Detalhe do sarcófago da Batalha de Ludovisi

Temos que acabar com Eles

Um mal ancestral vem inflamando uma multidão de inimigos irracionais. Já é hora de exterminá-los pra sempre.

Ainda atordoada com a pancada súbita que veio não sabia de onde, Joana sentiu o asfalto quente sobre os joelhos machucados e segurou de leve a nuca latejante. Não fossem seus longos cabelos cacheados amortecendo o baque, talvez o sangue que agora manchava suas mãos fossem indício de um trauma bem mais profundo, e não do corte superficial aberto pela ripa que a fizera tombar.

Em meio aos gritos e à marcha firme da multidão, ela lembrou ainda tonta de quando abrira a geladeira havia uma hora atrás, constatando a falta de margarina e que precisava passar no armazém da dona Rute antes de voltar da feira. Lembrou de ter cogitado evitar a manifestação (que ela não entendia muito bem a que vinha), mas que acabou resolvendo cortar caminho porque “imagina, é só uma gente defendendo seu ponto de vista”.

Talvez tenha sido a cor da sua blusa ou o puro azar de estar na linha de tiro certa na hora errada. Mas ela não conseguia entender o que motivaria alguém a recorrer da violência pra vomitar ao mundo — ou à câmera de algum smartphone — o seu inconformismo.

* * *

Nas praças, nos templos, nas escolas, nos palanques, nos estádios — nas empresas. Parece que todo lugar é lugar pra você ser atingido com imagens ou palavras ou gestos ou ripas de madeira.

O mundo não é um lugar seguro afinal, e a culpa de tanta mazela é dEles.

Única e exclusivamente.

São Eles a razão da desigualdade entre as classes, da corrupção, da intolerância religiosa e partidária. Eles que há muito tempo se infiltram em nossas famílias, maculando laços de afeto e suscitando a discórdia entre irmãos, pais e filhos.

Nas empresas, Eles às vezes são os opressores, explorando o trabalho e a boa vontade de quem faz o negócio acontecer; noutra feita são sanguessugas que só sabem exigir mais e mais, dando cada vez menos do seu esforço pela organização.

Eles são, sempre foram, o motivo de existir a desonra, a pobreza, a miséria, a fome, a doença, a guerra entre as nações. De uma sociedade partida ao meio — e às vezes em milhares de pedaços. Da queda de reis e impérios. Da derrota do seu time.

É por isso que precisamos acabar com Eles agora, já que não há mais tempo nem desculpas.

Só existe um obstáculo, no entanto.

Um pequeno empecilho que talvez atrase nossa empreitada em acabar com essa corja insensata e truculenta. É apenas um fato, mas que pode mudar totalmente o rumo da história — e das nossas vidas. Um bem difícil de admitir.

O fato é que Eles não existem. Não da forma como os concebemos.

* * *

Joana desamassou a blusa, juntou as compras e saiu devagar, ainda acariciando a nuca pra amenizar a dor. Ao chegar, largou as sacolas, massageou os joelhos e foi tomar uma ducha na esperança de afastar a tontura.

No banheiro, os sinais evidentes da passagem do irmão adolescente: a toalha molhada sobre o cesto, a tampa da privada levantada e as manchas de creme dental na pia. “Bem coisa de homem”, foi o lampejo instintivo, eletrificado com uma breve carga de cólera provinda da base do seu crânio.

Depois, a epifania. Sentindo uma dor mais forte, lembrou das tantas vezes que vociferou contra o guri, quando viu nele uma manta de recortes dos homens que deixaram, em seu caminho, marcas muito mais dolorosas do que as de um sarrafo desorientado.

Recordou-se de como, a cada golpe da vida, descontou sua frustração naquele menino franzino, sem nunca raciocinar sobre a origem da sua fúria.

De repente ela reconheceu em si um inimigo que nunca entendera e que jamais conseguiria derrotar — não enquanto se mantivesse pronta pra lutar.

Joana se sentou, os dedos sujos de vermelho, um aperto no peito e uma ardência nos olhos salgados. E viu que seu mundo já não era o mesmo.

De hoje em diante não era mais Ela.

Like what you read? Give Maikel Rosa a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.