Para quem não tem emprego, o escritório é a estação

A última reportagem da série sobre a mendicância e o comércio ilegal no Trensurb apresenta o ponto de vista dos ambulantes, dos usuários e da empresa

Esta é a terceira de uma série de reportagens sobre a mendicância na Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre S. A. (Trensurb). As reportagens O que há por trás da mendicância no Trensurb? e Três tempos de uma educação precária abordaram as motivações que levam ao comércio informal, nos trens e estações, e os problemas gerados pela falta de escolaridade em adultos, crianças e adolescentes. A última matéria trata do desemprego que vem aumentando na Capital e nas cidades da região metropolitana.

De acordo com a Gerência de Informações sobre o Mercado de Trabalho da Secretaria Municipal do Trabalho e Emprego de Porto Alegre (GIMT/SMTE), entre janeiro de 2015 e agosto de 2016 o índice de desemprego em Porto Alegre subiu 3,6 pontos percentuais (de 5,2% para 8,8%), o que significa um acréscimo de 40% no número de desempregados.

Já nas cidades da Região Metropolitana, o número, que já era mais alto, cresceu quase 49% no mesmo período — um acréscimo de 5,7 pontos percentuais -, subindo de 6% para 11,7%. Os dados são da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre, divulgada pela Fundação de Economia e Estatística (FEE) no final do mês de setembro.

A última alternativa

No repertório música Pop Rock e Indie brasileira. Na cabeça um sonho: viver de música. Cristiano mora no bairro Rio dos Sinos, em São Leopoldo, e tem 27 anos; Gabriel, de 23, é morador da mesma região. Eles são irmãos. Tocam violão, escaleta e cantam nas ruas e nos vagões do Trensurb. O objetivo? Sobreviver. Os dois estão desempregados há mais de um ano e, após tantas portas fechadas, encontraram na arte de rua a última opção para o sustento próprio e de suas famílias.

Cristiano e Gabriel. Foto: Mailsom Portalete

Nascidos em São Paulo, mas com um coração rio-grandense, autodenominam-se “gaulistas”. Os pais deles nasceram no Rio Grande do Sul. Na juventude foram tentar a vida na cidade de São Paulo junto de um grupo de jovens. Viveram cerca de 25 anos por lá. “Começaram a trabalhar vendendo Tele Sena. Depois de um tempo se mudaram para o município de Guarujá, o pai passou a trabalhar na construção civil e a mãe, como esteticista”, recorda Cristiano.

O pai é de Canoas e a mãe de Cruz Alta. Os irmãos nasceram no Guarujá. O pai deles, antes de conseguir o emprego na construção civil, também sobrevivia da arte de rua. “Ele fazia artesanato e vendia na rua. Tinha carteirinha de artesão, trabalhava com pedra-sabão fazendo máscaras que depois expunha na Casa do Artesão e na Feira do Bom Fim”, relembra Cristiano.

Os irmãos começaram a tocar na rua no início de 2016. “Tocávamos em frente a shoppings, em vários lugares, para ir estudando a acústica. Tocando em frente à estação começamos a perder a vergonha.” Gabriel conta que antes disso tinham uma banda.

“Eu, meu irmão e mais dois amigos tocávamos em barzinhos e eventos menores na Embaixada do Rock, em São Leopoldo, e no Jockey Club, em Porto Alegre. Estes espaços foram diminuindo, deixando a banda com pouquíssimos locais para se apresentar. Começou a dar muita briga no Jockey, realizavam festivais de punk. Os punks iam lá e anarquizavam tudo, quebravam mesmo, então o dono parou de fazer os eventos. E a Embaixada está perdida, toca até funk agora. O que salva, em São Léo, é o Rock Bar, e olhe lá”, desabafa o rapaz.

Questionados sobre o motivo de fazer música em locais públicos, Gabriel declara: “Na verdade, a ideia surgiu como uma necessidade. Já tínhamos visto bastante artistas de rua trabalhando, inclusive nos trens. Mas não sabia que a gente tinha a coragem de tocar na rua e no trem também”, explica. Cristiano sofreu um acidente de trabalho — deslocou um braço, o que causou um problema crônico — e ainda aguarda resolução de seu processo. “Na época, não tínhamos o que fazer, não podia trabalhar, então pensei: vamos tocar”, recorda.

Cristiano comenta que faz dois anos que se acidentou, porém ainda permanece vinculado à empresa, que não cancelou seu registro de trabalho. O jovem passou na perícia da Previdência Social nas duas primeiras ocasiões. “Mas na terceira vez negaram, só que o problema sempre foi o mesmo. Meu ombro desloca, sai do nada, eu nem sei qual é o movimento ocasionador disso. Até fico meio cabreiro em tocar violão, com medo de deslocar o ombro, pois quando sai do lugar, eu fico com o braço pendurado”, conta.

Nas primeiras perícias Cristiano foi aprovado e receberia por seis meses. Ganhou três, negaram a seguinte, fez nova perícia, recebeu mais três meses e a partir dali, não ganhando mais nada, teve de ir para a rua.

“Tentei fazer novas perícias, mas negaram nas três tentativas seguintes. Na última conheci um advogado na porta da agência da Previdência. Ele me instruiu e entrei com o processo na Justiça. Sempre trabalhei com arte, tocando, vendendo quadros. Eu ia pra rua expor e ficava tocando a viola, porém peguei o emprego (na empresa onde se machucou) pois precisava me estabilizar, a arte não salva ninguém. Aí aconteceu o acidente e tive de voltar pra rua, meio que por desespero.”

Gabriel explica que ele e o irmão sempre tiveram o sonho de “chegar lá” com a música, e, como a maioria dos artistas, estão começando de baixo.

Gabriel. Foto: Mailsom Portalete

O último emprego de Gabriel foi em numa empresa de telemarketing que faliu, demitindo todos os funcionários sem pagar o que lhes devia por direito — desde o salário até os demais benefícios trabalhistas. “Depois disso deixei currículo em vários lugares, sem sucesso. Passei a trabalhar por conta, fazendo um trampo aqui, outro ali”, lembra.

Na nova atividade os irmãos trabalham todos os dias, incluindo domingos e feriados, apenas ficando impossibilitados nos dias de chuva. “Às vezes pegávamos umas 8h30 ou 9h e íamos até umas 16h ou 17h. Ou pegamos mais tarde, por volta das 13h, e vamos até onde vemos que está rendendo, enquanto tiver movimento a gente segue o baile”, declara Gabriel.

“Só não costumamos ir nos horários de pico, pois os trens vêm lotados e impossibilita fazer música. O trem é o nosso foco, mas quando vemos que está muito devagar vamos para outros lugares, principalmente nas ruas de Porto Alegre. Quanto ao dinheiro, tá dando pra viver”, acrescenta Cristiano.

Cristiano paga aluguel, tem uma esposa, grávida, e um filho de um ano e meio. A mulher do músico trabalha com telemarketing. Já Gabriel não paga aluguel, mora com a esposa, que está desempregada, em uma casa situada no pátio do avô da mulher. “Ela trabalhou agora nas campanhas políticas, mas é algo que dura pouco”, explica.

Conforme os irmãos, existe uma grande diferença entre tocar na rua e no trem. Cristiano diz que na rua não precisa chamar a atenção, enquanto no trem é como se houvesse uma barreira, “o cara fica envergonhado, mas é um momento de desespero. Se você está num palco e a galera chega até você é diferente”, afirma o músico.

Gabriel desabafa. “Tem muita, muita, muita repressão nos trens. Repreendem a arte e até o comércio. Eles não conseguem entender que as pessoas estão fazendo aquilo ali por necessidade. Nós não obrigamos ninguém a dar nada, a contribuição é espontânea. O pessoal gosta e aplaude. Se eles não gostassem, com certeza, não iriam aplaudir. Já houve casos onde colocaram a gente para fora, usando uma força desnecessária. É só pedir que a gente sai”, garante.
Cristiano canta. Foto: Mailsom Portalete

Cristiano diz que várias vezes foram obrigados a descer na estação Petrobras, e não tinham “tirado nem para a passagem”. “Os seguranças daquela estação são bem violentos, às vezes, chegam pegando pelo braço, puxando. Um dia me irritei, porque tenho medo de deslocar meu ombro. Mas varia, alguns são ignorantes, parecem querer mostrar serviço e chegam na truculência; outros têm caráter e avisam pra gente parar. Todas as vezes que pediram, encerramos imediatamente”, afirma.

Quanto ao dinheiro obtido, Gabriel calcula que em dias bons tiram uns R$ 80. “Mas no Trensurb varia muito, assim como em certos dias tiramos R$ 80 pra cada um, em outros dá R$ 25.” Cristiano reclama da repressão por parte dos órgãos públicos.

“Começaram a implicar até com artistas de rua, em frente à estação. Uma vez eu estava tocando e os caras da Guarda Municipal pararam e queriam recolher meus quadros e instrumentos. Disseram que era proibido, precisava ter uma licença da prefeitura, deveria avisar dois meses antes de se apresentar e ainda pagar um alvará, no valor de uns R$ 300. Assim teria uma licença para tocar na rua. Uma vez um segurança veio dizer que o que estávamos fazendo era crime. Crime é nascer com um pensamento desses. Cultura é crime agora?”, indaga.

“Já recebemos convites para nos apresentarmos em uma rádio, a da Estação Fátima, e um rapaz de uma produtora pegou nosso contato, curtiu nosso som e disse ter intenção de gravar umas músicas nossas. A gente pensa em chegar lá, sim, é o nosso sonho e estamos correndo atrás”, conclui Gabriel.

Ambulante por opção e obrigação

Douglas, 24 anos, é morador de Viamão. Nos trens ele vende balas e torrones. Criado pela avó, perdeu a mãe aos três anos e o pai aos oito. Em função de um grave acidente que sofreu — quebrou os dois fêmures, uma canela, fraturou o crânio e a bacia e prejudicou severamente os pulmões -, restaram diversas sequelas que hoje, segundo ele, o impossibilitam de ter um emprego padrão.

Douglas olha pro céu. Foto: Mailsom Portalete

“Escolhi esta profissão pois sempre acabava sendo demitido dos empregos, por causa da minha condição. Tenho que estar me alongando o dia todo, tenho dor 24h por dia. Quando chove dói mais ainda, quando tem muito sol dói mais ainda, então procurei tentar descobrir o que poderia fazer para ter uma renda melhor e meu dia a dia. Fiz o curso de Administração no Senac, pelo programa Jovem Aprendiz. Percebi que o salário pago nas empresas é muito baixo. Devo trabalhar 220 horas mensais, 8 horas diárias, para ganhar uma média de R$ 30 a R$ 40 reais por dia, uns mil e poucos reais por mês. Aí eu pensei: vou ficar me esforçando, sentindo dor, os chefes me xingando que estou fazendo errado e sem deixar eu me alongar…

Decidi trabalhar para mim mesmo, fazer as coisas corretas. O que eu gostava de fazer era música, tenho várias escritas, comecei a vender CDs, mas queimou meu computador. Aí eu vi um pessoal vendendo bala e pensei: ‘Acho que consigo vender’. Comecei nos ônibus, depois passei para o trem. Achei legal porque tem muitas pessoas, japoneses, chineses, haitianos, alemães. Conversando com eles consigo estudar idiomas e ter minha rentabilidade, pagar minhas contas, esse é o plano”, explica.

O acidente que vitimou o rapaz ocorreu em 2009, quando o ambulante tinha 17 anos. Um adolescente atropelou Douglas e um amigo, o qual morreu na hora.

“Primeiro olharam e disseram que eu estava morto. Então eu me esforcei e consegui me mexer um pouco. Perceberam e levaram-me direto pro HPS do Porto Alegre. O enfermeiro da ambulância disse que eu parecia uma caixinha, um monte de carne achatada”, relembra. “Fiquei 19 dias em coma, disseram que eu iria morrer, desligaram os aparelhos pois não havia melhora significativa nos meus órgãos. Mas daí acordei, fiquei mais 15 dias no hospital e me mandaram para casa, para eu não pegar uma infecção hospitalar”, conta, e segue recordando que a sua avó, que sempre esteve de seu lado, cuidou dele durante toda a sua recuperação.

Douglas começou a vender no metrô este ano. Não tem dias nem horários programados para trabalhar. O jovem costuma chegar em Porto Alegre ao meio-dia, almoça e depois começa o seu expediente. Trabalha até as 23h. Douglas tem um filho para o qual paga pensão. “Minha missão é cuidar do meu filho”, diz ele.

Sobre o posicionamento da Trensurb, o rapaz não se revolta. Acredita que os seguranças estão apenas fazendo o trabalho deles. “São pagos para isso. Já me pegaram várias vezes, dizendo que não devo vender. Mas não adianta, é o meu jeito de sobreviver. O problema é que tem pessoas, como eu, que apenas oferecem um produto. Outros contam histórias, e isso incomoda os passageiros”, observa.

Douglas no seu local de trabalho. Foto: Mailsom Portalete

“Hoje em dia, mesmo sentindo dor, consigo fazer as manobras de BMX, que eu praticava antes do acidente, e posso olhar para o céu. Se eu olhar pro céu, já que lá é o trono de Deus, eu vou ter paz e alegria”, deseja. O rapaz, apaixonado por música, resolveu compor um rap contando a sua história e defendendo seus ideais.

No período entre a produção e a publicação dessa matéria, Douglas encontrou outros locais para trabalhar e decidiu abandonar os trens. Segundo ele, porque teria percebido que estava fazendo algo “ilegal e errado”. O jovem segue atuando como trabalhador autônomo.

A opinião dos usuários

Cristiano Uflacker, 23 anos, é operador de guindaste e utiliza o trem de segunda a sexta, pela manhã, entre 6h e 7h30; ao meio-dia, das 12h às 13h30; e no final da tarde, das 17h30 às 18h30. Ele diz não se importar com a presença dos vendedores ambulantes e chega até a comprar os produtos oferecidos por eles.

No entanto, o rapaz faz algumas ressalvas. “Tem vendedores que passam um pouco dos limites, que acabam gerando constrangimentos entre passageiros. Alguns tentam forçar a compra do produto. A pessoa fala que não quer e ele insiste em vender, o que acaba gerando pequenas discussões. Até porque muitas pessoas saem estressadas do trabalho”, relata.

Quanto às pessoas que alegam ter graves problemas de saúde ou filhos portadores de doenças — cujo tratamento não podem bancar -, o operador de guindaste mostra ceticismo. “Penso que a maioria dessas pessoas que pedem ajuda não precisam de verdade. Mas sempre existem exceções. Há poucos dias eu ajudei uma senhora que estava com dois netos pedindo dinheiro para comprar leite. Mas fico sempre desconfiado: e os pais dessas crianças? A grande maioria dos pedintes tem capacidade de arrumar serviço”, opina.

Sobre os músicos e demais artistas, o usuário tem uma posição mais forte. Ele entende que esses profissionais queiram se promover, mas não concorda com a arrecadação de dinheiro. “Eu acho que divulgar seu trabalho é uma coisa. E passar o chapéu é outra. Divulgar o trabalho tocando, mostrando seu talento, não vejo problema algum, porque a música faz bem. Mas você aproveitar isso para passar o chapéu e pedir dinheiro acho errado. Eu não ajudo. Acho que ele está tirando proveito da situação. Ao invés de pedir, vai trabalhar”, avalia.

Christian Siqueira, 36 anos, é morador de Sapucaia do Sul e trabalha como vigilante em Porto Alegre há cerca de dois anos. Ele costuma utilizar o metrô de segunda a sexta-feira, com mais frequência no meio da manhã, às 9h, e à tarde, entre 16h30 e 17h.

Christian afirma ter ocorrido um acréscimo no número de pessoas que adentram os trens buscando um auxílio financeiro. “Eu percebi um aumento considerável. Gente que diz precisar comprar um remédio caro, algum tipo de leite especial, pessoas desempregadas vendendo trufa, chocolate. De vez em quando contribuo, quando tenho alguma moeda sobrando, mas não tem como ajudar a todo mundo. Porém, o que eu mais vejo são vendedores de bala de goma, torrone e rapadura de amendoim”, destaca.

Para o vigilante não existe problema na ação dos comerciantes. “Eu não condeno. Se a pessoa está precisando, não está roubando, não está fazendo nada de errado. Embora a Trensurb diga que é proibido eu não tenho nada contra. Eu até compro quando acho que são coisas úteis, como, por exemplo, canetas”, declara. Sobre a fiscalização da Empresa de Trens, Christian acredita que eles pecam em muita coisa, agindo injustamente.

“Quando faço plantão pego o trem por volta das 06h50. Num desses dias havia um grupo de pessoas visivelmente embriagadas, mal vestidas — calça rasgada, camisa suja, barba por fazer -, gritando e fazendo algazarra, dançando, rebolando, consumindo vodka, cachaça, e energético, fazendo baderna. Derramaram bebidas no chão e seguiram perturbando os demais passageiros. Dois quase saíram no soco entre eles próprios. Este tipo de situação é frequente e nunca vejo os seguranças agirem”, desabafa.

Segundo Christian, não raro toma conhecimento de casos em que vândalos entram nos vagões quebrando vidros e descarregando extintores nas paredes. “Onde estão os seguranças nessas horas? Aí o tiozinho que está desempregado, vendendo uma bala de goma, um chocolate, aí isso que é errado?”, questiona.

De acordo com Caio Fernando Flores Coelho, antropólogo e professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), temos atualmente uma conjuntura econômica que precariza as relações formais de trabalho e, ao mesmo tempo, um Estado do Bem Estar Social em “retrocesso” constante. “Neste contexto é comum as pessoas que se encontram em situação social fragilizada buscarem complementação financeira de suas necessidades básicas através da informalidade. Para isso, voltam-se ao que lhes é viável, seja a venda ‘para ajudar’ ou a velha caridade de nosso sistema cultural”, pondera.

Conforme o professor, estas relações são conceituadas, na antropologia, sob o marco da “dádiva”. Onde se oferece um presente desinteressado (ou altruísta), esperando apenas “fazer o bem”.

“Neste sistema está pressuposta a reciprocidade: faz-se algo por alguém esperando que uma terceira pessoa o faça por si. Ou que o “universo” devolva esta boa ação feita através de uma rede complexa que conecta os diferentes agentes de uma sociedade como um todo. O registro da legalidade não tem grande importância neste contexto, afinal a fragilidade social é gerada pelo próprio ente (o Estado) que deveria fazer esta legalidade ser possível”, enfatiza.

Caio salienta, ainda que “a caridade ou a filantropia são sistemas que reificam, propagam e reproduzem a desigualdade que deu-lhes origem, ao invés de combatê-la à sua inexistência”, acrescenta.

O que diz a Trensurb

Arte utilizada pela entidade, na campanha de conscientização, em redes sociais

A Empresa de Trens justifica os motivos da proibição e fala como encara situações diferentes, — como no caso de músicos em comparação com ambulantes. A entidade explica o modo de agir nos momentos de flagrante e traz dados sobre a mendicância e o comércio ilegal em suas dependências, A organização aborda, ainda, trabalho infantil e comenta sobre o comércio regularizado, existente em algumas estações.

Reportagem— Porque a Trensurb proíbe a mendicância e o comércio nos trens e estações? Que posição a empresa tem frente aos músicos que se apresentam em busca de dinheiro ou apenas para divulgar seu trabalho? Há alguma diferenciação, na regra para quem o faz fora dos vagões, estando presente apenas na estação do metrô?

Trensurb — A proibição existe porque a ação de pedintes e vendedores no sistema, muitas vezes, causa incômodo aos demais usuários do metrô, sendo alvo de frequentes reclamações dirigidas à Central de Atendimento ao Usuário. Para os músicos a regra é a mesma. Artistas com interesse em divulgar seu trabalho no metrô devem entrar em contato com a empresa e apresentarem seus projetos para avaliação.

Além disso, não há diferenciação, mesmo fora dos vagões. Conforme o Regulamento do Usuário da Trensurb, disponível no site da empresa e nas estações do metrô: “Visando a segurança e o conforto dos usuários, não é permitido nos trens, estações e áreas adjacentes à empresa: (…) — pedir esmolas ou donativos”.

Reportagem — Quando ocorre o flagrante, como os funcionários da empresa procedem (ou devem proceder)? Quais medidas são adotadas para com esses usuários? Há algum tipo de sanção, punição?

Trensurb — Nos casos de mendicância, a ação resume-se à solicitação aos pedintes para que se retirem do sistema, incluindo seu acompanhamento, até a saída, por agentes da segurança metroviária. Nos casos de comércio indevido, a ação diferencia-se de acordo com o local onde este comércio está sendo realizado.

Normalmente, a nossa ação é semelhante aos casos de mendicância, ou seja, nossos empregados solicitam ao usuário que se retire do Sistema e o acompanham até sua saída. Quando a ocorrência é no município de Canoas, devido a existência de convênio com a Prefeitura Municipal, o material comercializado é apreendido e encaminhado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico da cidade.

Reportagem — Que atitudes são promovidas para coibir/prevenir essas práticas? Incluindo o usuário que incentiva, colaborando com uns trocados.

Trensurb — Idealizamos uma campanha para desestimular a mendicância e o comércio irregular nos trens, mas para que essa iniciativa tenha sucesso é preciso que os usuários façam sua parte e não deem dinheiro aos pedintes e vendedores.

Nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2015, a campanha contou com ações bem humoradas realizadas por voluntários da ONG Viver de Rir, que chamavam a atenção dos passageiros do trem e entregavam material gráfico que reforçava o pedido para que não se contribua com a mendicância, além de sugerirem que os usuários orientassem os pedintes a procurarem órgãos municipais de assistência social (citados no próprio material distribuído).

A retomada de ações similares está sendo estudada. Os agentes da segurança metroviária, por sua vez, realizam rondas móveis pelas estações e trens. A Trensurb conta ainda com a colaboração dos usuários também para denunciar esse tipo de prática por meio de SMS (8463–9836) ou telefone (3363–8026).

Reportagem — Flagramos algumas crianças, com idade média de 12 anos, vendendo bala de goma no trem. Segundo elas, com a permissão dos seguranças da estação. Qual a posição da Trensurb em relação a esta situação?

Trensurb — Certamente não há permissão. É proibido da mesma forma que para adultos, com o agravante de haver envolvimento de uma criança. Nesses casos, quando há flagrante da segurança metroviária ou denúncia dos usuários do metrô, o procedimento padrão é acionar o conselho tutelar.

Reportagem — Existe a possibilidade de um vendedor ambulante regularizar-se para atuar no metrô? E quanto a pessoas que buscam ajuda financeira para manter o tratamento de seus pares ou integrantes de ONGs. Se eles conversarem previamente com a Trensurb podem conseguir autorização?

Trensurb — Não concedemos esse tipo de autorização. Eventuais ações para beneficiar ONGs com atuação de interesse social podem ser discutidas com nosso Setor de Responsabilidade Socioambiental, mas de outras formas.

Beta Redação — Qual o número de apreensões ou flagrantes de usuários praticando essas atividades, consideradas irregulares pela empresa?

Trensurb — Do início do ano até o fim de setembro, a média de registros de atuação da segurança metroviária em casos de mendicância nos trens é de 35 por mês. No caso do comércio irregular, esse número é de 14 por mês.

Reportagem — Existem comércios regularizados dentro das estações. (bombonieres, lancherias, fruteiras, lotéricas, etc) se algum cidadão quiser abrir um comércio em alguma das estações, como ele deve proceder? Quantas vagas há em aberto? Quais são as exigências? E o preço de custo para manter?

Trensurb — Os espaços para lojas e quiosques são regularmente objetos de licitações promovidas pela empresa, divulgadas por meio de publicações legais e no site da Trensurb. O edital da próxima licitação está em elaboração no momento e o preço varia conforme o espaço, tendo um valor médio aproximado de R$ 1,75 mil mensais. No momento, todos os 30 quiosques estão ocupados. Quanto as lojas ainda há vagas, pois estão sendo utilizadas 67 das 126.

Reportagem— Qual o valor que estes estabelecimentos movimentam? Que lucro trazem para a Trensurb?

Trensurb — Hoje, os 30 quiosques e as 67 lojas rendem, mensalmente, aproximadamente R$ 170 mil à Trensurb. É importante destacar que toda a arrecadação comercial da Trensurb destina-se ao pagamento de suas despesas e a fim de se diminuir a necessidade de subvenção do governo federal, uma vez que o valor da passagem é subsidiado e, em 2015, a taxa de cobertura operacional da empresa foi de 45,43%.

Edição e orientação: Cybeli Moraes e Felipe Boff

CLIQUE AQUI PARA LER A PRIMEIRA REPORTAGEM DA SÉRIE: “O que há por trás da mendicância no transporte público?”

CLIQUE AQUI PARA LER A SEGUNDA REPORTAGEM DA SÉRIE: “Três tempos de uma educação precária”

Reportagem produzida originalmente para a plataforma Beta Redação e publicada em novembro de 2016.