Redemoinho

Brasília tem essas coisas. Agosto, o pior mês da seca, o vento corta de tão frio e duro, carregando consigo o vermelho da terra amaldiçoada de sol, céu despido de nuvens.

Um garoto e seu pai andam pela rua de mãos dadas e o menino acha muito divertido o vento tão forte que faz os fios de luz cantarem um zumbido melancólico e ritmado. Eles andam apressados, o menino está indo pra escola, mas ele acha que todo lugar é lugar para aprender sobre tudo.

Na desolação daquelas casas pobres, despidas de reboco e tinta, algumas de madeira e amianto, apenas simulacros de lares, pessoas alheias a tudo apenas sobrevivem, escravos de suas pulsões, acostumados a serem invisíveis. Pobres, como o menino e seu pai.

O jornal balança ao vento. Mas dessa vez ele traz não só notícias. Ele vem embebido em sangue coagulado, seco. Mas o menino não vê, abismado com um gigantesco redemoinho vermelho que nasce muito próximo dos seus pés. E então, folhas, sacolas de lixo e o pó vermelho do chão se elevam em uma espiral dançante: bela e terrível.

E vem o estrondo. Agora não só do vento, aquele barulho de mar que é onipresente nos meses de agosto, mas a perigosa sinfonia dos telhados de amianto sendo quebrados pela força do redemoinho, enquanto voam em todas as direções, dilacerando tudo.

O pai viu, o menino não. O corpo branco e loiro deitado no chão no meio da rua, os jornais que o cobriam parcamente sendo arrancados e voando. O sangue daquela outra boca aberta na garganta, onde boca não podia existir. Desviou o olhar para o menino, absorto no redemoinho.

Carregou-o nos braços, apertando muito mesmo, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. E cantou pra ele uma canção antiga que sua mãe sussurrava para ele nas noites de vento como essa, no sertão goiano. O menino entretido no redemoinho vermelho nem percebeu nada de diferente.

O garoto foi pra escola com a cabeça cheia de sonhos. O pai voltou pra casa, sozinho e macambúzio, carregando nas costas uma vida cheia de realidades.

No dia seguinte choveu.

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