Urban Hamam

Maíra Gouveia
Jul 24, 2017 · 5 min read

Em meio ao caos, surge um oásis.

Banho Romano em Bath, Inglaterra.

Os níveis de estresse crescem exponencialmente em grandes cidades.

O estresse não tinha definição conhecida antes de 1936, entretanto diversos sintomas podiam ser observados, principalmente na sociedade Pós-Industrial. O endocrinologista Hans Selye é o primeiro a escrever, em um artigo na revista Nature, a respeito da série de respostas fisiológicas observadas em diversos organismos diferentes colocados sob o mesmo estímulo — o que foi chamado de estresse. Estudos feitos com moradores de grandes cidades observam que o fato de viver em um ambiente urbano aumenta a probabilidade de transtornos de ansiedade e de comportamento em 21 e 39%, respectivamente. (1) Com jornadas de trabalho extenuantes e crises econômicas e políticas eclodindo nos diferentes continentes, o trabalhador hoje enfrenta as mesmas condições desfavoráveis descritas por Marx e Engels a respeito do proletariado fabril do século XIX.

As questões do início da era industrial também parecem intrínsecas a contemporaneidade — conglomerados urbanos e sua consequente falta de espaço, gerando conurbação, gentrificação e trazendo consequências devido à falta de espaços de lazer, o que agrava ainda mais a situação do cidadão urbano. Se antes o trabalhador de fábrica sofria devido a uma jornada desumana de 18h/dia, hoje é possível dizer que a internet e a revolução das telecomunicações criaram um funcionário 24/7, sempre conectado, inserido em um conceito de jornada de trabalho que rompe as barreiras do tempo e do espaço. Não existe para onde escapar. As fronteiras menos rígidas se revelam um acessório de opressão, visto que em um conglomerado urbano os espaços domésticos diminutos se mesclam com o ambiente de trabalho, substancializando-se no homeoffice, nos chamados horários flexíveis e nas salas de reuniões virtuais que a maioria de nós carrega nos smartphones, convenientemente disfarçadas de grupos de WhatsApp.

Em um universo que clama por espaços de lazer, e em um ambiente de instabilidade e insegurança, onde a tendência é retomar comportamentos do passado de maneira a sentir o conforto da certeza, surge a necessidade de um lugar físico que quebre o padrão frenético e conectado das grandes cidades, e que permita às pessoas momentos de sociabilização e relaxamento.

Há, nesses espaços, um investimento não apenas no lazer mas também no bem-estar social. Além disso, desmistificam-se as fronteiras. Os japoneses acreditam no conceito do 裸の付き合い (hadaka no tsukiai), que pode ser traduzido rudemente como Sociabilização Nua. Para os japoneses, nosso tom de conversa muda quando conseguimos extirpar (e literalmente lavar) as camadas exteriores — é mais difícil ocultar nossas intenções e nosso eu verdadeiro sem que haja nenhuma proteção, e é por isso que o onsen é visto tanto como um lugar de descanso como de construção de relacionamentos sinceros.

Sentō

A sociabilização em procura da verdade é descrita em sânscrito pela palavra सत्सङ्ग (satsanga). Em meio ao concreto, essas ilhas de sociabilização fazem com que as pessoas se dispam literalmente de seus uniformes de trabalho, mas também simbolicamente de suas personas conectadas e neuróticas. O hamam turco, com suas diversas antessalas, proporciona ao usuário um circuito no qual, aos poucos, ocorre um desligamento do mundo exterior, e cria um espaço reconfortante onde o cidadão pode encontrar um ponto de equilíbrio, ainda que por um curto espaço de tempo.

A ideia vai além de um SPA, espaço elitizado de difícil acesso, considerado a evolução do banho público porém sem oferecer as vantagens sociais que esses espaços propõem. Em cidades com litoral acessível a praia pode servir a esse propósito — o uso de roupas de banho e o corpo a mostra cria o ambiente proposto pelo hadaka no tsukiai, o de uma sociabilização sem máscaras, principalmente se considerarmos o espaço da praia como um lugar de livre acesso, no qual diversas pessoas de diferentes idades e origens se misturam a procura de um mesmo propósito. Entretanto, em cidades grandes e sem acesso fácil ao litoral, esses espaços tornam-se restritos, elitizados, e o lazer uma commodity da qual poucos usufruem, geralmente atrelada ao ambiente hiper conectado.

Uma demanda por espaços de sociabilização e relaxamento fez com que hotéis em São Paulo passassem a oferecer o Day Use, no qual a pessoa pode usufruir das instalações de lazer por um valor menor do que o de uma diária. Porém, esse serviço, restrito e confinado aos grandes centros, oferece ainda um preço proibitivo a grande maioria.

Aberto em 2012, o AIRE é um banho público localizado na ilha de Manhattan, em Nova Iorque, filial de uma empresa localizada em Sevilla, cidade conhecida por manter, até hoje, seus tradicionais banhos árabes. Diferentemente do serviço de Day Use dos hotéis, o AIRE oferece um tratamento de em média 2 horas de duração, o que o torna bastante atrativo. Novos espaços estão previstos para Chicago e Paris. É esse conceito de break, de afastamento provisório, que tende-se a espalhar, sem difundir a ideia de solidão mas sim a de comunhão. No satsanga, entre outros ritos, entoam-se mantras em uma só voz, todos sentados em círculo, compartilhando de uma mesma energia. Tomar um banho comunitário é uma alternativa a esse sentimento de comunhão — o ato coletivo faz com que todos os praticantes entrem em sintonia.

A última consequência da falta de espaços de sociabilização é a falta de empatia para com aquele que, provavelmente, compartilha dos mesmos problemas que você. Em pesquisa divulgada pela Universidade da Pensilvânia, dados mostram que o estresse no ambiente de trabalho gera mais estresse, mas principalmente desengajamento. Há uma tendência a apropriação do sentimento pelas pessoas, afirma Sigal Barsade. “A reação delas não é algo do tipo ‘meu colega está estressado, coitado’; não, elas também se sentem estressadas. Pode-se transmitir um volume maior de estresse de medo para um grupo do que seria normal que sentisse.” (2)

Este é um manifesto pelo oasis urbano. Pela possibilidade de nos permitirmos estar em comunhão, de nos desconectarmos. Um apelo ao privado, onde a nudez literal e subjetiva são compartilhadas, porém as fronteiras são sólidas. É impossível reverter, ou até mesmo prever as consequências da sociedade hiperconectada. Porém somos capazes de analisar necessidades e barrar, ainda que em alguns momentos, mesmo que com barreiras físicas, o turbilhão exponencial de informação que parece nos carregar, sem rumo, através dos dias.

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