Catarse contemporânea

Festa no Centro, vamos? Sou aniversariante, entro de graça, pode ser. Já cheguei aos 26 anos, tô um pouco cansada, mas vamos ver. Meu deus do céu, isso é a fila? Que calor. Muitos homens dançando até o chão, invejo a disposição. Passa por mim: “maravilhosaaaaaaaa”. Ainda nem bebi. Olha esse preço, gente, a cerveja tá 10 reais. Quer dançar? Não sei se consigo, não consigo mexer os braços, estou cercada por 4 pessoas grudadas em mim. Vamos mais pra ali. Alguém me fez de pole dance e eu não sei quem é. Segura essa caipirinha enquanto tenta atravessar a multidão. Não dá. Então bebe de uma vez. Bebo. Estou recebendo um número de encoxadas suficiente pra preencher a carência de um mês inteiro. Mas eu aaaaamo essa música, deixa eu dançar um pouco e gritar um pouco e morrer um pouco e beber mais um pouco, ele passa de novo: maravilhosaaaaaaa, eu grito: maravilhosaaaaa. Suor por todos os lados. Não sei mais qual suor é meu e qual é dos outros, parece que estamos todos suando juntos. Amiga, estou apaixonada pelo DJ, essa barba é de outro planeta. Amiga, eu acho que o DJ é gay. Tudo bem, mas vou ali pedir ele em casamento e já volto. Dale a tu cuerpo alegria macarena. Não sabia nem que eu era tão rebolativa, descobri agora. Deixa eu beber mais um pouquinho, então, que cê vai ver só o meu quadradinho de oito. Um cara encosta em mim: oi, cê é do Rio? Sou, sim. Achei que cê não fosse do Rio. Não, eu sou do Rio. (Amiga, finge aqui que é minha namorada rapidinho.) Dose de cachaça. Valesca diz: agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar. Eu descobri que eu sou romântica, amiga, não quero nem beijar ninguém. Nem o DJ? Ah, não, o DJ eu beijava. Esse chão tá molhado é de álcool ou de suor? Deve ser álcool, olha o campeonato de quem entorna mais rápido. Eu ganharia fácil, eu bebo muito bem, eu sou uma bêbada exemplar. Mas larga o celular antes que cê mande mensagem que não deveria. Opa, já mandei. Então bebe mais um pouco, vem. Dança mais um pouco, sua mais um pouco, grita mais um pouco, faz bem. Minha filha, eu tenho 26 anos, muita preocupação, isso não é mais pra mim. Vou dormindinho no ônibus, me acorda quando chegar em casa. Olha só o céu todo rosa tão bonito amanhecendo na janela do ônibus, acorda pra ver, Maíra. Maquiagem derretida, um cheiro de vodka, nem sinto as minhas pernas. Walk of shame. Mas eu consigo rir. Eu ainda consigo rir. Meu deus do céu, ainda se pode rir no mundo (acorda pra ver, Maíra). E, do alto dos meus 89 anos mentais, parece que me descubro, enfim, mais jovem do que imaginava. Mais gostosamente jovem do que imaginava.