Mês da Visibilidade Lésbica, minha vivência.
- Sobre o mês da Visibilidade Lésbica, ando reflexiva.
Um dia um amigo perguntou se ser sapatão definia minha personalidade, ele não questionou por algum motivo ruim, pelo contrário, a medida que as pessoas convivem comigo percebem que eu expresso muito na minha fala, jeito, em todas minhas expressões algo sobre ser lésbica.
Quando ele me fez essa pergunta eu naturalmente respondi “Sim!”.
Com o passar dos dias refleti sobre isso e me questionei sobre toda minha vivência, o que significa ser lésbica para mim e da importância que eu carrego em ser reconhecida como tal, sim, eu quero que vejam em mim uma mulher, lésbica e livre.
Percebi as lutas que passei e que ainda passo para poder ser livre e expressar quem eu sou.
Ser mulher em uma sociedade machista e com todas as problemáticas que diariamente lidamos, já sabemos que não é nada fácil. É foda ser mulher.
Ser uma mulher lésbica em uma sociedade machista, falocêntrica e cheia dos problemas que diariamente lidamos, é muito foda. É foda pra caralho ser lésbica.
Eu me assumi socialmente a partir dos 20 anos, tarde para muita gente que sabe o que é viver uma adolescência toda cheia de questionamentos e as loucuras da puberdade, muito muito tarde pra quem precisa ser livre.
Me assumi a partir de uma perseguição que sofri, literalmente seguida pelos meus pais que me encontraram em uma praça trocando carinhos com minha primeira namorada.
Seguiram porque desconfiaram, na real tava na cara, eu demorei demais para me aceitar e quando me vi em uma relação com outra mulher, quando vi minha sexualidade se encaixando naquilo que eu realmente desejava, era difícil demais disfarçar, segurar, fingir que estava falando com uma amiga no celular, fingir que tinha comprado presente porque ela era minha melhor amiga, fingir a cara de apaixonada por tudo que estava vivendo, eles não desconfiaram, eles viram, eles viram a filha deles amando outra mulher, tava na cara, era eu.
Os meses seguintes após eles descobrirem não foram os melhores, confesso que ainda tenho cenas bloqueadas, joguei naquele baú de memórias que a gente não pretende mais abrir, mas eu não voltei atrás, eu decidi que não iria mais me negar, venha o que vier eu serei o que eu sou.
Perdi “amigos”, empregos, um nível considerável da participação dos meus pais e uma parte da família em meu dia a dia, em minha vida.
Ganhei minha identidade, minha liberdade de após anos sem poder me expressar ter a possibilidade de ser eu, ganhei a mim.
Hoje passando dos 30 anos já pude viver inúmeras relações, trocas, experiências e sinto cada vez mais a necessidade de ser firme com quem eu sou, não baixar minha voz, minha cabeça e nada em mim diante daquilo que me nega e tenta me invisibilizar, porque diariamente em todos os espaços tentam tirar nossa visibilidade, querem nos apagar.
Eu preciso mostrar socialmente que sou sapatão SIM, faz parte da minha luta, e quando olho a minha volta sei que faz parte da luta de muitas mulheres que trilham esse caminho também.
Por isso, se você encontrar ou convive com alguma mulher lésbica, que estampa na cara isso e grita sem medo do mundo, faz da sua sexualidade a definição do seu ser, entenda que isso é o reflexo das lutas que ela vem travando dia a após dia para poder simplesmente ser, e meus amigos, respeitem essa trajetória! Respeitem nossa história!
Eu tenho orgulho e sei do que precisei para construir a mulher lésbica que eu sou e hoje eu não deixo mais que ninguém, nem as mazelas de nossa sociedade doente permitam que eu me perca, eu vou me assumir diariamente, vou me assumir por mim, pelas manas que ainda não podem, que ainda estão lutando para poder ser, vou me assumir para os lesbofóbicos engolirem a sapatão que eu sou, vou me assumir para a sociedade que quer jogar nas minhas costas sua heteronormatividade e suas regras, vou me assumir pelas que se assumem como eu e lutam por isso, pelas que morreram por serem, pelas que foram violentadas, por todas as lésbicas que estão nessa luta do meu lado, por aquelas que se assumiram um dia para hoje eu poder também me assumir.
Ninguém mais me tira de mim, eu sou a Maia, sou sapatão pra caralho e amo o meu ser.
Agradeço a todas que que lutaram antes de mim, as que irão lutar e as que lutam ao meu lado. É muito foda ser a gente, tu é forte sapatão!
