos.

Abraça meu pai, emocionado.

Eu observo tudo atento e distante…

O velho é meu avô.

Foi assim que o conheci.

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