Desintoxicação I

mailhena
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Sep 9, 2018 · 2 min read

Meu celular quebrou no último dia 3. Nesse dia, eu havia saído de casa pra fazer um tour experimental com Andresa, uma visitante da cidade, natural da Bahia. Não tirei muitas fotos, apenas aquelas que achei necessário para expor, da melhor maneira possível, meu futuro trabalho com o tour no instagram.

Cheguei em casa, passei as fotos para a nuvem, e o celular entrou em “bootloop”. E já era.

Abri, investiguei o problema, e o circuito estava corroído. Resultado dele ser meu companheiro e de eu adorar ouvir música no banho, enquanto lavo louça, sempre perto da água inimiga da tecnologia. Comprei outro pela internet na noite do mesmo dia. Previsão de entrega, 25 de setembro. Eu ficaria sem redes sociais (e principalmente sem whatsapp) por quase um mês.

Nos dias seguintes, percebi o quanto elas fazem falta. Não no sentido de saber da vida alheia, claro, mas quanto à impossibilidade de avisar aos contatos do whatsapp que eu estava sem acesso ao whatsapp. Que loucura.

De um certo modo, estar longe da tecnologia é uma bênção. Já é a segunda vez em dois anos que me vejo nesta mesma situação. Na última vez, o celular foi roubado e eu vim pra casa. Apesar do trauma e dos sintomas de estresse pós-traumático, foi um tempo ótimo, de paz, em que pude observar quanto tempo eu ficava e as pessoas ficam com a cara enfiada no celular por dia.

Não sinto falta dele, pelo contrário. Me lembro dos tempos do MSN, do skype pelo computador. De poder transitar sem olhar para telas. Não que seja a fórmula pra todo mundo, mas sinto que a telinha, e as muitas ansiedades que ela causa, pioram muito a inveja de alguém que sempre viu as coisas darem muito certo pra pessoas próximas sem poder tocar esse privilégio. Cada conquista alheia, cada fotografia alheia aos problemas gigantes do mundo, a ignorância quanto às dificuldades que são obstáculos no caminho de muitos me enche de raiva.

Não é justo. Não é pra ser justo. Por isso se chama privilégio.

Me reconecto comigo mesma a cada dia. Escolho se me conecto ou me desconecto quando resolvo ligar o computador ou ficar longe dele um dia inteiro, também para estender sua vida útil, considerando os milhares de dinheiros que investi nele. Consigo ler, jogar, pensar, e ficar com as minhas crises de ansiedade periódicas sem que haja uma distração à mão para ajudar a enterrá-las antes que eu perceba qual a mensagem que elas trazem.

Recebo a chance de desintoxicação como um presente. Uma chance de perceber que estou no meu próprio caminho, que é preciso ter paciência e de aceitar que ver a curadoria de conteúdo da vida alheia muito pouco me ajuda na conquista da minha autodescoberta. Obrigada, vida.

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