Opereta da Bailarina

Luz tênue. Abrem-se as cortinas. A bailarina está parada no centro do palco, de costas para o público. Sapatilhas, tutu branco desgrenhado, cabelo curto solto, os braços no alto, pose soberba, ao mesmo tempo que delicada. Maquiagem escura, escorrendo pelo rosto, como se borrada pelas lágrimas.

Começa a música. É uma caixinha de música, que a bailarina acompanha, apenas rodando sobre os próprios pés, olhar perdido, acima da plateia. A caixa de música acelera, ela também. Mais rápido, mais rápido, a expressão tensa da bailarina, acompanhando a música com os pés quase não tocando o chão. A música pára.

A bailarina move-se lentamente. Cada movimento do corpo é um som diferente na percussão. Os braços fazem o papel dos tons, as mãos são os pratos, o pé direito é o bumbo e a cabeça é a caixa de uma bateria imaginária. Ela começa e experimentar-se, surpresa com a reação de seu corpo. Devagar, ela vai ganhando ritmo, fazendo com que as partes do seu corpo, lentamente, criem um ritmo. Ela sorri. Mãos, braços, pés, cabeça, partes de seu corpo que vão criando som, vão criando ritmo. Bate as duas mãos, chama a plateia para interagir com ela, batendo palmas ritmadamente, acelerando…

Quando, de repente para, sobre o pé esquerdo. Silencia tudo…

Bate o pé esquerdo no chão, no ritmo do coração. No ritmo do bumbo… tum-tum… tum-tum… tum-tum…

De repente, pára. O silvo agudo do monitor cardíaco quando o coração para de bater irrompe.

A luz muda para vermelho, amarelo, branco, girando sobre a bailarina que está com o olhar fixo, austero, assustador….

Ela cai… Silêncio…

Da parte de cima do palco, desce o trapézio…

Ela se senta com as pernas arreganhadas, como se não tivesse mais controle sobre o próprio corpo. Para mover um braço, move o corpo inteiro de uma vez. Para mover o tronco tem de mover também a cabeça. Parece uma boneca velha, enferrujada. Quando ela se move, é acompanhada de barulhos de rangidos, como de uma porta velha, sem óleo nas dobradiças.

Levanta-se, meio robótica, tentando alcançar o trapézio.

Pé ante pé, com muito esforço, precisa saltar para conseguir alcançá-lo. Tenta uma, duas, três vezes, rangendo sempre. Consegue se pendurar no trapézio. Com muita leveza, segurando-se pelos braços, ela escala o trapézio…

Novamente ela, novamente leve, novamente, livre, ela balança acompanhada pelo som do piano e do violino. Usa o corpo, para balançar mais, mais rápido, ficando de pé sobre o trapézio e olhando para longe, para o mar…

Barulho de mar, de ondas, vento…

Ela canta

BAILARINA

Ó MAR SALGADO!

CORO MASCULINO (atrás das coxias, fazendo o papel dos marinheiros)

Ó MAR SALGADO!

BAILARINA

QUANTO DO TEU SAL

CORO

QUANTO DO TEU SAL

BAILARINA E CORO JUNTOS

SÃO LÁGRIMAS DE PORTUGAL!

Repete 2 vezes…

BAILARINA SOLANDO (Ainda balançando no trapézio)

“Ó mar salgado

Ó mar de féu

Levaste meu marido,

e me deixaste ao léu

não faça que a donzela

represente esse papel

Ó mar Salgado!

Teu mar é pranto meu

Balance tuas ondas

Para os braços de Morfeu

Me fazes desejar

Esmeralda e camafeu”

CORO

Ó Bailarina, Rainha da mar!

BAILARINA

Me fazes o favor de me deixar reinar

CORO

marcha soldado, cabeça de papel

BAILARINA

Pus fogo na bandeira, e te arrastei ao mar!

CORO (abre-se as coxias, os piratas aparecem)

Vai presa no quartel

BAILARINA

É o hino nacional

CORO

A polícia deu sinal

BAILARINA

Zumbi e Zabelê, Ziraldo e Sueli

CORO

Ó Bucaneiro

BAILARINA

É pose de escutar

(Começa a orquestra, música marcial. Todos dançam e cantam, em volta da bailarina. O trapézio desce lentamente, até encostar no chão. Vestem-na com asas de anjo, ela carrega uma espada de madeira e um tapa olho. Olha para a plateia, agora desejando sangue. Levanta a espada, a orquestra silencia).

BAILARINA (falando e andando pelo coro, seduzindo os membros do coro)

Quem me viu, quem me vê, quem me quer surpreender, quem varou, quem sorriu, quem surtou ao querer (o coro repete, voz branca, essa parte, enquanto a bailarina continua)

Quem me viu, voar pelo interior

Quem me viu, querer ter o seu amor

Quem lutou, pra cantar essa canção

Quem me esperou! No barco à atracação

Quem chorou! Ouviu a arrebentação!

Ó meu mar! Iemanjá me beijou de dentro do labirinto

Me viu correndo faminto

Me viu querer sempre mais

CORO

Iemanjá (mantém o a por bastante tempo! Junto com os metais)

Iemanjá!!

BAILARINA

A canção que varou a noite

Foi o canto do último açoite

Que gemeu pelo ar

CORO

Iemanjá

Iemanjá!!

BAILARINA

Quem sorriu, quem chorou,

Quem procurou o ar, quando o mar te levou

Nos teus braços pra nunca mais voltar!

(Volta ao trapézio, vai sendo elevada lentamente, o coro faz uma fuga com os temas já tocados, enquanto ela é assunta ao céu).

(Quando ela desaparece, eles cantam)

CORO

Nossa Senhora dos Navegantes!

Ouve o lamento dos suplicantes

Leva pro céu o desejo morto dos seus filhos

Faz gerar o final torto desse estribilho…

[Fim da primeira cena]

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