Voltando pra casa — As breves 18 horas de Twin Peaks: The Return, 1 ano depois

Maicon Firmiano
Sep 3, 2018 · 17 min read

O retorno da série de David Lynch e Mark Frost foi uma ode ao tempo. É tempo de revisitar.

Possíveis spoilers para a terceira temporada de Twin Peaks.

As estrelas mudam e o tempo se apresenta. David Lynch deve ter dado gostosas gargalhadas de quem lembrava Twin Peaks como uma série estranha carregada de referências à café e torta. Com o Retorno, terceira temporada do clássico de 1989, Lynch e Mark Frost entregaram, 26 anos depois, 18 horas de uma experiência audiovisual frustrante e satisfatória, violenta e afetuosa, desesperadora e reconfortante. É a maior jornada que eu já vivi com qualquer obra de ficção, em qualquer mídia. Chorei de tristeza, de alegria, tive taquicardias quando descobri David Bowie como uma chaleira. Empenhei mais tempo lendo e pensando sobre que qualquer tópico, ao mesmo tempo em que negligenciei tudo o que estava lendo e pensando pra sentir cada uma das 18 partes pelo o que eram, o que representaram naquele momento . Mas só assistir esse Retorno não foi suficiente. Cada momento me desafiou, entrou em conflito com cada um dos meus sentidos, alterou a química do meu cérebro com sua precisão de forma que eu não sabia ser possível. É uma obra de arte maldita, de alma sombria e coração grande, uma história de bem vs mal que ancora esse conceito milenar e batalhas cósmicas na humanidade e no carinho que temos por nossas memórias, mesmo que, nesse caso, elas não seja nossas, muito menos reais. Impossível saber o que é futuro e o que é passado, mas Twin Peaks: The Return nunca foi sobre definir o tempo, mas sim, como o tempo nos define.

O final da temporada foi ao ar há um ano atrás, no longínquo 03 de setembro de 2017 — um domingo quente, assisti vestindo uma bermuda — e hoje já não há nada de importante acontecendo com o mundo, então por que não revisitar as 18 horas mais importantes do ano passado pra, quem sabe, ter um pouco de alegria em 2018? De lá pra cá, presenciei inúmeros debates sobre o final ambíguo, aguentei livros de Mark Frost que desenham, por bem ou por mal, pontos do enredo que ficaram de lado no Retorno, me maravilhei com teorias unificadas que apontam os planos-mestre por trás do folclore etéreo que envolve esse mundo e tive tempo de sobra pra refletir sobre as implicações da tentativa (e falha?) homérica de Cooper de alterar traumas passados, impressos na figura de Laura Palmer. Tudo isso, pontos de reflexão insignificantes, já que só uma pergunta não teve resposta conclusiva: o Retorno é cinema ou televisão?

No aniversário do derradeiro grito agrupo aqui, já aviso, as divagações e observações sobre cada episódio que só serão úteis se você tiver muito tempo de sobra e nada melhor pra fazer. Para ser fiel à experiência original, a revisão segue o formato de exibição original de cada uma das partes, com observações adicionadas semanalmente.


Parte 1 e Parte 2

My log has a message for you. / The stars turn and a time presents itself.

O papel do universo sonoro de Twin Peaks: The Return (e de toda a obra de Lynch) é algo bem documentado. O primeiro elemento sônico que ouvimos nessa e em todas as outras partes, até mesmo antes do vento ecoando que precede a famosa trilha de abertura, sãos os estalos de eletricidade que acompanham a vinheta da Rancho Rosa Productions (produtora de Lynch e Frost).

O logotipo da Rancho Rosa sofre alterações de cor e textura em cada uma das 18 partes. Nada demais aí, mas vai que você se interesse.

Eletricidade é uma constante no desenho de som da saga desde Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992), representando as forças que transitam pelo Black Lodge e além, e que tem uma presença pontual e sinistra no Retorno. Abrir a temporada com os estalos elétricos é um prenúncio do que está por vir.

Com broche.

Um resgate dos últimos 25 anos se dá no primeiro frame. Agente Especial Dale Cooper em sua primeira incursão ao Black Lodge, prestes a vivenciar e ouvir as palavras imortais de Laura Palmer e ficar preso por lá. Seu broche do FBI, intacto.

Quase certo que esse frame enevoado não aparece na série original.

Estamos de volta a Twin Peaks. Os saudosos pinheiros, cobertos por névoa, nos saúdam. A serraria Packard, destruída na série original, também surge nesses primeiros momentos como indicativo de uma cidade que já não é a mesma, uma cidade fantasma ou assombrada pelos acontecimentos de duas décadas atrás. A sobreposição de tempo, do passado e do presente é um dos temas mais proeminentes do Retorno, e em menos de dois minutos essas imagens que nos são tão familiares já surgem à sombra dos traumas de tudo que segue. Voltamos ao dia da morte de Laura Palmer, aos corredores vazios da escola, com um movimento de câmera manipulado digitalmente, mais lento que o normal. Laura Palmer está morta e mesmo anos depois, a névoa da dor intercede na vida da cidade.

Após a nova abertura, único elemento que se dobra à nostalgia com o uso da trilha original (não poderia ser de outro jeito), vamos direto a um novo cenário, habitado por rostos conhecidos. O Gigante, figura do Lodge que aparentemente ajudou Cooper nos eventos da série original, encara o nosso Agente já envelhecido por alguns instantes, antes de destrinchar um briefing misterioso, mas ainda sim muito ilustrativo dos acontecimentos que se desdobrariam durante toda a temporada. “Ouça os sons” ele avisa, voltando o olhar a um gramofone que reproduz o mesmo efeito sonoro que ouvimos na parte 17, quando Laura “some” pela última vez e que volta também ao final dessa hora. Essa ordem, por assim dizer, é a primeira fala desse Retorno, algo imperativo quando lembramos a importância dos sons na mitologia de Twin Peaks. Depois, 430, Richard e Linda, dois pássaros com uma pedra. O que durante 17 horas soou como charada, teve uma resolução (será?) na hora final, mas vamos chegar lá.

Sem broche.

Aqui, Cooper está sem seu broche do FBI, em contraste com momentos logo depois no mesmo episódio em que o usa, na sala de espera do Black Lodge (o ilustre Red Room). Se isso indica alguma coisa, é que possivelmente esse missão do Gigante (mais tarde, Bombeiro) está deslocada no tempo. Sua presença como primeira cena pode ser uma pista falsa, despista o espectador da disposição temporal lógica. Na parte 15, ao voltar de seu estado catatônico via eletricidade, Dale Cooper em seu estado Dougie Jones está usando o mesmo terno e sem seu broche. Nesse arranjo, Dougie/Cooper é eletrocutado, vai até a “casa” do Bombeiro, recebe sua missão e acorda finalmente como o Agente Especial, intrépido herói.

Logging in / Logging out

Saindo da esfera esotérica, o episódio retorao ao espírito cidade-pequena-à-beira-das-montanhas, mas com uma atmosfera despida das peculiaridades engraçadinhas do original. Se em 1989 a paródia aos novelões típicos da época evocava eventos e atuações dramáticas e uma trilha sonora escandalosa, em 2017 o contraste não poderia ser maior. O cenário é o mesmo, mas ao nos reencontrarmos com Dr. Jacoby, há um minimalismo empregado na formatação das cenas, sem trilha (apenas, de novo, um desenho de som destacando os barulhos de árvores e afins) e sem barrigas narrativas, não há gancho pra nada, supomos. No início do Retorno, isso foi uma reclamação recorrente, mas ao final, foi ótimo constatar que mesmo em 18 horas, cada unidade cênica tinha uma função somativa a tudo que passou e tudo que viria a acontecer. Ainda na montanha, há um corte brusco para Nova York. Os ruídos de cada um desses ambientes são totalmente opostos mas ocupam a mesma função sonoro: sublinham que há algo acontecendo abaixo da superfície, maquinações por de trás das árvores e dos prédios. Em Fire Walk With Me, Lynch brinca com sair dos confins de Twin Peaks, e no Retorno, se lambuza em uma salada geográfica que atravessa os Estados Unidos todo, tendo em Nova York a primeira ruptura dessa estrutura que nos era tão costumeira.

Em Nova York, a caixa de vidro é apresentada em um jogo de câmeras que além de mostrar o ponto de vista do pobre e mal afortunado vigia-estudante Sam, brinca com uma possível senciência da caixa. O Final Dossier de Mark Frost deixa claro que o dopplegänger de Cooper construiu um império bilionário de crime durante as décadas que circulou pelo mundo, culminando na construção da caixa de vidro, que tem o objetivo de capturar algo: a mãe de todos os males, a força negativa que descobrimos ser o motor de todo o sofrimento do mundo, Jowday (ou Judy para os íntimos). Ou possivelmente, Dale Cooper, não dá pra saber. Além de Sam, esse núcleo apresenta também um guarda com cara de lutador de MMA e Tracey, uma mocinha do tipo saído de comédias românticas dos anos 2000, com café em mãos e tudo mais. A dinâmica entre Sam e Tracey tem uma cadência artificial, afetada (técnica usada também nas primeiras temporadas), uma interação fabricada, que se comparada à conversa naturalista entre Ben Horne e Beverly Paige na cena seguinte no Greath Northern, corre em paralelo com o contraste sônico entre Nova York e Twin Peaks: ruídos diferentes, mas mesmo assim, ruídos complementares. O artificial e o natural que coexistem em diversas camadas do Retorno. Voltando a Sam, ele toma o café que ganhou de Tracey com muito gosto, como quem diria “DAMN fine coffe” após o primeiro gole.

Na primeira cena com um cenário tirado diretamente da série original, Ben Horne recebe o irmão Jerry, que agora eu já sabendo o que lhe espera, só faz melhorar o que é talvez a maior citação do Retorno:

Swimming in my mind at this time, literally, is my new hydroponic Indica-Sativa hybrid. A touch of the mythic AK-47 by way of the Amsterdam express is baked into this banana bread and infused in this potent spreadable jam that’s ideal for creative sojourns of a solitary nature. Wheels up.

Mãe?

Jerry é o segundo personagem a falar em solidão. Dr. Jacoby, logo antes, afirma que gosta de trabalhar sozinho, e o dopplegänger de Cooper avisa no início da parte 2 que precisará de um tempo sem a companhia de seus capatazes.

Ainda em Twin Peaks, um novo cenário antigo. Na delegacia, Lucy recebe um sujeito que precisa falar com Xerife Truman, a quem ela responde com“Qual dos dois? Pode fazer diferença”. Até Lucy recebe ao final da temporada um arco que retorna aos primeiros momentos dela no Retorno, ao ser a primeira a entender qual Cooper anda circulando por ali. Qual dos dois, mesmo.

Finalmente, encontramos o dopplegänger de Cooper, 25 anos depois, em uma cena típica na obra de Lynch. Ele chega em uma casa remota com gente esquisita ao som da mesma faixa que embala a longa caminhada de Diane no episódio 16, uma versão distorcida (tal qual os personagens que a recebem como tema) de American Woman (Muddy Magnolias), remixada pelo próprio Lynch. Ele está atrás de Darya e Ray, seus capangas, que se abrigaram em um lugar que propicia um clima no mínimo similar ao esconderijo de Phillip Jeffries no The Dutchman’s e ao Black Lodge.

Otis (grande Otis), uma espécie de porteiro desse cafundó, cunha o apelido Mr. C para o dopplegänger, e Buella (grande Buella) cunha a inesquecível frase “It’s a world of truck drivers”, que parece descrever todos os associados aos esquemas de Mr. C.

Em Nova York, Tracey volta ao prédio da caixa de vidro com mais café para Sam, que dessa vez não vê problema em receber a amiga colorida, já que o guarda sumiu em algum momento. Uma coisa leva a outra e eventualmente os pombinhos são pegos de surpresa por, finalmente, uma aparição na caixa.

Judy surge, ou melhor, é conjurada, por algo ou alguém. Sob a luz do episódio 18, é possível supor que o sexo sob essas circunstâncias tenha um valor ritualístico nessa mitologia e seja responsável pelo surgimento de Judy na caixa de vidro. Mark Frost cita em A História Secreta de Twin Peaks os ritos de magia sexual realizados e registrados pelo engenheiro e ocultista Jack Parsons, a fim de abrir portais do inferno e invocar Babalon, a Deusa-Mãe de todas as abominações. Mas há um agravante: em flashback na parte 2, Cooper também surge na caixa de vidro, logo após Sam e Tracey procurarem o segurança, e some logo em seguida. Judy poderia estar em busca de Cooper do mesmo jeito em que ele está em busca dela, ou, o ato sexual consumado pelos jovens pode ser parte de um plano ritualístico para atraí-la até uma armadilha ou para libertá-la nessa dimensão. De qualquer forma, ao se materializar, Judy os mata e volta a vagar pelo mundo, em uma cena com uma construção de tensão delicada, em que a atmosfera sônica é modulada para o inesperado, com pequenos dicas antecipando o evento horripilante que está prestes a acontecer.

Buckhorn, Dakota do Sul. Os personagens desse núcleo podem aparentar atrasar o avanço do enredo mas cumprem a função de complicar as teias que os diversos pontos narrativos traçam, tendo na figura de Major Briggs uma contradição sem cabeça, um corpo que navega por todos os eixos da história e deixa impresso em cada camada informações dissonantes, difíceis de rastrear. Em certa forma, ele é o personagem mais vivo de todo o Retorno, o conector entre diversas esferas e personagens e o único nome que se repete em cada núcleo. Até mais que Laura Palmer. Agora que sabemos que a entidade anteriormente-conhecida-como Gigante atende pela alcunha de Bombeiro nessa nova conjuntura, é curioso notar um extintor embutido na porta do apartamento de Ruth Davenport, onde o corpo do Major é encontrado.

Do outro lado da cidade, William Hastings é preso pelo assassinato de Ruth e sua esposa Phylis tem uma reação resignada. Logo mais no episódio 2, ela encontra Mr. C em sua casa e o reconhece, alegre até. Ele diz que ela seguiu a natureza humana perfeitamente e atira, gerando um glitch similar ao que acontece com Diane na parte 16.

Pobre tulpa.

Antes de seu fim suspeito, Philys recebe a perícia em sua casa. O detetive Macklay usa uma lanterna defeituosa, e aponta isso a seu parceiro antes de encontrarem um pedaço de pele no porta-malas de um carro. A luz com defeito é um elemento recorrente, usado pela primeira vez no piloto original, durante a autopsia de Laura Palmer e reciclada desde então.

Antes do final da parte 1, Catherine Coulson (Log Lady) retorna pra informar a Hawk que algo está faltando, uma referência a página do diário que ele encontrará adiante na temporada.

Uma frase familiar é entoada por William Hastings, choroso e confuso sobre sua participação no assassinato de Ruth Davenport: “eu estava lá, mas era um sonho”. Sabemos que ele teve acesso a algo, viu Major Briggs e tudo mais, e a variação dessa frase que ouvimos na parte 17 (e em Fire Walk With Me) pode indicar que todos que entram em contato com as forças do Black Lodge tem a memória interditada por um estado de sonho, ou, como um dos trabalhos mais sensatos sobre a terceira temporada sugere, esse pedaço de diálogo confirma que alguém está, de fato, sonhando.

Ugh, mais uma cidade. Em Las Vegas, Duncan Todd solicita os trabalhos de alguém (ele cita um pronome feminino, podendo estar se referindo a Chantal ou à chefe de Ike the Spike), introduzindo mais um dos temas favoritos de Lynch: sujeitos suspeitos fazendo negócios escusos. O terror ao citar seu medo de Mr. C é carregado de maneirismos usados em alguns trabalhos e Lynch o usa como um artifício deliberado de aproximação dessa teia de narrativas à sua obra, um efeito que se pode definir como as reflexões de um espelho-de-circo por suas distorções ou, por que não, como uma paródia autoconsciente.

Hawk, ouriçado com o aviso da Log Lady, vai ao Glastonbury Grove, casa de uma das entradas do Black Lodge, pra começar sua recém-retomada investigação sobre o sumiço de Dale Cooper. É o primeiro momento, exceto a abertura, que o Retorno faz usa de música incidental da série original. Ele vislumbra as cortinas de veludo vermelho e a música continua até que a trilha sofre rupturas, alterações: efeitos sonoros remetentes à eletricidade interrompem esse interlúdio nostálgico pra lembrar mais uma vez que nada vai ser como lembrávamos.

E assim, finalmente, voltamos ao Black Lodge. Cronologicamente, esse é o pontapé inicial da jornada de retorno de Dale Cooper, os 25 anos depois profeticamente prometidos por Laura Palmer.

Olha aí o broche que resolve aparecer de novo.

É futuro ou é passado? Na parte 18, uma cena extremamente parecida com esta indica que é difícil delimitar a ordem de eventos. Laura Palmer, retorna e avisa que Cooper já pode sair. Seu penteado, vagamente parecido com sua aparição na última hora do Retorno (como Carrie Paige) fica ainda mais sugestiva quando ela anuncia que mesmo morta, ainda vive. Ao avistar o que emana de dentro do rosto de Laura (momento que rima com a cena em que sua mãe, Sarah, faz o mesmo), Cooper reage com resignação, entende o significado dessa mensagem.

Parte 18, lembrei e estou triste.

Logo antes de Laura cochichar algo terrível ao ouvido de Cooper, há um momento que me escapou na primeira vez: uma voz, que não é de nenhum dos personagens em cena, fala “whisper” em baixíssimo volume (suspira uma ordem de suspiro, literalmente), algo que só percebi pois tal qual Gordon Cole, mantive os fones de ouvido fincados no máximo. Logo após cochichar algum segredo interdimensional, Laura é arrebatada da sala de espera do Lodge. Cumpriu seu papel e é hora de ir pra outro lugar.

Em vários momentos, há uma intervenção digital no tempo-imagem, efeitos slow-motion artificiais que acentuam que algo está estranho. Voltamos ao início da sequência, é futuro ou é passado?

Mr. C se livra de seus comparsas, Jack e Darya, de maneiras distintas. Jack, coitado, recebe uma massagem sinistra que, aparentemente, lhe tira a vida sem objeção, de maneira parecida com que os Lenhadores tentam interceder pelo próprio Mr. C na Parte 8. Darya, pobre cúmplice de Ray no plano de execução do dopplegänger (provavelmente maquinado por um Jeffries enclausurado), recebe uma punição violenta que exibe o modus operandi que Mr. C pode ter empregado ao profanar Audrey Horne e Diane, mas não antes de declarar a ela que sabe que o jogo de gato e rato contra ele começou, e que tem um plano para não ser sugado de volta ao Black Lodge.

Ao tentar contatar Phillip Jeffries, ele percebe que do outro lado da linha não está David Bowie, mas um impostor. A voz diz que sentiu sua falta em Nova York, que sabe que ele se encontrou com Major Briggs (o Final Dossier dá indícios que Mr. C tenha sido responsável direto pela morte dele) e que em breve estará com BOB novamente. Não restam opções da origem do telefonema a não ser Judy, algo estranho observada a presença flutuante e distante da Mãe no Retorno. Antes de partir para Buckhorn, Mr. C solicita os trabalhos de Chantal e Hutch pessoalmente, o que complica a ordem de Duncan Todd, que poderia se supor ter sido para Chantal.

253 (o número da completude) é lembrado pela Evolução do Braço, um brilhante improviso de Lynch. Mais uma figura mitológica destrincha um briefing a Cooper e ele sai em direção a liberdade, mas encontra uma distração em Leland que o lembra de salvar Laura e mexe com sua coragem perfeita. Sofreu uma emboscada. Phillip Gerard e o Braço sentem que algo deu errado e uma inserção musical apresenta pela primeira vez estalos elétricos na narrativa do Lodge. O dopplegänger do Braço intervém na saída de Cooper e o envia para um desvio, o reino da não-existência, e ele surge na caixa de vidro em Nova York enquanto Sam e Tracey investigam o sumiço do guarda, logo antes da aparição de Judy. O plano de Mr. C poderia ser capturar Cooper e Judy (dois coelhos com uma pedra só) com o auxílio dos outros dopplegängers do Black Lodge, ou eles poderiam estar mancomunados com Judy para o extermínio daquele que está na sua cola.

Sei lá.

Mas Cooper é só um peão numa guerra cósmica, e algo (o Bombeiro, diretamente do White Lodge?) interfere novamente em sua jornada, o jogando diretamente pra outro lado de deus-sabe-onde.

Em um corte que ilumina sobre a origem de tais poderes, voltamos finalmente à casa dos Palmer. Sarah, a matriarca, mora sozinha em um caos doméstico de garrafas vazias, cigarros apagados e pratos sujos, reflexos da vida de dor e sofrimento que lhe foi infligida. Ela encara a carnificina numa briga de animais na televisão, mas seu semblante e postura confortáveis mudam ao desenrolar da cena, uma dica do que ela estaria vivendo agora que se abriu pra ser consumida por forças negativas, como a de por exemplo, Judy. Desde a série original ela teve uma sensibilidade que lhe permitiu visões e vislumbres do mal que cercava Twin Peaks, mas agora isso ganha conotações trágicas.

A Roadhouse (ou Bang Bag Bar) continua lotado e comandado por um dos membros da família Renault. Shelly se lamenta sobre o casamento de sua filha e celebra a presença do infeliz James, que trouxe seu amigo britânico com luva de jardinagem verde pra flertar com uma moça casada. Se eu lembrasse que a primeira aparição do traficante/mágico Red se deu nesse contexto não teria levado nenhum um pouco a sério seu quase-enredo com um rebento da família Horne.

Os Chromatics se apresentam (são a primeira atração musical a passar pelo palco da Roadhouse, e também a última, acompanhando Julee Cruise) com uma canção de letra curiosa, que espelha vários acontecimentos das duas primeiras horas e do restante do Retorno:

You’re in the water
I’m standing on the shore
Still thinking that I hear your voice

At night I’m driving in your car
Pretending that we’ll leave this town
We’re watching all the street lights fade
And now you’re just a stranger’s dream
I took your picture from the frame
And now you’re nothing like you seem
Your shadow fell like last night’s rain

O plano-mestre já está estabelecido. Ao assistir a volta de Twin Peaks pela primeira vez, fui incapaz de perceber o que as duas primeiras horas continham de delineamentos, temáticos e de enredo, que se desenvolveriam nas próximas 16 horas. Me frustrei um ano atrás. Um ano depois, perceber uma estrutura complexa planejada e executada com tanta claridade, deixa tudo mais simples. Uma liberdade de se apreciar a obra final, não importando a distância de onde se admire.


Próxima semana: Partes 3 e 4.

Maicon Firmiano

Written by

Correspondente local de assuntos internacionais.

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