Documento: O Abigeato e os caminhos da carne clandestina

Com 30 mil cabeças de gado roubadas só no primeiro semestre de 2016 e um prejuízo que pode ultrapassar a casa dos R$ 100 milhões, o abigeato e o roubo de carne vem assustando o Rio Grande do Sul. Descubra porque alguns pecuaristas estão desistindo de suas criações e como o poder público, em meio a um caos na segurança, está reagindo.

(Foto: Jornal Ibiá)
Reportagem produzida em parceria com Vinícius Bühler da Rosa

Para tomar conta da propriedade rural de 996 hectares no município de Rio Pardo, quatro seguranças particulares se revezam na vigia. O gado, que antes pastava da manhã até o final da tarde, é recolhido quando o sol ainda está alto. Estas foram as alternativas encontradas pela administradora Kátia de Oliveira para amenizar um problema enfrentado há duas décadas, desde que a família comprou a fazenda na região da campanha. Nos últimos cinco anos, Kátia perdeu 21 vacas e duas ovelhas, o equivalente a R$ 43.600.

O abigeato — crime de furto envolvendo animais — acontece, segundo ela, durante todo o ano, mas se intensifica nos períodos de calor. De outubro a abril, entre as safras de soja, as perdas foram maiores. Por precaução, nessa época do ano, a pecuarista costuma tirar o gado do campo mais cedo. Kátia já teve as cercas da propriedade roubadas — 12 mil metros de arame. Foi aí que decidiu contratar o serviço de proteção particular. “Já roubaram nossos animais até durante o dia. Esconderam a carne no mato para levar durante a noite”, conta.

De acordo com a administradora, a Polícia esteve poucas vezes no local para dar os encaminhamentos aos abates clandestinos, contudo, avalia que a segurança pública não tem como dar conta por causa do aumento do número de casos e da impunidade. “Não os culpo porque, quando prendem os bandidos, acabam soltando dois dias depois. É perda de tempo”, reclama.

Se em Rio Pardo o efetivo policial não dá conta dos ataques pelos campos, em Porto Alegre a situação é ainda mais complicada. Os bandidos roubam gado até de barco. José Roberto Vweidriker, 50 anos, convive com o sumiço de suas vacas desde que era criança, quando a família tocava a produção de arroz no mesmo local. Só no último verão, ele teve 60 vacas roubadas — no seu cálculo, um prejuízo de R$ 120 mil — a maioria delas levadas em embarcações que chegam a noite pelo rio Guaíba, que banha os cerca de 800 hectares da terra onde produz arroz. “O rio é uma freeway para os ladrões”, desabafa.

Cansado de acordar e encontrar apenas cabeças e buchadas de seus animais na beira do rio, José Roberto contratou segurança privada para vigiar a propriedade durante as noites. Por mês, investe cerca de R$ 3 mil e ainda assim não consegue evitar os prejuízos. “Agora há pouco tempo levaram mais cinco animais”, conta. O pecuarista percebeu um aumento recente nos casos. “Tu abre um jornal e vê abigeato para todo o lado. Nas terras de um conhecido, em Viamão, carnearam nove bois em uma noite e levaram outras 17 em um caminhão. Não tem para onde ir”, denuncia.

Carcaças de gado deixadas no campo por abigeatários, em Montenegro-RS. (Foto: Jornal Ibiá)
“Tu abre um jornal e vê abigeato para todo o lado. Nas terras de um conhecido, em Viamão, carnearam nove bois em uma noite e levaram outras 17 em um caminhão. Não tem para onde ir”, denuncia o pecuarista José Roberto Vweidriker que no verão passado teve 60 vacas roubadas, acumulando um prejuízo de R$ 120 mil.

A impunidade é, segundo o produtor, o principal fator para que os índices não diminuam. “A polícia bate aqui, prende uns ladrões que já são conhecidos e aí diminui por um tempo. Dá uns meses, eles saem e aí começa tudo de novo”, relata. Para ele, o aumento do número de policiais atuando no combate ao abigeato seria a solução. “O efetivo é muito pequeno. Não tem gente, não temos ajuda de ninguém, nenhuma autoridade”, conta. Se o problema persistir, José vai desistir da criação de gado. “Chega um ponto em que é preciso abandonar. Se eu perco 30 cabeças de gado, já perdi todo o lucro de um ano. Não vale a pena”, encerra.


UM CRIME EM ASCENSÃO

Motivações: porque o delito aumentou tanto, quem, quanto e de que modo lucra com o abigeato?

As análises de Kátia e José Roberto sobre o aumento dos casos não está longe da realidade. O Tenente-Coronel da Brigada Militar, César Augusto Pereira da Silva, concorda. Em 2011, foram registrados 7.066 casos* no estado. Houve uma baixa em 2012 e 2013, com 6.985 e 6.974 ocorrências, respectivamente. De 2014 para cá, o crescimento é alto, chegando a 9.278 ocorrências no ano de 2015 — significa um aumento de 25%.

Carcaças de gado deixadas no campo por abigeatários, em Montenegro-RS. (Foto: Jornal Ibiá)

César, que é secretário executivo do Comitê de Gestão da Transversalidade das Ações de Combate aos Crimes de Abigeato e Abate Irregular de Animais do Rio Grande do Sul**, atribui esse aumento à impunidade. No entanto, ele se mostra otimista a uma redução em breve. “Era tratado como furto comum e raramente se tirava de circulação o abigeatário por muito tempo. Agora, com a tipificação do crime e aumento da pena, inclusive para a receptação, acredito que teremos uma redução nos delitos”, avalia.

O Setor de Inteligência da Polícia Civil divulgou que os casos de abigeato — furto e abate de gado — na região de Montenegro, aumentaram em 200% no primeiro semestre de 2016 em relação ao mesmo período de 2015. O surto desse crime está assustando os produtores que, junto com a Brigada Militar, estão estudando soluções para prevenir novos furtos. Até o mês de agosto, o prejuízo em toda a região afetada somava R$ 80.500,00.

Na torcida pelo fim da impunidade aos ladrões de gado, estão os moradores da localidade de Fortaleza, que fica no interior de Montenegro — principal cidade do Vale do Caí. Lá, onde antes a criação de gado era comum, os que ainda resistem aos roubos e seguem criando seus animais são tachados de corajosos. É o que conta o fazendeiro Flávio Azeredo. No ano de 2013, em uma única noite, ele, a irmã e um vizinho tiveram seus animais levados.

O pecuarista Flávio Azeredo abraçado em sua vaca de estimação, Gardênia, ainda filhote. (Foto: Arquivo pessoal)

Em menos de 10 horas, o prejuízo financeiro de Flávio foi de R$ 8 mil, mas a perda maior foi a vaca de estimação, Gardênia. “Eu ganhei ela ainda com o umbigo, levei dentro do carro para casa e criei. Fiz o parto do terneiro dela. Era quase como um cachorro. Entrava em casa e vivia em roda da gente. Era uma amiga que eu tinha”, lamenta. Flávio encontrou Gardênia ainda dentro de suas terras por causa dos urubus que sobrevoavam a cabeça, as patas e a buchada do animal. Junto dela, ele encontrou a carcaça de outra de suas vacas. Um terneiro, que havia sido machucado e amarrado a uma cerca morreu dias depois, os demais foram levados pelos abigeatários.

“Eu mesmo fui até a Polícia, registrei ocorrência e perguntei se não fariam coleta dos rastros de veículos, impressões digitais na porteira. Eles responderam que não tinham verba, que era mesmo só para dar um apoio moral”, lembra o fazendeiro Flávio Azeredo, segundo ele, a impunidade fez com que os ladrões perdessem qualquer medo de cometer o delito.

De quando foi roubado para cá, Flávio viu os criadores de sua região irem, aos poucos, desistindo do negócio. “Simplesmente não dá para criar gado. Boi de canga, vacas de leite aqui na Fortaleza ninguém mais tem, roubaram todos”, relata. A impunidade, segundo ele, fez com que os ladrões perdessem qualquer medo de cometer o delito. “Eu mesmo fui até a Polícia, registrei ocorrência e perguntei se não fariam coleta dos rastros de veículos, impressões digitais na porteira. Eles responderam que não tinham verba, que era mesmo só para dar um ‘apoio moral’”, lembra. “Ninguém faz nada. Roubos acontecem à tardinha. Quem ainda tem vaca, ou a mantém magra ou a coloca para dentro de casa a noite”, completa.

Para Zilmar Moussalle, diretor executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul (Sicadergs), o crime tem crescido devido a valorização do preço do boi, de acordo com ele, atualmente na média de R$ 2.500. “Tu rouba dois bois são R$ 5 mil. Em vez de assaltar um banco, correr o risco de ser filmado ou envolver-se numa explosão, o indivíduo rouba algumas cabeças de gado e consegue quase a mesma coisa”, avalia.

Conforme Moussalle, os dados obtidos por meio da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), comprovam essa matemática. “Em outubro tivemos uma reunião na sede da Farsul e os números que nos passaram é que estão sendo furtadas 30 mil cabeças de boi por semestre, isto é, 60 mil por ano, 5 mil por mês”, informa. Isso equivale a um prejuízo mínimo de 75 milhões de reais por semestre. 150 milhões de reais em apenas um ano. Sem levar em conta as perdas causadas pelo roubo das cargas de carne.

“Em outubro tivemos uma reunião na sede da Farsul e os números que nos passaram é que estão sendo furtadas 30 mil cabeças de boi por semestre, isto é, 60 mil por ano, 5 mil por mês”, informa Zilmar Moussalle, diretor executivo do Sicadergs. Isso equivale a um prejuízo mínimo de 75 milhões de reais por semestre. 150 milhões de reais em apenas um ano.

Se ampliarmos a análise para o roubo direto da carne, os números preocupam mais. Até o mês de agosto foram registradas uma média de cinco ocorrências mensais de roubo de carga, Só no mês de junho, oito caminhões carregados foram roubados. Segundo o diretor do Sicadergs, o setor sofre bastante com o tráfico. “Existe uma rede de minimercados e supermercados pequenos que compram carne clandestina. Os caminhões são interceptados de madrugada nas imediações de Canoas, Esteio e Nova Santa Rita. Os criminosos sequestram o pessoal e a carga de 10, 12, 20 toneladas é escoada rapidamente na região do Vale dos Sinos. Os caminhões a gente até recupera, mas vazios”, explica.

Segundo o diretor executivo, o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil desarticulou cerca de cinco quadrilhas nos últimos meses, inclusive com a descoberta de depósitos onde havia produtos congelados armazenados em câmaras frigoríficas. Foi criada uma rede de comunicação, por meio de reuniões do Sicadergs com a Secretaria de Segurança Pública, com a Polícia Civil e a Brigada militar.. “Nos passaram contatos, métodos para fazer as denúncias de uma forma muito mais rápida. Surtiu um efeito enorme. Agora acalmou, desde outubro que já não ocorrem estes casos”, relata.

Fábio Avancini Rodrigues, vice-presidente da Farsul, classifica o crime de abigeato em dois tipos: quando o boi é roubado para ser abatido em outra localidade e quando é morto ainda na propriedade rural, sendo transportados apenas os cortes da carne. Em relação aos números apontados pelo Sicadergs, Avancini alega serem fruto de dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública. Segundo ele, a Federação não realiza este tipo de levantamento.

O número médio de 30 mil cabeças de gado — referente tanto aos animais carneados nas propriedades quanto os furtados para posterior abate — seria alusivo ao primeiro semestre de 2016. “Não importam tanto os números. O crime é muito significativo. É uma atividade prejudicial tanto economicamente quanto pela questão sanitária. É uma carne cujo transporte e abate certamente foram realizados sem a higiene necessária. Um fator importante que põe em risco a saúde da população”, alerta.

Flagra: Vigilância Sanitária encontra local apresentando péssimas condições de armazenamento e manipulação de carnes sem procedência. (Foto: Polícia Civil)
“O crime é muito significativo. É uma atividade prejudicial tanto economicamente quanto pela questão sanitária. É uma carne cujo transporte e abate certamente foram realizados sem a higiene necessária. Um fator importante que põe em risco a saúde da população”, alerta Fábio Avancini Rodrigues, vice-presidente da Farsul.
Flagra: Vigilância Sanitária encontra local apresentando péssimas condições de armazenamento e manipulação de carnes sem procedência. (Foto: Polícia Civil)

Não existe um motivo único para o crescimento do abigeato. Fatores como o aumento da criminalidade e a insegurança presente em todo o estado, aliado à localização isolada das propriedades rurais estão entre os agravantes. A insuficiência do efetivo policial, levando em conta a dimensão da área rural e o custo zero na venda do boi (ou da carne) roubado também contribui.

A Farsul atua na defesa dos pecuaristas, cobrando ações e resultados do poder público. “Iniciativas como a força tarefa da Polícia Civil, localizada em Rosário do Sul e a Operação Avante Rural da Brigada Militar já estão colhendo seus frutos, com identificação de criminosos, prisões e devolução de bois roubados”, acrescenta Avancini. Porém, o dirigente avalia a existência de uma descrença por parte do produtor rural. Segundo ele, alguns estancieiros não chegam a sequer registrar boletim de ocorrência. Pelo famoso “não vai dar em nada” muitos crimes acabam não sendo oficializados. Provavelmente, o número verdadeiro de prejudicados é bem maior.

Em maio, a Operação Paquetá — com 92 policiais civis e militares — cumpriu 18 mandados de busca e apreensão nas cidades de Montenegro, Triunfo e Canoas. Foram apreendidos 200 quilos de carne sem procedência. O prejuízo em todo o estado ultrapassa a casa dos milhões, entretanto a Secretaria de Segurança Pública (SSP) não divulga os dados oficiais.

Para o secretário executivo do Comitê de Combate ao Abigeato, as principais motivações do crime são comerciais. “A população perde duas vezes: perdem as pessoas que compram a carne sem procedência, podendo adquirir alguma doença, além é claro do produtor rural que tem seu patrimônio esfacelado”, avalia. Questionado sobre os prejuízos, o Tenente-Coronel César Augusto Pereira, preferiu não responder. Ele alega que a SSP não autoriza a divulgação desses dados como, por exemplo, quantidade de quilos de carne apreendidos, impacto econômico, perdas dos produtores rurais e para o próprio caixa do estado.

*Dados fornecidos pela Divisão de Estatística Criminal do Departamento de Gestão Operacional da Secretaria da Segurança Pública (SSP/RS).

**Responsável pela organização e integração dos serviços públicos de Segurança Pública Rural, de combate aos crimes de abigeato e ao abate irregular de animais.


MODUS OPERANDI

Entenda como os criminosos agem, as cidades mais afetadas e os principais destinos da carne ilegal.

Apesar de haver registros em todas as regiões, a Campanha (que abrange cidades como Pelotas, Rio Grande, Santa Maria, Bagé, São Gabriel, Alegrete, Uruguaiana e Santana do Livramento) é, segundo o coronel Pereira, o local preferido para a ação dos criminosos. O destino mais comum para o gado furtado é o abate e a posterior comercialização nos arredores. A quantidade de animais furtados ou carneados varia em função do lugar onde se encontram no campo, da proximidade com as rodovias, casas ou movimentações e da presença de cães de guarda.

Carcaças de gado deixadas no campo por abigeatários, em Montenegro-RS. (Foto: Jornal Ibiá)

Normalmente os abigeatários agem a noite ou de madrugada. Apesar do conhecimento sobre os principais destinos ou das regiões mais afetadas pelo crime, é muito difícil traçar um caminho, de fato, da carne clandestina. É o que enfatiza o secretário executivo do comitê de combate ao abigeato. “Estamos vendo muitos casos de transporte de carga viva ou da carne abatida para cidades bem distantes, dificultando o rastreamento”, esclarece.

Em um dos métodos mais utilizados, duas ou três pessoas deslocam-se de carro, moto ou bicicleta até o local do furto. Uma vez no local, deixam o veículo e se afastam. Usam como desculpa que vão pescar, visitar alguém ou caçar, usando inclusive varas de pesca como disfarce. “O mais frequente é matar o animal com um único tiro na cabeça. Em algumas ocasiões deixam somente as vísceras e o couro, em outras levam somente os cortes de maior valor (os quartos traseiros), deixando o resto no campo”, relata Pereira. Uma vez concluído — o que é feito com muita rapidez devido à alta especialização dos ladrões — o veículo passa para buscá-los ou voltam para seus automóveis deixados nas proximidades.

A nova modalidade utilizada pelos abigeatários consiste em carregar lonas ou plásticos negros (que impeçam a passagem de luz) de grandes dimensões. Após abaterem o animal, armam uma espécie de barraca onde acendem uma lanterna e carneiam o animal encoberto, tornando praticamente imperceptível a ação. “É baixo o índice de abate irregular para consumo próprio do abatedor. A maior parte é para comércio. É bastante comum a venda em bairros mais humildes, por encomenda ou de porta em porta”, detalha o coronel.

Em outras ocasiões a carne é vendida para açougues, que revendem aos clientes, também existem casos onde é comercializada diretamente com os restaurantes. Conforme Conforme o Tenente-Coronel, os produtores rurais devem estabelecer uma rede de informações e estreitar contatos com a Brigada Militar e a Polícia Civil, repassando informações e verificando a situação de cercas e de equipamentos de proteção das suas propriedades.


A REAÇÃO DOS ÓRGÃOS PÚBLICOS

Para frear o aumento do crime no estado, algumas medidas estão sendo tomadas. O Comitê de Combate ao Abigeato, o endurecimento da legislação, a criação de uma força-tarefa e atuações pontuais do Departamento Estadual de Investigações Criminais, o Deic, estão entre as ações.

(Foto: Polícia Civil)

O Comitê de Gestão da Transversalidade das Ações de Combate aos Crimes de Abigeato e Abate Irregular de Animais do Rio Grande do Sul foi criado em 13 de maio de 2013 através do Decreto nº 50.313. Sediada em Porto Alegre, a comissão instituiu uma política de combate a esse crime. Ela é composta de cinco órgãos: Secretaria da Segurança Pública (SSP) (coordenadora da iniciativa); Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação (Seapi); Secretaria da Fazenda (Sefaz); Secretaria Estadual da Saúde (SES) e Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema). Na época em que foi criado, dados da Secretaria da Agricultura apontavam que 20% dos abates eram irregulares. Isto significa 500 mil animais por ano.

Segundo o Tenente-Coronel César Pereira, secretário executivo do comitê, a iniciativa visa potencializar a prestação dos serviços públicos em relação à segurança rural. A ideia é construir um sistema integrado com capacidade de responder com eficácia as demandas. “A gestão transversal tem como objetivo fundamental estender a rede, otimizando os esforços e os recursos públicos”, aponta.

Dentre as linhas de frente do comitê, está a parte de formação. Área na qual a médica veterinária Rosane Colares atua diretamente. Desde 2013, já foram realizados sete cursos, com duração de até uma semana, pelos quais foram capacitados mais de 400 servidores das cinco secretarias estaduais envolvidas. Começando pela região da fronteira, as formações já ocorreram em Bagé, Alegrete, Santana do Livramento, Pelotas, Santa Maria, Osório e Esteio. “É uma das partes mais importantes do comitê”, comenta Rosane, que trabalha no serviço de Educação Sanitária da Secretaria da Agricultura.

O objetivo das formações é propiciar aos servidores um aprendizado de trabalho conjunto para qualificar as ações da comissão. Algumas capacitações contaram com a presença da Guarda Municipal e da Polícia Rodoviária Federal. Segundo a profissional da Seapi, o aumento do roubo de cargas de carne na região metropolitana foi o que motivou a execução do curso mais recente, em Esteio. “A ideia é percorrer todo o estado, vindo do sul para o norte”, conclui.

No início de agosto de 2016, entrou em vigor uma lei que tipifica como crime o furto e receptação de animais criados para a produção e consumo. Consta nos termos da legislação o “furto e receptação de semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes”. Trata-se da Lei 13.330/2016, que atribui a pena de dois a cinco anos de prisão, inclusive para receptadores. Até então não era especificado, no Código Penal, o crime de furto de animais.

Atendendo a um apelo da Farsul e dos sindicatos rurais, foi criada em agosto a Força-tarefa de Combate aos Crimes Rurais e Abigeato. Encabeçada pelo Polícia Civil e sediada na Delegacia de Rosário do Sul, a iniciativa integra a segunda fase do Plano da Segurança Pública, lançada pelo governo do estado em julho. Compõem a força-tarefa, além do delegado responsável, Adriano de Jesus Linhares Rodrigues, outros nove agentes policiais, sendo que dois deles são especializados em agropecuária.

A unidade atende sete delegacias de polícia do interior nas cidades de Santa Maria, Alegrete, Bagé, Santana do Livramento, Pelotas, Santiago e São Luiz Gonzaga. A operação atua nas regiões de fronteira, abrangendo, inicialmente, os 60 municípios com maior incidência de crimes rurais. Só em agosto foram recuperadas 126 cabeças de gado. Para entender melhor como a equipe trabalha, seus resultados e o modus operandi das quadrilhas, a reportagem realizou uma entrevista com o delegado Adriano Rodrigues. Você pode conferi-la ao final desta matéria.

Carne sem procedência apreendida pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais em Cachoeirinha/RS. (Foto: Deic/Decon)

O enfrentamento vai além da intensificação do combate ao crime e apoio aos produtores rurais. O consumidor também é amparado por entidades como a Delegacia do Consumidor (Decon), que está vinculada ao Deic. Desde julho, Rafael Lietdke está à frente da Delegacia e já efetuou 35 prisões em flagrante por carne sem procedência ou em má conservação em estabelecimentos comerciais do estado. As fiscalizações são feitas em supermercados, frigoríficos, açougues, residências e sítios para averiguar itens como condicionamento das carnes, refrigeração do ambiente e procedência dos produtos.

De acordo com Rafael, produtos que não têm nota fiscal ou etiqueta comprovando sua origem são fruto ou de roubo de carga ou de abigeato. Após identificadas, estas carnes são retiradas de circulação e destruídas. No final do ano passado, o Decon apreendeu 15 toneladas de carne sem procedência em um frigorífico clandestino na cidade de Cachoeirinha. Além das fiscalizações e autuações, a equipe da Delegacia do Consumidor se reúne semanalmente com as vigilâncias sanitárias do estado e dos municípios para acompanhar a situação em cada local.


RISCO À SAÚDE DA POPULAÇÃO

Como saber se a carne que chega até sua mesa tem procedência? Aprenda a se proteger.

Além de ilegal, os alimentos de procedência duvidosa podem causar danos à saúde, como a toxinfecção alimentar, o que pode levar a morte. A orientação aos consumidores é, em caso de dúvidas, solicitar a nota fiscal para atestar a origem ou ainda verificar se a carne possui certificado da Secretaria de Agricultura do município.

A verificação do comércio de alimentos e o licenciamento dos estabelecimentos (de comércio e de preparo de refeições) é realizada pelas vigilâncias sanitárias municipais. As inspeções são realizadas para a liberação do alvará de saúde, em ações de rotina ou no atendimento a denúncias.

São considerados, entre outros aspectos, a adequação da infra-estrutura, higiene na conservação e no preparo dos alimentos, bem como as condições dos produtos comercializados. “Recomendamos aos consumidores que somente comprem em açougues com alvará de saúde, exposto em local visível. O açougue deve estar em boas condições de higiene. Carnes embaladas precisam ter rótulo com as informações do frigorífico de origem. Devem ser atendidas as exigências de temperatura de conservação e prazo de validade”, recomenda a médica veterinária Fernanda Araújo de Britto.

Agentes da Vigilância Sanitária realizam inspeção e apreensão de carnes sem procedência. (Foto: Polícia Civil)

Em Montenegro, cidade em que os casos aumentaram em 200%, Vigilância Sanitária, Brigada Militar e Polícia Civil iniciaram uma operação conjunta. A chefe da Vigilância na cidade, Silvana Schons, conta que dentro da operação “Fiscalização Integrada” seu departamento tem o dever de preservar a saúde dos montenegrinos. Desde abril, quando a ação iniciou, já foi recolhida mais de uma tonelada de carne do comércio. Devido ao grande número de casos de abigeato na região, o aumento de carnes sem procedência apreendidas preocupa. “É um produto que não passa por inspeção, então não dá para rastrear a saúde do animal”, explica.

Silvana alerta os consumidores para que fiquem atentos, além da procedência do alimento, para a sua aparência nas prateleiras dos supermercados. “O condicionamento da carne tem nos chamado a atenção. É preciso ver a cor e o cheiro. Também o lugar, se existe moscas e se o açougueiro está adequadamente vestido”, sugere.

Entre os problemas que podem ser causados a quem consome carne irregular, Silvana destaca a intoxicação causada pela bactéria Salmonella e outras doenças como a Toxoplasmose, Brucelose, Cisticercose e até Tuberculose. “Pode até matar, por isso o dono do estabelecimento precisa saber o quê e de quem está comprando”, enfatiza. De acordo com Silvana, o consumidor deve buscar saber se o produto que está comprando passou pela inspeção do Serviço de Inspeção Municipal (SIM), da Coordenadoria de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Cispoa) ou ainda do Serviço de Inspeção Federal (SIF).


ENTREVISTA

Conversamos com o delegado Adriano de Jesus Linhares Rodrigues, responsável pela Força-tarefa de Combate ao Abigeato e Crimes Rurais, localizada na Delegacia de Polícia de Rosário do Sul. Ele comenta a logística da operação, explica o método utilizado pelas quadrilhas e aponta uma solução para o problema do abigeato no estado.

Agente da polícia realiza inspeção no interior de Itaqui-RS. (Foto: Giancarlo Fiori/Polícia Civil)

Reportagem — A força-tarefa, composta por 10 homens, tem o objetivo de atingir 60 municípios. De que modo essa ação tem ocorrido?

Delegado — Inicialmente a meta era 60 municípios, mas a nossa ação se estende. Por se tratar de uma investigação ela é ampliada para outras regiões, sobrepujando esses limites. Temos uma equipe boa e condições de abranger essas localidades. Não atuamos especificamente no abigeato de um ou dois animais em volta das cidades. Até porque cada município tem sua Polícia Militar e Civil para dar conta desses casos. As delegacias das cidades acabam não conseguindo lidar é com grandes quadrilhas organizadas. Estas, que são o alvo da força-tarefa, atuam em vários municípios ao mesmo tempo. Já temos 45 pessoas presas e centenas de reses apreendidas. Só em dezembro desarticulamos duas quadrilhas.

R — Como se deu este processo de desarticulação das quadrilhas?

D — No início de dezembro, em Restinga Seca, prendemos sete pessoas. Foram prisões preventivas referente a integrantes de uma das maiores quadrilhas de abigeato do estado. Três prisões, decretadas pela comarca de Nova Prata, referem-se a dois furtos ocorridos na cidade de André da Rocha. Já as outras quatro prisões, decretadas pela comarca de Camaquã, referem-se a dois furtos ocorridos na cidade de Cristal.

Dentre os presos está o indivíduo de alcunha Marajá, ex-proprietário de um frigorífico da cidade de Camaquã, que foi preso em Bom Retiro do Sul. (Foto: Polícia Civil)

Em André da Rocha os investigados são acusados de terem furtado 24 animais bovinos de exposição e em Cristal 50 animais bovinos também de raça. O roubo dos 74 animais gerou um prejuízo de aproximadamente R$ 200 mil reais aos produtores. As prisões foram contra indivíduos das cidades de Parai, Bom Retiro do Sul, Canoas e Dom Pedrito. Dentre os presos está o indivíduo de alcunha Marajá (Foto), ex-proprietário de um frigorífico da cidade de Camaquã, que foi preso em Bom Retiro do Sul. Os presos também são investigados por vários outros furtos ocorridos no estado.

R — Poderia dar mais detalhes das outras prisões realizadas?

D — Na madrugada do último dia 15 de dezembro prendemos sete sujeitos em Santana do Livramento. A quadrilha tinha como modus operandi carregar o gado em caminhões boiadeiro, durante a madrugada, e levar os animais direto para frigoríficos. A nossa equipe abordou-os após terem furtado 20 animais bovinos. Na ação foram presos 2 batedores em um veículo uno, 3 indivíduos que estavam dentro do boiadeiro e 2 capatazes da propriedade de onde foram furtados os animais. Os criminosos estavam com documentação falsa, e o gado seria abatido em um frigorífico da cidade de Passo Fundo.

Quadrilha de abigeatários: Sete indivíduos foram presos em Santana do Livramento em 15/12. (Foto: Polícia Civil)
A quadrilha tinha como modus operandi carregar o gado em caminhões boiadeiro, durante a madrugada, e levar os animais direto para frigoríficos. (Foto: Polícia Civil)

R — É possível apontar qual a ação de maior impacto realizada pela força-tarefa? Qual foi a prisão mais importante ou a maior quadrilha desarticulada?

D — Posso citar uma das mais importantes. Ocorrida em 23 de dezembro, contra alguns dos maiores responsáveis pelo furto de carne na região central do Estado. Eles faziam o levantamento das propriedades rurais da região de Santa Maria para que posteriormente fossem furtar gado. A quadrilha criminosa é considerada pela Força-tarefa como uma das mais organizadas, pois possui abigeatários espalhados em cidades estratégicas do Estado, como Paraí (na serra gaúcha), Bom Retiro do Sul (Vale do Taquari), Canoas (região metropolitana), Palmeira das Missões (região das Missões), Camaquã (Costa Doce), Dom Pedrito (fronteira Gaúcha), Santa Maria e Caçapava do Sul (região central e campanha gaúcha).

Preso indivíduo que, além de integrar uma das maiores quadrilhas do estado., furtava e carneava animais na região central. (Foto: Polícia Civil)

R — Há um prazo determinado para o término das investigações? A força-tarefa é mesmo a solução definitiva para o problema?

D — As investigações demoram para amadurecer e atingir um resultado satisfatório. O que eu e a equipe propomos não é fazer um trabalho somente para acalmar. Não é uma atuação paliativa. É para resolver o problema. Para isso precisamos fazer um trabalho com profundidade, uma investigação bem técnica, que é demorada. Todas as quadrilhas serão alcançadas, com um pouco mais de tempo, é claro, todas serão desestruturadas. Em tese a investigação encerraria no final do mês de novembro, mas é um prazo curto. Creio que a criação de uma delegacia especializada seria a solução para esse problema. Não precisa um número absurdo de policiais. É diferente do policiamento ostensivo, que necessita de vários policiais. Pela dinâmica do trabalho, o que a investigação precisa é de bons agentes.

Agente da força-tarefa de combate ao abigeato — até então responsável por 45 prisões — . sediada em Rosário do Sul-RS, inspeciona o gado em Erechim-RS. (Foto: Giancarlo Fiori/Polícia Civil)

R — Como as quadrilhas atuam?

D — Há duas modalidades para esse crime. Eles conservam o animal vivo para seguir comercializando ou subtraem e abatem o gado, em grande quantidade. O modo de cada quadrilha atuar varia muito. Algumas se especializam em subtrair animais e deixá-los prontos para o abate. Lotam caminhões com cerca de 28 ou 30 bois. Realizam vários furtos dessa natureza. Estas atuam em todo o estado. Outras são regionais, atuam em determinados lugares, às vezes, também transportam de caminhão ou vão repontando o gado à noite. Através das fazendas andam 20, 30 quilômetros.

Cruzam municípios e conservam esses animais em outra propriedade para assim ir comercializando, criando, remarcando. Fazem uma coisa bem primitiva, um método que remonta aos séculos XVII ou XVIII, utilizado até hoje. Temos ainda, aquelas que se especializam no número de animais a serem abatidos. Numa média de seis bois, raramente é mais ou menos que isso, escolhem o gado pelo tipo de carne que é subtraída. Identificamos também quem extrai na beira dos rios. Nessa modalidade dois ou três animais são postos no barco e entregues na cidade.

R — Estima-se que o número real de estancieiros afetados seja muito maior. É possível mensurar essa realidade não-oficial de alguma maneira?

D — Existe uma cifra silenciosa na qual o administrador da propriedade, alheio ao conhecimento do patrão, vende o gado. Essa cifra não é contabilizada como furto porque nem o patrão sabe que foi furtado. Ele acredita no empregado que diz ter perdido os animais. Então existe essa quantia obscura, de quadrilhas que vão cooptando os empregados, capatazes e demais responsáveis pela administração da propriedade. Esses aliciamentos correspondem, certamente, a um número muito alto, um prejuízo muito grande que não é contabilizado. O grito que se dá é pelo gado morto na beira da estrada, pela carcaça, mas a cifra silenciosa é enorme e não aparece.

Orientação e supervisão: Daniel Bittencourt