A CRÍTICA DA CRÍTICA DE ‘BACURAU’ (KLÉBER MENDONÇA E JULIANO DORNELLES, 2019)

É sempre gratificante quando um filme nacional encontra uma recepção positiva em termos de semanas em cartaz e bilheteria, ainda mais no atual contexto de sufocamento das liberdades artísticas. Bacurau (2019) de Kléber Mendonça e Juliano Dornelles conseguiu ser sucesso de bilheteria e ainda continua em cartaz em muitos cinemas. O filme dos diretores pernambucanos ainda conseguiu mexer com o público, muito por conta do contexto político em que ele foi lançado, gerando inúmeros debates e uma profusão de textos críticos, análises e leituras de grandes intelectuais até o espectador comum.
Porém eu decidi falar sobre o filme através de elementos críticos das diversas análises que eu li, assisti e ouvi. Isso porque me vi bastante incomodado com um aspecto central das críticas que espero conseguir trazer nesse breve texto. Ou seja, eu vou tentar construir minha crítica ao filme através das críticas do filme, a crítica da crítica de Bacurau. Então vamos lá.
Como falei antes, ainda há uma torrencial gigantesca de textos, vídeos, debates, podcasts sobre Bacurau, foram sendo lançados um após outro desde o lançamento do filme. A grande maioria, exceto alguns veículos especializados na crítica cinematográfica, caíram num problema central: atropelaram o universo do filme.
É importante ressaltar que todo filme possui em si mesmo uma cosmologia própria, ou seja, ele é um universo com leis que dentro de sua trama fazem sentido. Outro ponto a se destacar é que Bacurau foi gravado a mais de dois anos atrás e sua idealização a quase dez anos. Dizendo isso é importante dizer que não pretendo afastar as possibilidades de leituras que aproximam Bacurau do nosso atual contexto, afinal uma obra de arte não ganha sentido somente em seu processo produção ou a intencionalidade dos autores, mas também o público em sua recepção projeta sentidos. Caso isso não fosse possível, como seria possível negar que obras como Fahrenheit 451 ou Alphaville não permaneçam úteis para nos fornecer elementos de leitura e crítica tanto da obra como do nosso tempo histórico? Seria um engano tremendo.
Contudo, essa relação entre a obra de arte e o contexto em que nós espectadores vivemos necessita de mediação e cuidado, caso contrário haverá um atropelo ao universo do filme e também se demandará do filme mais do que ele pretende oferecer.
Mas vamos rapidamente ao filme. Bacurau é um filme de gênero, assumidamente influenciado por diretores como Quentin Tarantino e John Carpenter, segundo os próprios Kléber Mendonça e Juliano Dornelles. Todos os elementos de uma boa releitura do western estão lá: a violência desmedida, muitos tiros, sangue jorrando, o cantador, o forasteiro, o justiceiro e a ameaça. A trilha sonora com sua pegada de psicodelia e sons que nos remete de imediato ao sci-fi trash de John Carpenter. Um exemplo é a brilhante escolha de ‘não-identificado’ de Gal Costa para a abertura, afinal a música é cheia de ruídos e elementos sonoros que nos levam a viagens futuristas.
Quem já acompanhou entrevistas e textos críticos dos diretores sabem a preferencia deles pelo cinema de gênero. E vale dizer, Bacurau, apenas como um filme de gênero funciona. Qualquer pessoa que vá ao cinema com o intuito de entretenimento encontrará um excelente filme de gênero. Talvez um dos melhores do cinema nacional, mas longe de ser uma obra prima, afinal os próprios diretores confessam o caráter experimental e até pedagógico do filme em suas carreiras.
Mas como toda obra de arte transborda e se permite transbordar de significados, inclusive políticos. No caso de Bacurau, esse transbordamento se deve bastante a dois aspectos: 1) a inversão clara de papeis tradicionalmente postos nos filmes de gênero, que geralmente são importados. O negro, as LGBT’s, a gorda e o gordo, idosos, idosas, o bandido, o nordestino sertanejo, etc., etc., ou seja, nossos condenados da terra são colocados como heróis; enquanto os loiros, brancos, héteros, estadunidense, europeus e a classe média novelesca do sudeste são os vilões. 2) O mais importante nesse transbordamento foi que o contexto político de ascensão de um governo de extrema-direita conservadora, neofascista e que prega abertamente a censura, opressão e violência aos já historicamente oprimidos, casou com o drama de Bacurau.
Há outro ponto. Cabe atentar que o grande alvoroço político em torno de filme vem muito de um público ligado às esquerdas e aos “progressistas”. Diferentemente de ‘Democracia em Vertigem’ de Petra Costa em que a esquerda hegemônica e com maior alcance social era colocada como vítima indefesa diante de lobos golpistas (restando ao documentário um apelo sentimental, ainda que esteticamente bonito, rasteiro), Bacurau deu a esse público a catarse da vítima que reage violentamente — que na realidade, pela própria falta de coragem e radicalismo político desse segmento social, não seriam capaz de realizar.
Cabe colocar, voltando a falar especificamente do filme, que Bacurau tão inspirado no cinema de Tarantino fica muito aquém, mesmo considerando as diferenças técnicas e financeiras, em termos de escolhas estéticas como a fotografia, por exemplo. Raras algumas cenas como a do casal de idosos que se agacha para questionar a forasteira se ela quer morrer ou viver, numa referência direta a Bastardos Inglórios, e a cena inicial do enterro a anciã da cidade, o restante do filme ficou devendo muito nesse contexto. Porém não é novidade para quem acompanha os filmes de Kléber Mendonça que é um cara de construção narrativa, de fazer um bom enredo — ainda que eu tenha eu tenha achado que faltou uma grande cena do personagem Lunga.
Dito tudo isso, voltemos às críticas de Bacurau. Dois polos muito claros foram vistos nas análises do filme, ainda que compartilhando um mesmo tronco argumentativo: Bacurau é uma alegoria do Brasil de Bolsonaro, ponto final. Desse ponto em comum, de um lado houveram críticos como Durval Muniz e Joel Pinheiro afirmam que Bacurau possui um claro chamamento das massas para que elas se levantem violentamente contra as barbáries do Governo Jair Bolsonaro — focando seus argumentos na apologia a violência e, consequentemente, no fim da política enquanto diálogo, por isso o filme em sua mensagem seria um erro por proclamar o fim da democracia liberal. Por outro lado, temos críticas como a de Marcelo Magalhães e Guilherme Genestri, que viram em Bacurau apelo alegórico a resistência legitimada, e portanto justa, ao governo Bolsonaro.
Toda distopia, como é Bacurau, guarda em si elementos amplificados de nossa realidade. Porém Bacurau não foi feito como esses e muitos que estão usando o termo “bacuralizar” com esse intuito, afinal o filme foi rodado bem antes da eleição de Bolsonaro e roteirizado bem antes do golpe parlamentar de 2016.
O que acontece é que Bacurau, como uma boa obra de arte, capturou elementos dispersos na sociedade, como a opressão violenta aberta. Porém outra questão importante é que a violência de Bacurau não é política de partida, é uma questão de vida ou morte e não uma questão de transformação do modo de vida em que vivem, ainda que o final do filme abra a possibilidade para isso, quando os habitantes amarram o prefeito nu num jumento e fazem ele dar um passeio pelos cactos. A resistência de Bacurau é uma reação imediata a imanente morte por vir, não se trata de nenhum questionamento ético, moral, político — ainda que esses elementos comecem a ser colocados à medida que aumenta o grau de coesão social da comunidade.
Creio que a sacada de Bacurau é que o filme não parte de nenhuma situação revolucionária, nem os movimentos iniciais de resistência dos habitantes de Bacurau se tratam de nenhum ato heroico revolucionário. Se repararmos veremos que uma frase que circula o tempo inteiro entre os moradores de Bacurau para os forasteiros é: “Por que vocês estão fazendo isso?”. Bacurau é no filme apenas uma cidadezinha pequena, que do nada some do mapa. Onde os moradores apesar de irritados com o prefeito, o máximo que faziam eram permanecerem trancados em casa quando o prefeito os visitava e proferindo xingamentos.
É o próprio processo de ameaça crescente e de maior organização comunitária que vai paulatinamente transformando uma mera reação de vida ou morte em resistência política de fato. A gota d’água que separa é, além da cena do prefeito que já falei, quando os habitantes de Bacurau, mesmo já tendo rendido o líder dos forasteiros, decidem enterrá-lo vivo, além de cortarem as cabeças dos cadáveres já mortos e expor. Uma das personagens perguntam se isso foi mesmo necessário, afinal ali não se tratava mais de uma questão de vida ou morte, e a outra personagem responde que sim.
Nesse momento, no final do filme, é que Bacurau sinaliza que aquela comunidade pode transpor a mera resistência reativa em direção a uma resistência ofensiva, de não mais apenas se defender, mas atacar.
